Especialista analisa como a IA expõe limitações do modelo educacional centrado em notas
Ferramentas capazes de responder dúvidas, organizar conteúdos, produzir textos e resolver exercícios estão cada vez mais presentes dentro e fora da sala de aula. Esse avanço da inteligência artificial tem impulsionado um debate essencial sobre os rumos da educação, especialmente diante de um sistema que ainda valoriza resultados rápidos e desempenho imediato, muitas vezes sem assegurar uma aprendizagem profunda e consistente.
Em um modelo ainda fortemente baseado em provas e notas, a IA passa a funcionar como um espelho das fragilidades do ensino tradicional. Ao facilitar respostas e entregas, a tecnologia evidencia que memorizar conteúdos ou alcançar bons resultados não significa, necessariamente, compreender, desenvolver autonomia ou aprender a pensar de forma crítica. O desafio, portanto, não está na ferramenta em si, mas na maneira como o aprendizado é avaliado e conduzido.
A nova edição da pesquisa “Our Life with AI” (Nossa Vida com IA), realizada pela Ipsos a pedido do Google, com dados referentes a 2025, revela que 79% dos usuários brasileiros já utilizam a inteligência artificial como recurso de apoio, seja para estudar, esclarecer dúvidas ou aprofundar conhecimentos. O dado reforça que a IA deixou de ser apenas um complemento e passou a ocupar um papel relevante no processo educacional, tornando ainda mais urgente a revisão das práticas pedagógicas e dos modelos avaliativos.
Para Victor Cornetta, especialista em desenvolvimento estudantil e fundador da Kaizen Mentoria, é fundamental diferenciar a tecnologia da forma como ela é empregada. “A inteligência artificial é uma ferramenta como qualquer outra. Ela pode ser extremamente produtiva quando usada para apoiar o raciocínio, organizar ideias, indicar pontos que precisam de aprofundamento e estimular o pensamento crítico. Mas, quando o foco está apenas na nota, o estudante aprende a buscar o resultado, não o processo. Nesse cenário, a IA vira apenas um atalho para entregar respostas prontas e conseguir passar de ano, o que prejudica diretamente o aprendizado”, explica.
Segundo o especialista, o problema não está na inovação em si, mas na lógica que coloca a nota como justificativa para qualquer meio. “Se o aluno acredita que o mais importante é apenas a aprovação, ele tende a usar qualquer recurso para atingir esse fim. O uso, voltado exclusivamente para obter respostas rápidas, é negativo porque interrompe o desenvolvimento da autonomia, da disciplina e da capacidade de pensar”, afirma.
Cornetta compara o uso da IA ao da calculadora no ensino de matemática. “A calculadora é uma excelente ferramenta, mas existe um momento em que o estudante precisa aprender a base, entender o processo e desenvolver a lógica antes de utilizá-la. Depois que essa base está consolidada, o recurso potencializa o aprendizado e faz sentido dentro do contexto. Com a IA acontece o mesmo: há fases em que o aluno precisa construir fundamentos, interpretar textos, resolver problemas por conta própria. Quando ele compreende o processo de aprendizagem, a tecnologia passa a atuar como apoio estratégico.”
O debate também levanta questionamentos sobre os modelos avaliativos tradicionais, que muitas vezes não consideram habilidades essenciais para o mundo contemporâneo, como resolução de problemas, pensamento estratégico e adaptação a cenários novos. “Quando tudo se resume a uma prova, perde-se a oportunidade de avaliar o desenvolvimento real do estudante. A IA apenas torna essa limitação mais visível”, pontua Victor.
Outro ponto que emerge da discussão é a formação docente. A ideia de que estudantes, por serem “nativos digitais”, dominam naturalmente a tecnologia muitas vezes impede avanços significativos no uso pedagógico da IA. Tanto professores quanto alunos precisam de formação contínua para compreender como aplicar essas soluções de forma crítica e criativa, dentro de um projeto pedagógico coerente que envolva toda a comunidade escolar.
O desafio da educação não é competir com a tecnologia, mas redefinir o que significa aprender, valorizando o desenvolvimento humano e a capacidade de evoluir ao longo do tempo. “A tecnologia precisa servir à educação, e não o contrário. Quando bem orientada, ela pode fortalecer o aprendizado. O que não pode acontecer é transformar a IA em um simples atalho para alcançar notas. O verdadeiro aprendizado é processo, construção e responsabilidade”, conclui.

