Tráfego de IA para sites de varejo nos EUA cresceu 62% em um ano, enquanto 26% dos brasileiros já recorrem a ferramentas como ChatGPT e Gemini para pesquisar produtos
A inteligência artificial mudou uma das etapas mais importantes do varejo: a descoberta de produtos e marcas. Dados da Adobe Analytics mostram que o tráfego encaminhado por ferramentas de inteligência artificial para sites de varejo nos Estados Unidos cresceu 62% em julho de 2026, na comparação com o mesmo mês do ano anterior. O avanço ganha ainda mais relevância quando se observa o comportamento desses consumidores: visitantes vindos de plataformas de IA apresentaram taxa de conversão 60% maior e geraram 53% mais receita por visita do que aqueles que chegaram por outros canais.
O movimento não está restrito ao mercado norte-americano. No Brasil, a E-commerce Trends 2026, realizada pela Octadesk em parceria com a Opinion Box, identificou que 26% dos consumidores já utilizam ferramentas de inteligência artificial, como ChatGPT e Gemini, durante a pesquisa de produtos. A informação mostra que a IA começa a ocupar uma posição dentro da jornada de compra do brasileiro, funcionando como uma espécie de filtro antes mesmo de o consumidor acessar diretamente o site de uma empresa ou marketplace.
A mudança representa uma transformação na lógica tradicional de descoberta. Em vez de procurar por palavras-chave, analisar dezenas de resultados e comparar individualmente diferentes alternativas, o consumidor pode apresentar à IA uma necessidade específica e receber uma resposta já organizada com sugestões, características, comparações e, em alguns casos, recomendações de marcas.
Relevância algorítmica
Para Rafael Rez, especialista em marketing digital, fundador da Web Estratégica e autor de GEO – Decisões influenciadas pela IA, publicado pela DVS Editora, o cenário cria uma nova disputa por atenção e autoridade. “A jornada está mudando porque o consumidor começa a delegar parte da descoberta para a IA. Antes, a empresa precisava conquistar uma posição no resultado da busca. Agora, precisa também construir autoridade suficiente para ser considerada e recomendada quando o consumidor fizer uma pergunta diretamente a uma plataforma de inteligência artificial”, afirma.
É nesse contexto que ganha relevância o Generative Engine Optimization (GEO), conceito aprofundado por Rez em seu novo livro. A estratégia busca aumentar as possibilidades de uma marca ser encontrada, compreendida, citada e recomendada por mecanismos generativos, levando em conta a maneira como os modelos de linguagem selecionam e relacionam informações.
“O GEO representa uma mudança de perspectiva. Não basta pensar em palavras-chave e posições. É preciso pensar em perguntas, contexto, autoridade e nas fontes que os modelos de linguagem utilizam para construir suas respostas. A marca precisa estar presente no conjunto de informações que alimenta essa decisão”, explica Rez.
Para empresas que querem conquistar esses espaços, o especialista recomenda começar pela própria base de informação. “É fundamental ter conteúdos profundos e úteis, responder às dúvidas reais do público, manter informações de produtos e serviços atualizadas, organizar os dados de maneira clara e construir autoridade também fora dos canais próprios. Menções em veículos, especialistas, estudos, avaliações e outras fontes confiáveis ajudam a formar esse ecossistema de referências”, afirma.
Rez também destaca a importância de monitorar o comportamento das próprias marcas nas plataformas de IA. “As empresas precisam começar a perguntar às IAs o que seus consumidores perguntariam: quais são as melhores marcas de determinada categoria, quais produtos resolvem determinado problema, quais são as alternativas e quais os diferenciais. Isso permite identificar quem está sendo citado, quais fontes aparecem e onde existem lacunas de conteúdo. GEO não é uma ação isolada, mas um processo contínuo de diagnóstico e otimização.”
Varejo transformado
No varejo, a transformação pode ter consequências ainda mais amplas. Para Paulo Brenha, executivo especializado no setor e autor de Varejo com propósito e resultado – Como transformar vendas em valor e margem em resultado, a inteligência artificial passa a interferir em uma etapa que tradicionalmente ficava sob controle do consumidor: a seleção das opções que serão consideradas.
“Estamos diante de uma mudança importante na jornada. A IA pode fazer uma pré-seleção antes mesmo de o consumidor entrar em uma loja ou acessar um e-commerce. Isso significa que o varejista precisa se preocupar não apenas com a experiência depois que o cliente chega, mas também com as informações e a reputação que fazem com que ele seja escolhido antes disso”, analisa.
Os números da Adobe ajudam a dimensionar o potencial comercial dessa mudança. Além da conversão 60% superior, consumidores encaminhados por IA para sites de varejo nos EUA permaneceram 59% mais tempo nos sites, visualizaram 14% mais conteúdo e tiveram uma taxa de rejeição 33% menor. Eles também adicionaram produtos ao carrinho 28% mais vezes que visitantes de outros canais. Os dados foram calculados a partir da análise de mais de 1 trilhão de visitas a sites de varejo norte-americanos.
Para Brenha, os indicadores mostram que o varejo precisa enxergar a IA como parte da operação e não apenas como uma ferramenta de comunicação. “Se o consumidor chega mais informado e mais próximo da decisão, a empresa precisa estar preparada para entregar aquilo que foi prometido. Preço, disponibilidade, logística, atendimento, qualidade do produto e experiência precisam estar alinhados. A tecnologia pode gerar a oportunidade, mas é a execução que transforma essa oportunidade em venda e relacionamento”, afirma.
O executivo também ressalta que a mudança não elimina os fundamentos do varejo. “O consumidor pode descobrir uma marca de uma maneira completamente diferente, mas continua buscando valor, confiança, conveniência e uma boa experiência. O que muda é o caminho até a decisão. Por isso, tecnologia, dados, pessoas e execução precisam trabalhar juntos.”
O crescimento do tráfego de IA nos EUA reforça a velocidade dessa transformação. No primeiro trimestre de 2026, o tráfego de fontes de IA para sites de varejo norte-americanos já havia crescido 393% em relação ao mesmo período de 2025. Em março, o avanço anual havia sido de 269%.
Com o consumidor brasileiro também incorporando ferramentas de IA à pesquisa de produtos, a tendência é que a disputa pela atenção comece cada vez mais cedo na jornada. Para Rez, a pergunta estratégica para as empresas deixa de ser apenas como aparecer nos mecanismos de busca. “A questão passa a ser: quando um consumidor perguntar a uma IA quais são as melhores opções para determinada necessidade, quais marcas estarão na resposta? É nessa nova camada da descoberta que as empresas precisam começar a trabalhar”, conclui.
Para Brenha, o desafio será transformar essa nova porta de entrada em relacionamento duradouro. “A IA pode ajudar o consumidor a encontrar o produto certo, mas o varejo ainda precisa fazer o mais difícil: entregar valor de forma consistente. A tecnologia muda a jornada; propósito, experiência e execução continuam determinando o resultado”, finaliza.

