Especialistas alertam que muitos empreendedores perdem controle financeiro e operacional antes mesmo de enfrentar dificuldades de mercado
O número de empresas inadimplentes no Brasil segue em trajetória preocupante. Em março de 2026, o país registrou 8,9 milhões de CNPJs negativados, segundo a Serasa Experian. Desse total, 8,4 milhões pertencem a micro e pequenas empresas, responsáveis por R$185,3 bilhões dos R$212,8 bilhões em débitos contabilizados no período.
Embora juros elevados, crédito restrito e oscilações econômicas sejam frequentemente apontados como os principais responsáveis pela fragilidade dos pequenos negócios, especialistas defendem que muitas dificuldades começam dentro da própria operação, muito antes de a crise financeira se tornar evidente.
Para o administrador e especialista financeiro Renan Frigo, problemas como falta de controle do fluxo de caixa, precificação inadequada, ausência de planejamento e a mistura entre contas pessoais e empresariais continuam entre os erros mais comuns na gestão das pequenas empresas.
“Muitos empresários acompanham as vendas, mas não conseguem visualizar com clareza a rentabilidade do negócio, o impacto das despesas ou a real situação do caixa. Quando o mercado se torna mais desafiador, essas fragilidades aparecem com força”, afirma.
Segundo ele, o problema raramente surge de forma repentina. Em muitos casos, a deterioração financeira é consequência de decisões tomadas sem informações confiáveis ou sem acompanhamento consistente dos indicadores do negócio.
A situação se torna ainda mais preocupante diante do aumento da complexidade operacional enfrentada por empresas que cresceram nos últimos anos. Vinícius Gracia, engenheiro da computação e especialista em softwares e inteligência artificial, conta que muitos empreendedores ampliaram vendas, equipes e processos sem modernizar os mecanismos de controle.
“As empresas continuam dependentes de planilhas isoladas, controles paralelos e informações descentralizadas. Isso reduz a visibilidade sobre a operação e dificulta a tomada de decisões em um momento em que eficiência e rapidez são cada vez mais importantes”, explica.
Na avaliação do especialista, a falta de organização operacional pode gerar impactos significativos mesmo em negócios com boa demanda. “Nem sempre uma empresa enfrenta dificuldades porque vende pouco. Muitas vezes ela perde competitividade porque não consegue identificar desperdícios, gargalos ou oportunidades de melhoria dentro da própria operação”.
O avanço da tecnologia tem reduzido uma das principais barreiras para a profissionalização da gestão. Ferramentas que antes estavam restritas às grandes corporações passaram a fazer parte da realidade de empresas menores, permitindo acompanhar indicadores financeiros, estoque, pagamentos, fluxo de caixa e desempenho operacional em tempo real.
“Digitalização não significa apenas vender pela internet ou utilizar redes sociais. Trata-se de criar uma gestão baseada em dados, com informações integradas e maior capacidade de planejamento. Isso aumenta a previsibilidade e reduz decisões tomadas no improviso”, afirma Gracia.
Frigo destaca que nenhuma ferramenta elimina os riscos inerentes ao ambiente econômico, mas pode reduzir significativamente falhas internas que comprometem a sustentabilidade do negócio.
“O mercado continuará apresentando desafios. A diferença é que empresas organizadas conseguem reagir mais rapidamente, identificar problemas com antecedência e tomar decisões mais assertivas. Para os pequenos negócios, essa capacidade pode ser determinante para a sobrevivência”, conclui.

