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Mesmo com queda da Selic, brasileiro ainda enfrenta juros altos no rotativo e no parcelado

Bruno Medeiros Durão - Créditos da foto: Divulgação

Bruno Medeiros Durão - Créditos da foto: Divulgação

Para os advogados tributaristas Bruno Medeiros Durão e Adriano de Almeida, a queda da Selic melhora o ambiente macroeconômico, mas não resolve o custo do crédito ao consumidor final

A redução da Selic começou a sinalizar uma mudança de direção na política monetária, mas, para milhões de brasileiros, o alívio ainda não chegou à ponta. Em março de 2026, o Copom reduziu a taxa básica de juros para 14,75% ao ano, depois de tê-la mantido em 15% em janeiro. Ainda assim, o custo do crédito segue elevado, especialmente nas modalidades mais sensíveis ao endividamento de curto prazo, como o cartão rotativo e o parcelamento da fatura.

Os dados mais recentes do Banco Central mostram que, em fevereiro de 2026, a taxa média de juros das concessões no sistema financeiro chegou a 33% ao ano. No crédito livre, que concentra linhas como cartão, cheque especial e empréstimo pessoal, a taxa média foi de 48,6% ao ano. Para as famílias, o custo foi ainda maior: 62% ao ano, com destaque para a elevação das operações de cartão de crédito rotativo, que puxaram a alta mensal do crédito para pessoas físicas.

No cartão, a fotografia continua especialmente dura. Em fevereiro, a taxa média do rotativo subiu para 435,9% ao ano, enquanto a do parcelado do cartão chegou a 200,2% ao ano, segundo dados reportados a partir das estatísticas do Banco Central. O juro total do cartão também avançou no período, refletindo que a queda da Selic ainda não foi suficiente para baratear, de forma relevante, o crédito mais caro usado pelo consumidor no aperto do mês.

Esse descompasso ajuda a explicar por que a inadimplência segue em nível recorde. A Serasa informa que o país atingiu 81,7 milhões de inadimplentes em fevereiro de 2026, com mais de 332 milhões de dívidas em aberto. Já o Banco Central aponta que a inadimplência total do Sistema Financeiro Nacional chegou a 4,3% em fevereiro, sendo 5,2% entre pessoas físicas. O comprometimento de renda das famílias ficou em 29,3%, enquanto o endividamento alcançou 49,7% da renda acumulada em 12 meses.

Na análise do advogado tributarista Bruno Medeiros Durão, presidente do escritório Durão, Almeida & Pontes, a queda da Selic é importante, mas não produz efeito automático nem imediato sobre o crédito mais caro do mercado. “A Selic é uma referência central da economia, mas a dívida do consumidor não responde na mesma velocidade. Quem já entrou no rotativo ou no parcelado da fatura continua submetido a um custo muito alto, porque essas modalidades incorporam risco, inadimplência, spread bancário e uma série de encargos que não desaparecem só porque a taxa básica começou a recuar”, explica.

Para Bruno Durão, o problema é que parte do consumidor confunde queda da Selic com barateamento generalizado do crédito. “Na prática, o brasileiro olha a manchete de queda de juros e imagina que o financiamento ficou mais leve. Mas, no dia a dia, o que pesa é o Custo Efetivo Total. Muitas vezes, o contrato até vem com uma taxa aparentemente menor, mas acompanhado de encargos, seguros, tarifas e condições que mantêm a dívida cara. O rotativo e o parcelado da fatura continuam sendo armadilhas financeiras para quem já perdeu capacidade de pagamento, destaca.

O Banco Central lembra que, desde janeiro de 2024, os juros e encargos cobrados no rotativo e no parcelamento da fatura passaram a ter um limite de 100% do valor principal da dívida. Em termos práticos, isso significa que uma dívida original de R$100 não pode gerar cobrança superior a R$200 no total. Mesmo assim, a própria autoridade monetária esclarece que as taxas anualizadas divulgadas nas estatísticas não significam, por si só, descumprimento da regra, porque refletem projeções médias das operações reportadas pelas instituições financeiras.

Mesmo com a redução da Selic, especialistas avaliam que o crédito ao consumidor continua pressionado por fatores que vão além da taxa básica de juros. Entre eles, estão o risco de inadimplência, o spread bancário e, principalmente, a falta de compreensão sobre o funcionamento de modalidades como o rotativo e o parcelamento da fatura. Para o advogado tributarista e sócio Adriano de Almeida, esse cenário ajuda a explicar por que o alívio anunciado na política monetária ainda não se traduz, na prática, em fôlego para quem já está endividado.

Adriano também chama atenção para a renegociação mal explicada, que muitas vezes posterga o problema em vez de resolvê-lo. “Há casos em que a renegociação é apresentada como alívio, mas apenas reorganiza a dívida em parcelas longas, com custo total ainda elevado. O consumidor precisa olhar menos para o valor da parcela e mais para o valor final pago. Sem transparência sobre juros, encargos e prazo, o risco é trocar uma dívida cara por outra dívida mais longa e igualmente pesada, ressalta.

O cenário ajuda a mostrar por que a redução da taxa básica, embora relevante para a economia como um todo, ainda não virou um alívio concreto para quem já depende do crédito emergencial. O Relatório de Política Monetária de março apontou justamente maior uso de linhas como cartão rotativo, parcelado e cheque especial ao longo de 2025, reforçando que, em momentos de aperto, as famílias recorrem mais às modalidades mais onerosas do mercado.

Na leitura dos especialistas, o debate sobre juros no Brasil passa menos pela manchete da Selic e mais pela qualidade do crédito disponível na ponta. Enquanto o juro básico cede gradualmente, o consumidor endividado continua enfrentando um ambiente em que o crédito segue caro, a renda permanece pressionada e o risco de inadimplência ainda é alto. Por isso, o ponto central não é apenas saber se a Selic caiu, mas entender por que essa queda ainda não chegou, de forma relevante, à fatura de quem mais precisa de fôlego financeiro.

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