No mês da Consciência Negra, histórias de empreendedorismo lideradas por mulheres negras ganham destaque como símbolos de resistência e empoderamento comunitário. Um exemplo inspirador é o de Léia Abadia, fundadora do salão Preta Brasileira. Ela iniciou o negócio com apenas um espelho e R$ 800, transformando-o em um salão de referência especializado em cabelos crespos e cacheados. Fundado em 2010 na Zona Leste de São Paulo, o Preta Brasileira nasceu para valorizar a estética afro, e hoje Léia e suas irmãs Suelen Lima, Glaucileia Fátima e Roselaine Silva, que são suas sócias, colhem os frutos de 15 anos de trabalho dedicados à autoestima da mulher negra. Mais que um salão de beleza, o empreendimento se expandiu para múltiplas unidades em bairros predominantemente negros e criou um braço cultural voltado a impacto social, consolidando-se como um hub de transformação por meio do cuidado estético.
Cada uma das irmãs assumiu um papel estratégico para fazer o negócio crescer e se sustentar com propósito. Suelen Lima, artista plástica e trancista, conduz o Marketing e as Mídias Sociais; Glaucileia Fátima atua no setor de Recursos Humanos; Roselaine Silva, matemática e engenheira financeira, é responsável pelo Administrativo, Financeiro e Projetos; e Leia Abadia lidera a visão e o propósito do salão. Essa estrutura sólida permitiu o surgimento do Preta Cultural, um braço do Preta Brasileira voltado à formação de trancistas, ações de autoestima, rodas de conversa e projetos de valorização da estética e da identidade negra. Mais do que um negócio, as irmãs constroem juntas um legado coletivo.
A jornada de Léia Abadia reflete os desafios e triunfos de muitas empreendedoras negras no Brasil. Ainda jovem, ela percebeu a carência de espaços especializados em cabelos afro e a falta de representatividade no setor de beleza tradicional. Determinada a preencher essa lacuna, abriu o salão Preta Brasileira para oferecer serviços antes negados à população negra – desde tranças e tratamentos para cabelos cacheados até um ambiente de acolhimento. “Trabalhar com as minhas irmãs é um ato de amor e resistência. O Preta Brasileira é mais do que um salão: é um espaço de transformação”, afirma, destacando que cada cliente atendida ali recupera um pouco da própria identidade e autoestima. Não por acaso, trançar cabelos é um ato ancestral que transformou em negócio contemporâneo. Recentemente, a profissão de trancista foi oficialmente reconhecida pelo Ministério do Trabalho, validando aquilo que Leia sempre defendeu: “as trancistas entregam identidade, autoestima e futuro e, por isso, devem se posicionar como empresárias”. Hoje, ao lado de suas irmãs, ela inspira outras mulheres negras a empreenderem com orgulho de suas raízes.
Uma pesquisa recente do Instituto Rede Mulher Empreendedora (RME) traçou o perfil das empreendedoras negras brasileiras e revelou números contundentes. Segundo o estudo Empreendedoras Negras 2024, 86,2% das mulheres negras entrevistadas empreendem ou trabalham por conta própria. Muitas encontram no negócio próprio uma alternativa de carreira e renda diante de oportunidades escassas no mercado formal. Não à toa, o setor de beleza, estética e bem-estar desponta entre as principais áreas de atuação, reunindo cerca de 19% dessas empreendedoras, um indicativo de como talentos tradicionais, como o trançado de cabelos, estão se convertendo em oportunidades de negócio. As motivações mais citadas por elas incluem realizar o que amam, buscar autonomia financeira, aumentar a renda e ter flexibilidade de horário. Em muitos casos, o empreendedorismo surge também para superar barreiras: 9,1% apontam que abriram o negócio após vivenciarem discriminação racial no mercado de trabalho ou dificuldades de inserção profissional.
Apesar do crescimento expressivo, as empreendedoras negras enfrentam obstáculos que vão além dos desafios comuns de qualquer negócio, eles estão ligados ao racismo estrutural. O estudo do RME escancara essa realidade: mais de 70% das mulheres pretas reportam já ter sofrido discriminação racial no ambiente de trabalho. Além disso, metade das entrevistadas (50,3%) concorda que o racismo atrapalha a expansão dos negócios de mulheres negras, seja dificultando o acesso a crédito, minando a confiança de clientes ou restringindo oportunidades em redes dominadas por outros grupos. Essas barreiras históricas impõem às empreendedoras negras a necessidade de redobrar esforços e, muitas vezes, buscar caminhos alternativos para crescer.
Não é surpresa, portanto, que o empreendedorismo para mulheres negras transcenda a mera iniciativa individual, ele ganha contornos de movimento coletivo e político. Djamila Ribeiro, filósofa e ativista, já ressaltou em uma entrevista que fortalecer negócios liderados por pessoas negras “não é caridade, mas uma questão de economia e política”. Essa afirmação sublinha que investir em empreendedorismo negro significa mexer em estruturas sociais e econômicas profundamente enraizadas. Djamila aponta que ainda carregamos os ecos de um passado escravocrata na forma como vemos pessoas negras no sucesso ou no consumo de luxo e defende que só uma transformação estrutural pode corrigir essas distorções. Em outras palavras, incentivar empreendimentos de mulheres negras não se trata apenas de apoiar casos individuais de sucesso, mas de impulsionar uma mudança sistêmica. Sua produção intelectual sobre lugar de fala e interseccionalidade reforça a importância de colocar as vozes das mulheres negras no centro, isso cria uma base conceitual sólida para entender como elas podem se apoiar mutuamente, formando redes, ações coletivas e ocupando espaços de protagonismo. Nas palavras de Djamila, fortalecer o empreendedorismo negro é economia e é política, porque envolve redistribuir oportunidades e questionar o status quo de quem pode prosperar no mundo dos negócios.
Redes de apoio: mulheres investindo em mulheres
Em meio a esses desafios, um elemento se destaca como fator de sucesso: a solidariedade e o investimento mútuo entre mulheres negras. O caso de Leia Abadia e do Preta Brasileira ilustra bem esse princípio. Além de criar um negócio sustentável para si, buscam agora alavancar outras profissionais negras por meio da tecnologia. Ela está à frente do desenvolvimento da Ibraid, uma beauty tech concebida para conectar trancistas, consumidoras e lojistas em uma plataforma digital. A proposta da Ibraid é ambiciosa e inovadora: usar tecnologia contemporânea para ampliar o alcance de um saber ancestral, criando uma rede que facilite a contratação de trancistas, ofereça capacitação e gere inclusão financeira para essas profissionais. Essa startup nascente, gestada a partir de uma ideia vencedora em hackathon, já nasce com apoio de outras mulheres e organizações alinhadas à causa. O hub de impacto social CIVI-CO, por exemplo, acolheu a Ibraid em seu espaço, dando suporte estrutural para o projeto decolar.
Outra parceria essencial vem da tecnologia. A Baruk, uma das poucas empresas brasileiras de inteligência artificial fundadas por uma mulher negra, tornou-se aliada estratégica da Ibraid. À frente da empresa está Ana Cabral, CEO da Baruk, que acredita que investir em mulheres negras é um caminho direto para a transformação estrutural.
“Investir em mulheres pretas e periféricas não é apenas uma questão de justiça social, é uma estratégia para o desenvolvimento socioeconômico do Brasil”, afirma Ana. Segundo ela, ao direcionar capital, conhecimento e oportunidades a esse grupo, estamos corrigindo uma falha estrutural que limita o próprio potencial do país.
“O retorno desse investimento é multifacetado. Economicamente, estamos desbloqueando um potencial de consumo, inovação e geração de empregos imenso. Mulheres, especialmente as negras, tendem a reinvestir cerca de 90% de sua renda em suas famílias e comunidades, o que significa que cada real investido nelas gera um efeito multiplicador, fortalecendo a economia local de forma sustentável. Socialmente, ao apoiá-las, quebramos ciclos de pobreza e promovemos a diversidade no ecossistema de inovação. Novas perspectivas geram novas soluções para problemas antigos, criando um mercado mais resiliente, criativo e conectado com a realidade da maior parte da população brasileira. É um investimento que gera dividendos em capital humano, social e financeiro”, explica Ana Cabral.
A atuação da Baruk vai além do aporte financeiro. Ana estrutura seus investimentos com três pilares: capital inteligente com mentoria estratégica, acesso a redes qualificadas e fortalecimento da liderança empreendedora. Isso inclui treinamentos, apoio emocional e abertura de portas em um mercado que historicamente invisibilizou mulheres negras.
Ela destaca que, com apoio certo, as empreendedoras negras deixam de atuar na sobrevivência para alcançar a expansão. “O resultado mais transformador, no entanto, é ver essas mulheres, que sempre estiveram acostumadas ao trabalho duro e solitário, agora contarem com recursos financeiros confortáveis e, principalmente, com tempo para se dedicarem ao crescimento estratégico de seus negócios. Isso prova que, com o aporte certo, o talento que sempre existiu floresce e gera um impacto exponencial”, enfatiza.
Essa aliança entre empreendedoras cria um ciclo positivo de oportunidades. A Ibraid, prevista para ser lançada em breve, já envolve dezenas de trancistas e parceiras que participarão de sua construção coletiva. Não se trata apenas de um novo aplicativo, mas do que Leia chama de “tecnologia ancestral” caminhando de mãos dadas com a tecnologia digital. “Religar a tradição ao futuro é o que estamos fazendo. Trança e tecnologia podem andar juntas para gerar riqueza na periferia”, diz Leia, ao comentar a sinergia do projeto. Iniciativas assim mostram que, quando mulheres pretas investem em mulheres pretas, os ganhos são compartilhados, há geração de renda, mas também fortalecimento identitário e comunitário.

