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IA expõe dilema estratégico para o Brasil entre competitividade global e aumento das desigualdades

João Paulo Ribeiro - Créditos da foto: Divulgação

João Paulo Ribeiro - Créditos da foto: Divulgação

Tecnologia abre caminho para ganhos de produtividade e renda mas exige coordenação para evitar concentração econômica e exclusão regional

A inteligência artificial se consolida como uma das principais forças de reorganização da economia global e coloca o Brasil diante de um dilema estratégico. A adoção da tecnologia pode elevar a produtividade, estimular novos modelos de negócio e permitir que o país avance em competitividade internacional. Ao mesmo tempo, a incorporação desigual da IA tende a ampliar o fosso entre empresas estruturadas e aquelas que ainda operam com baixo nível de digitalização.

O debate ganha força em um momento em que organismos multilaterais, como Banco Mundial e OCDE, apontam que tecnologias baseadas em IA podem gerar ganhos relevantes de eficiência, sobretudo em economias emergentes, desde que combinadas a capital humano, governança e investimento em inovação. Sem esses fatores, os benefícios tendem a se concentrar em poucos grupos econômicos.

Para João Paulo Ribeiro, CEO da ON, especialista em especialista em  Customer Experience, a inteligência artificial representa uma oportunidade histórica, mas não automática. A ON atua no desenvolvimento de soluções de atendimento baseadas em inteligência artificial, integração entre pessoas e tecnologia e novos modelos de trabalho digital. “A IA pode ser o maior motor de inclusão produtiva da nossa geração, mas só se for usada para ampliar acesso ao trabalho e à renda, e não apenas para substituir pessoas”, afirma.

Segundo ele, o Brasil reúne condições específicas para avançar mais rápido do que países que já passaram por ciclos completos de industrialização. A forte presença do setor de serviços, aliada à alta penetração digital, cria espaço para ganhos de produtividade sem depender exclusivamente de grandes investimentos industriais. “O Brasil não pode apenas consumir IA. Precisa criar valor com ela, adaptando a tecnologia à sua realidade econômica e social”, diz.

O papel das empresas médias e do interior

A discussão sobre competitividade não se restringe às grandes corporações. Empresas médias e negócios localizados fora dos grandes centros urbanos tendem a desempenhar papel central na difusão da IA. A possibilidade de operar processos de forma remota, com apoio de sistemas inteligentes, reduz barreiras geográficas e amplia o acesso a mercados antes restritos às capitais.

Dados do IBGE e do Sebrae indicam que pequenas e médias empresas ainda enfrentam dificuldades na adoção de tecnologias avançadas, o que reforça o risco de aprofundamento das desigualdades produtivas. Para Ribeiro, esse cenário pode ser revertido se a IA for aplicada como infraestrutura de trabalho e não apenas como ferramenta de automação. “Quando a tecnologia chega ao interior, ela cria novos polos econômicos sem exigir migração ou concentração de renda”, afirma.

Benefícios e riscos no horizonte

Antes de apresentar recomendações práticas, especialistas alertam que a inteligência artificial não é neutra. Relatórios da UNCTAD mostram que investimentos globais em IA estão concentrados em poucos países e grandes empresas de tecnologia, o que pode limitar a autonomia de economias em desenvolvimento.

“A concentração tecnológica é um risco real. Sem um ecossistema local forte, o país pode ganhar eficiência no curto prazo, mas perder capacidade de inovação no longo”, afirma o executivo. Para ele, a competitividade brasileira depende da combinação entre tecnologia, pessoas e modelos de negócio capazes de distribuir ganhos de forma mais ampla.

Como adotar IA sem ampliar desigualdades

A adoção responsável da inteligência artificial começa com decisões estratégicas e não apenas tecnológicas. A seguir, alguns pontos considerados essenciais por especialistas do setor.

O executivo destaca quatro cuidados básicos para empresas que pretendem iniciar esse processo:

1- Diagnóstico da operação: identificar áreas onde a IA pode gerar ganhos mensuráveis de produtividade e qualidade, evitando projetos genéricos.

2- Capacitação das equipes: investir em requalificação profissional para que pessoas atuem em conjunto com a tecnologia.

3- Escolha criteriosa de parceiros: priorizar fornecedores com conhecimento do negócio, atenção à governança de dados e segurança jurídica.

4- Escala gradual: começar com projetos-piloto antes de expandir, reduzindo riscos operacionais e dependência tecnológica.

Na avaliação de Ribeiro, contratar empresas especializadas em IA exige olhar além do discurso de inovação. “É preciso entender se a solução resolve um problema real e se está alinhada à maturidade da empresa. Caso contrário, a tecnologia vira custo e não vantagem competitiva”, afirma.

Competitividade ou aprofundamento das distâncias

O impacto da inteligência artificial sobre a economia brasileira dependerá menos da tecnologia em si e mais das escolhas feitas agora por empresas e formuladores de políticas. Sem coordenação, a IA tende a reforçar assimetrias regionais e setoriais já existentes. Com estratégia, pode se tornar um vetor de geração de renda, inclusão produtiva e criação de novos polos econômicos.

“A IA não é um fim. É um meio”, resume Ribeiro. “Ela pode ajudar o Brasil a competir globalmente, mas só fará sentido se for capaz de incluir mais pessoas e empresas nesse processo.”

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