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Fim da taxa das blusinhas aumenta pressão sobre sellers nacionais

Hugo Vasconcelos - Créditos da foto: Divulgação

Hugo Vasconcelos - Créditos da foto: Divulgação

Mudança nas compras internacionais de até US$ 50 reacende disputa entre plataformas asiáticas e vendedores brasileiros, mas impacto deve variar conforme categoria, margem e eficiência operacional

A decisão do governo federal de zerar a tributação federal sobre compras internacionais de até US$50 recolocou em evidência uma preocupação recorrente entre vendedores brasileiros que atuam em marketplaces: até que ponto o avanço das plataformas asiáticas pode comprometer a competitividade das operações nacionais.

Embora a medida aumente a pressão em categorias mais sensíveis a preço, o efeito prático tende a ser desigual. Para Hugo Vasconcelos, especialista em vendas online e sócio-fundador da Pronix, empresa de educação e tecnologia voltada a vendedores de marketplaces, o impacto dependerá menos da mudança tributária isoladamente e mais da maturidade operacional de cada seller.

Produtos de menor valor agregado, facilmente comparáveis e dependentes exclusivamente de preço tendem a sentir mais rapidamente a concorrência internacional. Em contrapartida, operações que trabalham com logística eficiente, reputação consolidada, estoque local e uso estratégico das ferramentas comerciais das plataformas ainda mantêm vantagem competitiva relevante.

“A competição internacional existe e tende a crescer, mas não de forma homogênea. O erro é tratar o tema como se todo vendedor nacional estivesse automaticamente ameaçado. Cada categoria responde de uma forma diferente, e a decisão precisa ser orientada por dados reais de demanda, posicionamento e conversão”, afirma Vasconcelos.

O debate ocorre em meio à expansão do comércio eletrônico brasileiro. Projeções da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) indicam que o setor deve ultrapassar R$258 bilhões em faturamento em 2026, consolidando o e-commerce como um dos principais canais de consumo do país.

Ao mesmo tempo, a disputa entre marketplaces se intensifica. O Mercado Livre anunciou neste ano investimento bilionário no Brasil para expansão logística, infraestrutura e fortalecimento do ecossistema comercial, elevando a exigência operacional para vendedores que dependem da plataforma para sustentar crescimento.

Na avaliação de Vasconcelos, a principal consequência da nova dinâmica não está apenas no preço final ao consumidor, mas na necessidade de revisão estratégica do mix de produtos.

“Muitos vendedores ainda tomam decisão olhando apenas o menor preço do concorrente internacional. Isso é uma análise incompleta. O que precisa ser observado é se aquele item realmente vende, qual a relevância dele dentro da plataforma, prazo de entrega, comportamento de busca e margem operacional. Sem isso, a leitura fica distorcida”, diz.

Segundo ele, a vantagem competitiva nacional continua relevante em frentes que a operação internacional ainda enfrenta mais dificuldade para replicar, especialmente entrega rápida, profundidade de estoque, reputação construída e domínio das ferramentas promocionais dos marketplaces.

A preocupação maior recai sobre pequenos e médios sellers altamente concentrados em produtos comoditizados, onde a diferenciação é baixa e qualquer ajuste competitivo pode corroer margens rapidamente.

Nesse contexto, a profissionalização tende a acelerar uma seleção natural dentro do setor.

“Nem alarmismo, nem negação. O vendedor nacional precisa identificar onde a concorrência internacional já pressiona margem e onde ainda consegue competir com logística, reputação e operação. Decisões baseadas em percepção costumam custar caro”, diz Vasconcelos.

Mais do que um debate tributário, a mudança expõe uma transformação estrutural no comércio eletrônico brasileiro. A competição deixa de ser apenas entre vendedores e passa a envolver eficiência operacional, inteligência comercial e capacidade de adaptação diante de um ambiente mais pressionado.

Para especialistas do setor, o seller que tratar o portfólio como ativo estratégico, acompanhando concorrência internacional, elasticidade de preço, conversão e comportamento do consumidor, tende a preservar competitividade mesmo com a ampliação da disputa global.

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