Ícone do site Economia S/A

Franquias sustentam empreendedorismo real em um Brasil que ainda aposta demais em exceções

Paulo C. Mauro - Créditos da foto: Divulgação

Paulo C. Mauro - Créditos da foto: Divulgação

Por Paulo Mauro, precursor do Franchising no Brasil e CEO da Global Franchise

O Brasil costuma tratar empreendedorismo como sinônimo de ruptura, tecnologia disruptiva e histórias raras de crescimento explosivo. Essa visão seduz, mas também distorce a realidade. A maior parte da prosperidade empresarial não nasce de apostas improváveis, e sim de modelos capazes de combinar marca, processo, capital local, gestão e execução diária. Nesse ponto, o franchising brasileiro merece ser visto com menos glamour e mais seriedade. Ele não é apenas um formato comercial. É uma das estruturas mais consistentes de geração de negócios, empregos e patrimônio no país.

Os números explicam por que essa discussão precisa sair do nicho. Segundo a Associação Brasileira de Franchising, o setor encerrou 2025 com faturamento de R$ 301,7 bilhões, crescimento nominal de 10,5% sobre o ano anterior e o maior resultado da história. O franchising brasileiro reúne 3.297 redes, mais de 202 mil unidades em operação e 1,76 milhão de trabalhadores diretos. Cada nova unidade franqueada gera, em média, nove postos de trabalho. Poucos setores conseguem transformar expansão empresarial em capilaridade econômica de forma tão clara, chegando a cidades grandes, médias e pequenas com negócios operados por empreendedores locais.

A força do modelo está justamente na sua simplicidade econômica. Uma franquia bem estruturada reduz o risco de começar do zero sem eliminar o papel do empreendedor. O franqueador entrega marca, método, produto, suporte e inteligência acumulada. O franqueado entra com capital, presença local, gestão da unidade e conhecimento do consumidor ao redor. Essa divisão torna o sistema poderoso porque alinha incentivos. A marca cresce sem depender apenas de filiais próprias e o empreendedor opera um negócio com mais repertório, processo e previsibilidade do que teria se começasse sozinho.

O Brasil precisa valorizar esse modelo porque ele cria um tipo de riqueza mais distribuída. O exemplo de redes como O Boticário, com quase 3.900 franquias no país, mostra como uma marca pode multiplicar operadores locais e transformar lojistas em empresários com patrimônio relevante. O mesmo raciocínio vale para alimentação, saúde, beleza, educação, serviços, academias, clínicas, conveniência e tantos outros segmentos. Em 2025, segundo a ABF, Saúde, Beleza e Bem-Estar faturou R$ 74,3 bilhões, avanço de 14,6% no ano. Não se trata apenas de vender perfume, comida ou serviço. Trata-se de criar plataformas de empreendedorismo em setores de demanda recorrente, menos dependentes de ciclos especulativos e mais próximos da vida cotidiana.

A crítica mais comum ao franchising é a de que o franqueado teria menos liberdade do que em um negócio próprio. Essa leitura ignora o ponto central. Liberdade sem método pode virar improviso caro. Em mercados competitivos, o empreendedor não precisa apenas de autonomia, precisa de sistema, marca, treinamento, dados, fornecedores e governança. A Lei de Franquias, reformulada pela Lei 13.966 de 2019, também ajuda a sustentar esse ambiente ao exigir transparência na relação entre franqueador e candidato a franqueado, especialmente sobre custos, taxas, pendências e condições do negócio. Regulação bem desenhada, nesse caso, não trava o setor. Ela aumenta confiança e permite decisões mais informadas.

O franchising não deve ser tratado como atalho para enriquecimento fácil. Franquia exige capital, disciplina, gestão e capacidade de operação. Ainda assim, em um país que precisa gerar emprego, formar novos empresários e ampliar oportunidades fora dos grandes centros, poucos modelos entregam tanto com tanta recorrência. O Brasil não precisa escolher entre inovação e franquias. Precisa entender que desenvolvimento econômico também se constrói por meio de formatos testados, escaláveis e capazes de transformar trabalho local em patrimônio. Em vez de olhar apenas para negócios que prometem mudar o mundo, talvez seja hora de dar mais atenção aos que já mudam a vida de milhares de empreendedores todos os anos.

Sair da versão mobile