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Mulher 40+: estilo de vida, saúde e bem-estar

Exames preventivos, fertilidade, mudanças hormonais e coração entram ainda mais no radar depois dos 40. Especialistas explicam o que muda no organismo feminino e quais cuidados ajudam a atravessar essa fase com mais saúde, autonomia e qualidade de vida.

Chegar aos 40 anos costuma marcar uma fase de muitas transformações para a mulher. Mudanças hormonais podem começar a aparecer, a fertilidade naturalmente diminui, o metabolismo pode sofrer alterações e alguns fatores de risco para doenças crônicas passam a exigir maior atenção.

Isso não significa, porém, que completar 40 anos seja sinônimo de doença ou perda de qualidade de vida. Pelo contrário: esse pode ser um momento importante para rever hábitos, atualizar exames preventivos e pensar na saúde dos próximos anos.

Mamografia, acompanhamento ginecológico, avaliação cardiovascular, atividade física, alimentação equilibrada, sono e atenção aos sinais do climatério estão entre os principais pontos dessa nova etapa.

Exames preventivos ganham importância

Um dos pilares da saúde feminina depois dos 40 é manter os exames preventivos em dia. Segundo a médica especialista em Radiologia e Diagnóstico por Imagem Dra. Catherine Fuchs, a mamografia passa a ocupar um espaço especialmente importante nessa rotina.

“A partir dos 40 anos, a mulher entra em uma fase em que alguns cuidados preventivos ganham ainda mais importância. Na área de imagem, o principal exame é a mamografia, porque permite detectar alterações mamárias muito pequenas, muitas vezes antes de serem palpáveis”, explica.

De acordo com a especialista, sociedades médicas brasileiras como o Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) recomendam a mamografia anual para mulheres de risco habitual entre 40 e 74 anos.

Existem, porém, diferenças entre os protocolos. O Ministério da Saúde adota recomendação de rastreamento populacional bienal dos 50 aos 74 anos. Por isso, a decisão sobre quando começar e qual periodicidade seguir também deve considerar orientação médica e o risco individual.

Outros exames podem fazer parte da investigação conforme sintomas, histórico familiar e avaliação clínica.

“A ultrassonografia das mamas não substitui a mamografia. Ela é complementar, especialmente em mulheres com mamas densas, na investigação de nódulos ou outros achados clínicos e quando a própria mamografia identifica algo que precisa ser melhor caracterizado”, esclarece Catherine.

Já o ultrassom pélvico ou transvaginal não precisa, necessariamente, ser realizado todos os anos apenas porque a paciente completou 40 anos.

O exame pode ser indicado diante de sintomas como sangramento uterino anormal, aumento do fluxo menstrual, dor pélvica, sensação de peso e alterações menstruais, além da suspeita de condições como miomas, pólipos, adenomiose, endometriose e alterações ovarianas.

“Gosto de reforçar que o melhor exame não é necessariamente fazer muitos exames, e sim fazer o exame certo, no momento certo e com uma indicação adequada”, destaca a radiologista.

Quero ter filhos depois dos 40. É possível?

A maternidade também vem sendo adiada por muitas mulheres, tornando cada vez mais comum o desejo de engravidar depois dos 40. Do ponto de vista biológico, entretanto, essa fase exige atenção especial.

Segundo o ginecologista e especialista em Reprodução Assistida Dr. Alessandro Schuffner, depois dos 40 ocorre redução progressiva da reserva ovariana e, principalmente, da qualidade dos óvulos.

“Com isso, as chances de gravidez diminuem e aumentam os riscos de aborto espontâneo e alterações cromossômicas”, explica.

Ainda assim, uma gravidez pode acontecer naturalmente, embora as possibilidades diminuam com o avanço da idade. Quando necessário, tratamentos de reprodução assistida podem ser avaliados.

“Existem casos raros de concepções naturais após os 40. Quando necessário, a reprodução assistida oferece alternativas como a fertilização in vitro e, em casos específicos, o uso de óvulos doados. A melhor estratégia depende sempre da avaliação individual de cada paciente”, afirma.

A idade também está relacionada ao aumento da ocorrência de complicações durante a gestação, incluindo hipertensão, pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, aborto espontâneo e alterações cromossômicas.

Isso, ressalta Schuffner, não significa que toda gravidez depois dos 40 necessariamente terá problemas.

“Um acompanhamento adequado, iniciado preferencialmente antes da gravidez, permite identificar fatores de risco, orientar os cuidados necessários e acompanhar de perto a saúde da mãe e o desenvolvimento do bebê.”

Para quem está nessa faixa etária e deseja engravidar, a recomendação é não postergar a avaliação especializada.

“A partir da avaliação da reserva ovariana, do histórico reprodutivo e dos fatores do casal, podemos considerar desde a tentativa natural até tratamentos como indução da ovulação, inseminação intrauterina e fertilização in vitro”, explica.

Mudanças hormonais podem começar antes da menopausa

Outro aspecto que costuma ganhar destaque depois dos 40 são as mudanças hormonais.

A menopausa é definida pelo fim definitivo dos ciclos menstruais, mas existe um período de transição que pode começar anos antes. É a chamada perimenopausa.

“Depois dos 40, o funcionamento dos ovários pode começar a mudar, e os hormônios passam a oscilar mais. Essa fase de transição antes da menopausa é chamada de perimenopausa”, explica o médico Dr. Leonardo De Gasperi, membro da Sociedade Brasileira de Climatério (SOBRAC) e da International Menopause Society (IMS).

E as primeiras alterações podem surgir mesmo em mulheres que continuam menstruando.

“Os primeiros sinais podem ser alterações no ciclo menstrual, piora do sono, ondas de calor, mudanças de humor, cansaço, redução da libido e ressecamento vaginal”, conta.

Nem todo sintoma, no entanto, deve ser automaticamente atribuído aos hormônios.

“Cada mulher vive essa fase de uma maneira diferente. Por isso, não devemos atribuir automaticamente qualquer sintoma depois dos 40 aos hormônios. É importante avaliar o conjunto de sintomas e a história daquela mulher.”

Reposição hormonal não é para todas

Quando os sintomas do climatério e da menopausa passam a afetar a qualidade de vida, a terapia hormonal pode ser considerada em algumas pacientes.

Ondas de calor, suores noturnos e determinados sintomas geniturinários estão entre as queixas que podem levar à avaliação desse tipo de tratamento.

“Reposição hormonal não é uma receita igual para todas as mulheres”, ressalta De Gasperi.

Antes de começar, é necessário avaliar idade, sintomas, histórico de saúde, medicamentos em uso e possíveis fatores de risco.

“Hoje sabemos que, para mulheres adequadamente selecionadas, a terapia hormonal pode trazer benefícios importantes. Mas a decisão deve ser individual, discutindo benefícios, riscos e preferências de cada mulher.”

O médico destaca ainda que envelhecer com saúde envolve muito mais do que hormônios.

Com o avanço da idade, algumas mulheres podem apresentar maior acúmulo de gordura abdominal e redução progressiva da massa muscular. Alterações do sono também podem afetar disposição, metabolismo e qualidade de vida.

“Alimentação adequada, exercício físico principalmente o fortalecimento muscular, sono de qualidade e acompanhamento da saúde metabólica são fundamentais”, afirma.

Para ele, o objetivo do cuidado médico nessa fase deve olhar também para o futuro.

“Eu gosto de pensar que o objetivo da medicina depois dos 40 não deveria ser apenas tratar o que incomoda hoje. É ajudar essa mulher a chegar aos 60, 70 e 80 anos com força, autonomia, saúde e qualidade de vida.”

O coração feminino também merece atenção

A saúde cardiovascular é outro ponto que não pode ficar de fora.

Segundo a cardiologista e intensivista Dra. Noara Barros, a transição para a menopausa pode ser acompanhada por alterações que influenciam progressivamente o risco cardiovascular.

“Com a redução progressiva do estrogênio, perdemos parte de um efeito protetor que esse hormônio exerce sobre os vasos sanguíneos e sobre o metabolismo”, explica.

Nessa fase, podem ocorrer aumento do colesterol, da pressão arterial e da resistência à insulina, além de mudança na distribuição da gordura corporal, com maior acúmulo na região abdominal.

“Mas é importante deixar claro: não é completar 40 anos que torna uma mulher cardíaca. É uma fase em que vale a pena olhar com mais atenção para a trajetória da sua saúde. Muitas alterações começam silenciosamente anos antes de aparecerem como doença”, alerta.

Pressão alta, colesterol elevado, diabetes, obesidade, sedentarismo e histórico familiar devem ser analisados em conjunto.

“Uma pressão um pouco elevada, associada a colesterol alto, ganho de gordura abdominal, sedentarismo ou alteração da glicose, por exemplo, pode representar um risco muito maior do que cada alteração analisada separadamente.”

Até a história da gravidez pode revelar riscos futuros

Um aspecto ainda pouco conhecido é que algumas complicações ocorridas durante a vida reprodutiva podem funcionar como sinais de alerta para a saúde cardiovascular futura.

“Pré-eclâmpsia, hipertensão ou diabetes durante a gestação e parto prematuro, por exemplo, estão associados a maior risco cardiovascular no futuro. A menopausa muito precoce também merece atenção especial”, explica Noara.

Por isso, uma avaliação cardiovascular completa não começa apenas com exames.

“O primeiro passo é conhecer o próprio risco. Uma boa avaliação começa pela conversa: histórico familiar, gestações, hábitos de vida, sono, atividade física, tabagismo, peso, sintomas e o momento hormonal em que essa mulher se encontra.”

Pressão arterial, colesterol, glicemia, função renal, peso e circunferência abdominal estão entre os parâmetros que podem ser avaliados.

Em determinadas pacientes, o médico também pode considerar exames e marcadores adicionais, como lipoproteína(a), ApoB, ecocardiograma, escore de cálcio coronariano ou angiotomografia das coronárias, sempre de acordo com sintomas, histórico e perfil individual de risco.

Depois dos 40, prevenção deve olhar para o futuro

A mensagem dos especialistas converge em um ponto: chegar aos 40 não deve ser encarado como uma ruptura, mas como uma oportunidade de fazer um acompanhamento mais individualizado da saúde.

Realizar os exames indicados, entender as mudanças hormonais, manter uma rotina de atividade física, preservar a massa muscular, cuidar da alimentação, do sono e dos fatores de risco cardiovascular pode fazer diferença não apenas no presente, mas nas próximas décadas.

“Prevenção não significa apenas fazer exames. Atividade física regular, alimentação adequada, controle do peso, não fumar e cuidar da qualidade do sono continuam sendo algumas das medidas mais eficazes para proteger o coração”, resume Noara.

E conclui: “Aos 40 anos, o objetivo não deve ser apenas procurar uma doença que já existe. É identificar cedo os caminhos que podem levar a ela e mudar essa trajetória enquanto ainda há tempo.”

Fontes:

Dra. Catherine Fuchs – Radiologia e Diagnóstico por Imagem
CRM: 28850 | RQE: 15373
Médica especialista em Radiologia e Diagnóstico por Imagem, com trajetória dedicada à saúde da mulher. Possui pós-graduação em Ginecologia e Obstetrícia, Medicina Fetal, Infertilidade Conjugal e Reprodução Assistida. Sua atuação integra diagnóstico por imagem e acompanhamento especializado nas diferentes fases da vida reprodutiva feminina.

Dr. Alessandro Schuffner – Especialista em Reprodução Assistida
CRM-PR: 18822 | RQE: 21939
Mestre em Medicina pela UFPR e especialista em Medicina Reprodutiva. Possui formação em centros especializados nos Estados Unidos e atuação nas áreas de ginecologia reprodutiva, reprodução assistida e andrologia, incluindo o acompanhamento de casos de infertilidade feminina e masculina.

Dr. Leonardo De Gasperi – Médico Pós-Graduado em Endocrinologia
CRM-SP: 175056
Médico membro da Sociedade Brasileira de Climatério (SOBRAC) e da International Menopause Society (IMS), com atuação dedicada ao cuidado da mulher 40+. É criador do conceito de Medicina de Continuidade, que integra saúde hormonal, estilo de vida e comportamento durante o climatério e a menopausa, e fundador da Clínica WHIM.

Dra. Noara Barros Ribeiro – Cardiologista e Intensivista
CRM-DF: 22865 | RQEs: 14188 (Clínica Médica), 16242 (Cardiologia) e 25737 (Medicina Intensiva)
Médica com atuação em Assistência Integral do Paciente, Cardiologia, Medicina Intensiva e Gestão em Saúde. É membro da European Society of Cardiology (ESC), Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB). Atua também na coordenação de UTI Neurocardiológica na Rede KORA, em Brasília.

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