Enquanto continuam ajudando os filhos, muitos adultos começam a assumir despesas relacionadas ao envelhecimento dos pais e acabam postergando o próprio futuro
Faculdade, aluguel, entrada do primeiro imóvel, plano de saúde, medicamentos, cuidadores e adaptações na residência passaram a fazer parte da mesma conta para um número crescente de brasileiros entre 40 e 60 anos.
Conhecida como geração sanduíche, essa realidade descreve adultos que continuam oferecendo suporte aos filhos ao mesmo tempo em que passam a lidar com demandas financeiras e cuidados relacionados ao envelhecimento dos pais. O resultado é uma pressão crescente sobre o orçamento justamente em uma fase da vida tradicionalmente associada à consolidação patrimonial e à preparação para a aposentadoria.
Os números mostram que esse movimento tende a ganhar força. Em 2025, os brasileiros com 60 anos ou mais passaram a representar 16,6% da população, totalizando 35,2 milhões de pessoas, segundo dados da PNAD Contínua divulgados pelo IBGE em abril de 2026. No mesmo período, a população com menos de 30 anos diminuiu, refletindo o envelhecimento acelerado do país e a mudança na estrutura das famílias brasileiras.
Além da pressão sobre o orçamento, a sobreposição dessas responsabilidades costuma adiar decisões importantes relacionadas à formação de reservas, aos investimentos de longo prazo e à construção da renda futura.
Para Felipe Oliveira, contador, advogado e especialista em tributação empresarial, a mudança demográfica exige que temas como sucessão e organização patrimonial deixem de ser tratados apenas diante de uma necessidade imediata.
“O planejamento sucessório deixou de ser uma discussão restrita às famílias de alta renda. Antecipar decisões relacionadas ao patrimônio, à sucessão e à proteção dos ativos amplia alternativas e reduz riscos para todos os envolvidos”, afirma.
“O maior erro é tratar sucessão e organização patrimonial como temas do fim da vida. Na prática, essas decisões precisam acompanhar as mudanças da estrutura familiar e da longevidade da população”, completa Oliveira.
Segundo Sabrina Herrschaft, administradora, especialista em planejamento financeiro e previdência privada e certificada CFP®, uma das consequências mais frequentes desse cenário é a redução ou até a interrupção das contribuições destinadas à previdência complementar e aos investimentos de longo prazo para atender demandas imediatas da família.
“Muitas pessoas priorizam as necessidades do presente e deixam para depois decisões relacionadas à aposentadoria e à formação de patrimônio. O problema é que estamos vivendo mais e, consequentemente, também precisaremos financiar um período maior após o encerramento da vida profissional”, explica.
Para a especialista, instrumentos como previdência privada, reservas financeiras e planejamento patrimonial deixaram de ser estratégias voltadas apenas ao patrimônio e passaram a fazer parte da organização financeira das famílias.
A questão que começa a surgir em muitos lares brasileiros é simples: quem está financiando duas gerações conseguirá chegar à aposentadoria com a mesma tranquilidade das gerações anteriores?








