Enquanto inteligência artificial aumenta a exposição de funções de escritório à automação, expansão da infraestrutura que sustenta a tecnologia, como a construção de Data Centers, abre uma nova frente de demanda por mão de obra técnica
São Paulo, agosto de 2026 — A inteligência artificial pode até funcionar na nuvem, mas a infraestrutura necessária para colocá-la em operação está firmemente ancorada no mundo físico. Por trás de modelos generativos, serviços de cloud e aplicações que processam bilhões de dados estão data centers que precisam ser projetados, construídos, energizados, refrigerados e mantidos por engenheiros, eletricistas, técnicos, profissionais de climatização e trabalhadores da construção.
É nesse encontro entre a economia digital e o canteiro de obras que surge um dos paradoxos da revolução da IA: a mesma tecnologia que aumenta a exposição de determinadas ocupações de escritório à automação está estimulando a construção de uma infraestrutura que depende intensamente de trabalho técnico e presencial.
O movimento já aparece nos dados. De acordo com o Relatório da Lightcast, empresa global líder em análise de dados do mercado de trabalho, divulgado em junho de 2026, os anúncios globais para funções de construção que mencionam data centers cresceram 23% em apenas seis meses e aproximadamente dobraram em dois anos. A procura por técnicos e engenheiros ligados a data centers avançou em ritmo semelhante.
Uma das maiores empresas da indústria de inteligência artificial também começa a dimensionar esse efeito sobre o emprego. Em agosto de 2026, a NVIDIA divulgou estimativa da consultoria Public First segundo a qual a demanda por IA impulsionada pela companhia deverá contribuir com US$ 485 bilhões para o PIB dos Estados Unidos em 2026, enquanto a infraestrutura de IA equipada com chips NVIDIA deverá sustentar mais de 100 mil empregos no país. Entre os postos diretamente associados a essa expansão estão eletricistas, encanadores, técnicos de climatização, montadores de tubulações e trabalhadores da construção.
A dimensão física da inteligência artificial também tem sido destacada pelo fundador e CEO da NVIDIA, Jensen Huang. Em março, ao explicar as diferentes camadas necessárias para sustentar a tecnologia — energia, chips, infraestrutura, modelos e aplicações —, o executivo classificou a expansão em curso como o “maior ciclo de construção de infraestrutura da história da humanidade”. Segundo Huang, fábricas de IA e data centers demandam profissionais como eletricistas, encanadores, montadores de tubulações, trabalhadores do aço, técnicos de redes, instaladores e operadores, justamente categorias de mão de obra especializada que já enfrentam escassez.
No Brasil, a Sondagem Indústria da Construção, divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em julho de 2026, colocou a falta ou o alto custo de trabalhadores qualificados como o terceiro maior problema enfrentado pelo setor, atrás apenas dos juros elevados e da carga tributária.
Ao mesmo tempo, a construção segue ampliando o emprego. Dados do Novo Caged mostram que o setor criou 168.962 postos formais no primeiro semestre de 2026, crescimento de 5,73%. Obras de infraestrutura responderam por 64.793 dessas novas vagas. Para Giuliana Borin, Diretora Executiva da CTC Infra, construtora especializada em empreendimentos de alta complexidade e missão crítica, a discussão sobre o futuro do trabalho provocado pela IA precisa incluir essa dimensão física.
“Quando falamos em inteligência artificial, normalmente pensamos em software, algoritmos e automação. Mas toda essa capacidade computacional precisa ser construída. Existe concreto, estrutura, energia, refrigeração, cabeamento, sistemas de segurança e uma enorme cadeia de engenharia por trás da IA. Essa revolução também será construída por eletricistas, técnicos, engenheiros e profissionais da construção”, afirma.
No entanto, instalações de missão crítica como Data Centers exigem sistemas elétricos redundantes, climatização de precisão, infraestrutura de telecomunicações, automação, proteção contra incêndios, controle de acesso, monitoramento e estruturas preparadas para equipamentos de alta densidade.
“Não basta aumentar o número de profissionais, é necessário formar pessoas capazes de trabalhar em ambientes tecnicamente mais complexos, nos quais execução, segurança, qualidade e confiabilidade precisam caminhar juntas. O profissional pode vir da construção, da elétrica ou da climatização, mas precisa adquirir competências específicas para trabalhar em infraestrutura de missão crítica”, explica Giuliana.
Neste contexto, empresas de engenharia, operadores de data centers, fabricantes, entidades setoriais e instituições de ensino precisarão trabalhar de maneira mais integrada para ampliar a formação desses profissionais. “Se o Brasil pretende ocupar uma posição relevante na infraestrutura global de inteligência artificial, não basta oferecer energia, conectividade e terrenos. Precisamos oferecer capacidade de execução. E capacidade de execução significa ter profissionais preparados”, afirma.
Desafio é global
A edição de 2026 da pesquisa do Uptime Institute aponta que mais da metade dos operadores de data centers enfrenta dificuldades para encontrar candidatos qualificados para as vagas disponíveis. O instituto afirma que a escassez de profissionais e competências pode estar se intensificando justamente quando o setor precisa expandir sua capacidade. A Lightcast chega a uma conclusão semelhante: mesmo que questões como disponibilidade de terrenos, energia, licenciamento e investimento sejam solucionadas, a disponibilidade de trabalhadores pode se transformar em um fator limitante para novos projetos.
O desafio ganha dimensão maior diante dos investimentos projetados para a economia digital. Segundo a Brasscom, o Brasil pode receber até R$ 2 trilhões em investimentos em tecnologias entre 2026 e 2029. Desse total, R$ 765,6 bilhões devem ser destinados à computação em nuvem e R$ 736,6 bilhões à inteligência artificial.
No caso específico dos data centers, o Ministério de Minas e Energia informou em junho que há 7,1 GW em projetos com pedidos de acesso à rede que representam aproximadamente R$ 159 bilhões em investimentos previstos para os próximos anos. Quanto maior a capacidade instalada, maior será a necessidade de projetar, construir e manter a infraestrutura que sustenta esses investimentos.
Para Giuliana, isso cria uma oportunidade para profissões que frequentemente aparecem fora do centro da discussão sobre inteligência artificial. “Há uma narrativa de que o futuro do trabalho será exclusivamente digital, mas não será. Para cada nova camada de capacidade computacional, existe uma infraestrutura física que precisa sair do papel. E isso exige gente no canteiro, nas instalações elétricas, na climatização, na automação, no comissionamento e posteriormente na operação”, finaliza.

