EmpregosInformações

Mais de metade dos empregos no Brasil pode ser impactada pela automação nas próximas décadas, aponta estudo da JOI Brasil

3 Mins read

Pesquisa reúne evidências globais sobre inteligência artificial, trabalho remoto e economia de plataformas e alerta para riscos maiores em países de renda média

Os avanços em automação, digitalização e inteligência artificial estão transformando o mercado de trabalho em escala global. Essas transformações não implicam necessariamente eliminação de empregos, mas mudanças profundas nas tarefas, ocupações e exigências de qualificação, com efeitos que variam conforme o contexto institucional e as políticas adotadas. Em países de renda média, como o Brasil, os riscos associados a esse processo tendem a ser mais elevados. É o que mostra o estudo “Evidências sobre Políticas de Mercado de Trabalho e Implicações para o Brasil: Futuro do Trabalho”, publicado pela JOI Brasil – iniciativa do J-PAL LAC – em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Segundo o estudo, mais de 50% dos empregos no Brasil apresentam alto risco de automação ou transformação significativa  entre 10 e 20 anos, percentual superior ao observado em economias como Estados Unidos e países europeus. A pesquisa indica que a América Latina e o Caribe concentram alguns dos maiores riscos globais de automação, especialmente em ocupações de baixa e média qualificação.

“O Brasil está mais exposto porque reúne alta participação de ocupações rotineiras, desigualdades estruturais no mercado de trabalho e menor capacidade de adaptação rápida às transformações tecnológicas”, afirma André Mancha, professor assistente da FEA-USP e coautor da série de publicações da JOI Brasil. “Isso não significa que os impactos sejam inevitáveis, mas que, sem políticas públicas voltadas ao mercado de trabalho bem desenhadas, a automação pode ampliar desigualdades já existentes.”

O documento reúne evidências internacionais sobre estratégias de adaptação ao futuro do trabalho. Nos Estados Unidos, avaliações mostram que o uso de inteligência artificial elevou a produtividade e a satisfação no trabalho, com efeitos mais fortes entre profissionais menos qualificados e redução das desigualdades internas. No Quênia, programas que combinaram capacitação em habilidades digitais com apoio direto à inserção profissional resultaram em aumento de renda e redução do desemprego, enquanto iniciativas baseadas apenas em treinamento tiveram efeitos limitados.

“As evidências mostram que a tecnologia pode gerar ganhos relevantes, mas esses ganhos dependem de investimentos complementares em qualificação, proteção social e desenho institucional adequado”, explica Mancha.

Economia de plataformas e desigualdades

O estudo também destaca o crescimento da economia de plataformas. No Brasil, 2,1 milhões de pessoas já trabalham por meio de aplicativos, o equivalente a 2,4% da população ocupada (IBGE,2023). Para comparação, pesquisas citadas no estudo indicam que cerca de 10% dos trabalhadores nos Estados Unidos atuavam em arranjos não tradicionais. Apesar da flexibilidade, esses vínculos costumam estar associados à instabilidade de renda e à ausência de proteção social.

Outro alerta diz respeito aos impactos desiguais da automação. Evidências internacionais mostram que mulheres e pessoas negras estão mais expostas a empregos com alto risco de substituição tecnológica e enfrentam mais barreiras de acesso a setores em expansão, como tecnologia.

Em 80 países analisados, mulheres representavam 40% ou mais da força de trabalho em tecnologia da informação em apenas 12 deles. Já na Argentina e na Colômbia, apesar de serem maioria entre os graduados no ensino superior, as mulheres representam apenas de 9% a 15% das formadas em ciência da computação, Avaliações de cursos intensivos de programação nesses países indicaram aumento da probabilidade de emprego em tecnologia poucos meses após a formação, sugerindo caminhos possíveis para reduzir essas disparidades.

Decisões baseadas em evidências

A publicação integra uma série de estudos da JOI Brasil voltados a apoiar governos, empresas e organizações da sociedade civil na formulação de políticas informadas por evidências. A JOI Brasil busca ampliar o uso de avaliações de impacto para orientar decisões em um mercado de trabalho cada vez mais marcado por incertezas e rápidas transformações.

O estudo destaca que avaliações aleatorizadas têm sido fundamentais para identificar impactos reais de políticas de qualificação, adoção tecnológica, intermediação de mão de obra e inclusão produtiva.

Related posts
Informações

Rotina de trabalho faz 37% das mulheres adiarem compromissos de saúde, mostra Catho

2 Mins read
Levantamento realizado pela plataforma revela ainda que 11% estão há mais de dois anos sem realizar mamografia e evidencia os desafios do…
Informações

Foton iBlue conquista Selo de Maior Valor de Revenda entre caminhões elétricos

3 Mins read
A Foton recebeu o Prêmio e o Selo de Maior Valor de Revenda na categoria Veículos Comerciais Elétricos, concedidos pela Agência AutoInforme,…
Informações

Novo indicador revela setores que lideram ranking de intensidade de litigância na Justiça do Trabalho

3 Mins read
Levantamento inédito, que analisou mais de 5,04 milhões de novos processos, coloca o setor de refino de petróleo no topo da lista….