Expansão de gestoras e FIDCs acompanha aumento das recuperações judiciais e busca por liquidez fora do crédito tradicional
O volume de capital disponível para investimentos em special situations no Brasil passou de R$ 2 bilhões, em 2016 para R$ 13,7 bilhões em 2023, de acordo com levantamento da Spectra Investimentos citado no material. No mesmo período, uma estratégia antes restrita a poucas casas começou a ganhar escala: o número de gestoras dedicadas a ativos judiciais e estressados passou de cinco para 51 em uma década, segundo relatório da 051 Capital.
O avanço também aparece na indústria de fundos. Levantamento setorial identificou, em fevereiro de 2026, 159 Fundos de Investimento em Direitos Creditórios ligados a estratégias de special situations, com patrimônio líquido conjunto de R$ 24,45 bilhões. O valor não corresponde apenas a capital aplicado em litígios, mas ajuda a dimensionar o crescimento das estruturas utilizadas para adquirir, financiar e monetizar créditos de maior complexidade.
O termo special situations reúne operações que surgem fora do curso normal dos mercados. Elas podem envolver a compra de créditos inadimplidos, o financiamento de processos, a antecipação de valores ligados a direitos judiciais, a aquisição de ativos de empresas em recuperação e soluções de capital desenhadas para companhias que não encontram financiamento nas linhas convencionais.
No Brasil, a expansão encontra matéria-prima em um ambiente jurídico e empresarial de grandes proporções. O Judiciário encerrou 2025 com 75,5 milhões de processos em tramitação. Embora o estoque tenha caído pelo segundo ano consecutivo, 40,9 milhões de novos casos ingressaram no sistema, o maior volume da série histórica. Entre os processos pendentes, o tempo médio de tramitação era de três anos e sete meses.
O número de empresas em recuperação judicial também alcançou um recorde. Foram 2.466 CNPJs envolvidos em 977 processos em 2025, alta de 13% em relação ao ano anterior. Agropecuária e serviços concentraram a maior parcela das companhias, em um cenário de crédito mais seletivo e pressão persistente sobre o caixa.
Isso não significa que todo processo ou crédito possa ser transformado em investimento. Apenas uma parcela reúne fundamento jurídico, devedor solvente, patrimônio localizável e perspectiva de retorno compatível com o risco. É justamente essa seleção que diferencia uma operação financeira estruturada de uma aposta em um resultado judicial.
Os juros elevados têm efeito duplo sobre o setor. A Selic, atualmente em 14,25% ao ano, aumenta o custo de carregamento das dívidas e dificulta o refinanciamento de empresas, criando demanda por soluções alternativas de capital. Ao mesmo tempo, eleva a rentabilidade mínima exigida pelos investidores, já que as operações precisam competir com a renda fixa e compensar riscos como demora processual, perda da causa e dificuldade de execução.
Nesse mercado, uma empresa que possui um crédito judicial, mas precisa de caixa imediato, pode vender parte do direito com desconto. Um escritório pode antecipar honorários de êxito. Uma companhia em recuperação pode receber novos recursos para preservar sua operação, enquanto investidores também podem adquirir créditos ou ativos negociados durante a reestruturação. Há ainda operações relacionadas a precatórios, disputas societárias, heranças e recuperação de patrimônio no Brasil e no exterior.
“São créditos judiciais, disputas societárias, direitos hereditários e oportunidades em processos de insolvência que podem ser transformados em liquidez, desde que analisados com o rigor que o tema exige”, afirma Daniel Kalansky, sócio do Loria e Kalansky Advogados e coautor de “Investimentos em Special Situations: Ativos, Conflitos e Regulação”, publicado pela Editora Migalhas.
A multiplicação de gestoras e veículos financeiros expõe, porém, um dos principais gargalos do segmento: a escassez de profissionais capazes de combinar conhecimento jurídico e financeiro. Advogados precisam compreender precificação, fluxo de caixa e retorno ajustado ao risco, enquanto gestores precisam avaliar processos, garantias, insolvência e possibilidades reais de execução.
Essa convergência já começa a aparecer na formação profissional. O Insper oferece um curso executivo dedicado a Special Situations e Distressed Assets, com disciplinas sobre aquisição de ativos judiciais, financiamento de litígios, precatórios, recuperação judicial, DIP financing, insolvência e disputas hereditárias. Kalansky e João Gabriel Volasco Rodrigues, também sócio do Loria e Kalansky Advogados, integram o corpo docente.
A próxima fase do mercado deverá ser menos marcada pelo simples crescimento do capital e mais pela qualidade das operações. Governança, independência dos advogados, transparência na relação com os titulares dos direitos, critérios de precificação e prevenção de conflitos de interesse tendem a ganhar peso à medida que novos investidores entram no setor.
Com mais dinheiro disponível e estruturas financeiras mais numerosas, o desafio deixa de ser apenas encontrar créditos e processos. Passa a distinguir ativos recuperáveis de direitos de difícil execução e transformar um mercado ainda fragmentado em uma indústria com método, segurança jurídica e capacidade de operar em escala.








