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Na era das margens apertadas, eficiência vira condição de sobrevivência na logística brasileira

Créditos da foto: Divulgação

Às vésperas da Intermodal 2026, setor de transporte enfrenta pressão por custos, necessidade de digitalização e busca por produtividade em um país ainda fortemente dependente do modal rodoviário

A logística brasileira entrou em 2026 menos tolerante a desperdícios. Depois de um ciclo prolongado de juros elevados, retração de consumo e aumento no custo do diesel, o setor de transporte rodoviário de cargas passou a operar com margens comprimidas e menor espaço para improviso. O que antes era diferencial competitivo — uso de dados, tecnologia embarcada, roteirização inteligente — tornou-se requisito básico para permanecer no mercado.

Às vésperas da Intermodal South America, principal evento de logística da América Latina, que ocorre em abril, a discussão no setor deixou de ser sobre inovação como tendência e passou a girar em torno de eficiência operacional como questão de sobrevivência.

O Brasil segue estruturalmente dependente do transporte rodoviário. Segundo dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT), cerca de 65% da carga movimentada no país utiliza o modal rodoviário, o que amplia a exposição do setor a oscilações no preço do combustível, pedágios, manutenção e crédito.

Com custos elevados e demanda ainda em recuperação, transportadoras passaram a buscar ganhos internos. Redução de quilômetros rodados vazios, melhor planejamento de rotas e uso mais estratégico de dados operacionais deixaram de ser projetos de médio prazo para se tornarem decisões imediatas.

“A eficiência deixou de ser uma meta aspiracional. Hoje ela é uma necessidade. Quem não mede, não ajusta. E quem não ajusta, perde margem”, afirma Célio Martins, gerente de novos negócios do Transvias.

A digitalização da logística brasileira também ganhou ritmo nos últimos anos. Ferramentas de cotação online, plataformas de consulta de frete e sistemas de gestão integrados vêm substituindo processos manuais e descentralizados. Ainda assim, o nível de maturidade tecnológica varia entre regiões e portes de empresas.

“O que vemos na prática é que empresas que usam dados para planejar rotas e negociar fretes conseguem tomar decisões com mais previsibilidade. Isso reduz risco e evita custos desnecessário”, diz Martins.

Outro tema que deve ganhar destaque na Intermodal é a multimodalidade. Embora o rodoviário siga predominante, cresce o debate sobre maior integração com ferrovias e hidrovias — especialmente em rotas de longa distância e no transporte de commodities.

O desafio, contudo, é estrutural. O Brasil ainda enfrenta gargalos logísticos históricos, como infraestrutura insuficiente, concentração de fluxos em grandes eixos e baixa integração entre modais.

Além disso, a interiorização da economia vem redesenhando a malha logística. Cidades médias têm registrado crescimento populacional e expansão industrial, exigindo novos arranjos de distribuição e redespacho.

No Transvias, esse movimento aparece na base de dados da plataforma: um salto de 34% no volume de buscas por rotas com origem ou destino no interior e em cidades médias nos últimos 12 meses.

“O Brasil real não está apenas nos grandes centros. O aumento de consultas fora das capitais mostra que a logística está se reorganizando. Isso exige planejamento mais inteligente e uso intensivo de dados”, afirma Martins.

Se a década passada foi marcada por expansão e aumento de frota, 2026 começa sob o signo da produtividade. O debate agora não é sobre crescer a qualquer custo, mas sobre operar melhor.

Na prática, a Intermodal deve refletir essa mudança de mentalidade: menos promessa futurista e mais foco em soluções aplicáveis — automação de centros de distribuição, inteligência de rotas, integração modal e redução de custos operacionais.

O setor de transporte, que tradicionalmente reage primeiro às mudanças econômicas, agora também antecipa um novo paradigma: sobreviver dependerá menos do tamanho da frota e mais da capacidade de gerir informação.

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