
Por Diego Vaz**
Por muitos anos, o setor da construção civil no Brasil se apoiou em um modelo tradicional, dependente da mão de obra intensiva e de processos pouco padronizados. Esse formato, embora tenha sido efetivo por décadas, carrega desafios particulares, como escassez de mão de obra qualificada, aumento nos custos, desperdício de materiais e prazos imprevisíveis. Além disso, segundo pesquisa da CNI e da CBIC, 25,4% dos empresários dessa área relatam escassez ou alto custo para contratar profissionais experientes.
Mas os desafios vão além desses, há também outras questões que atrapalham o andamento das obras. Ainda é comum tentar prever o custo total sem um projeto detalhado; algo que, na prática, leva ao retrabalho. Muitas vezes, o critério de escolha é apenas o menor preço, mas o barato pode sair caro quando os erros começam a aparecer. Mudanças de ideia durante a execução também são frequentes, o que gera atrasos e gastos extras. Além disso, há quem acredite que todo pedreiro domina os aspectos técnicos, o que quase nunca corresponde à realidade.
Nos últimos anos, comecei a perceber que esse modelo precisava ser revisto. Não por desvalorizar o trabalho manual, mas para potencializá-lo. A industrialização da construção civil não substitui a mão de obra; ela a reposiciona. Ao automatizar processos e padronizar etapas, criamos um ambiente mais eficiente, com menos margem para erros e mais previsibilidade para todos os envolvidos.
A lógica é simples: por que depender do eletricista para montar toda a rede local se é possível utilizar chicotes elétricos que já vêm prontos de fábrica? Por que depender de cálculos de última hora para prever a quantidade de tijolos se sistemas industrializados funcionam com peças pré-fabricadas e montagem padronizada, como um grande quebra-cabeça?
O Steel Frame: exemplo prático da industrialização
Dentro desse panorama, substituímos tijolos e cimento por aço galvanizado, um material mais leve, reciclável e amplamente disponível. O projeto é mapeado antes mesmo do primeiro parafuso ser apertado. Os painéis já chegam ao canteiro com furos nos pontos exatos e o profissional responsável pela montagem precisa apenas seguir as instruções.
Há quem olhe para isso como uma ameaça à mão de obra tradicional — mas eu vejo como uma libertação. Na prática, o sistema convencional está se tornando insustentável, então falar em menos mão de obra pode soar polêmico, mas o verdadeiro problema é acreditar que o único jeito de construir é o mais lento, mais caro e mais dependente de variáveis.
Industrializar a construção não é sobre acabar com empregos; é sobre redefinir funções, tornar o trabalho mais seguro, técnico e menos improvisado. Quando um operário é treinado para seguir processos bem definidos, ele não precisa ser um especialista em cada etapa. Ele precisa ser bom em seguir os processos.
A lógica industrial vai além de usar máquinas ou automatizar tarefas manuais. Trata-se, sobretudo, de uma mudança de mentalidade. Enquanto o modelo fordista se concentrava em produzir em massa, gerando acúmulo de estoque, o pensamento toyotista propõe que as etapas de produção sejam respeitadas e feitas sequencialmente. Isso reduz desperdícios e torna o processo mais inteligente.
Na construção, essa abordagem muda tudo. Avançar para a próxima etapa sem concluir a anterior com precisão só alimenta o ciclo de retrabalho. Quando cada fase é pensada como parte de um sequência lógica e bem executada, os resultados são: menos imprevisto, mais controle e melhor uso dos recursos. É assim que, de fato, descomplicamos a construção.
*Diego Vaz é CEO e fundador da iBUILD, rede de franquias líder em construções inteligentes no Brasil.
