Por Josep Maria Buades*
Após mais de duas décadas de negociações, o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul finalmente começa a produzir efeitos concretos. A entrada em vigor, em 1º de maio, de uma primeira etapa que contempla 543 produtos com tarifa zero, inaugura uma nova fase para o comércio entre os dois blocos.
Segundo a ApexBrasil, a medida pode gerar um incremento de US$ 1 bilhão nas exportações brasileiras para a Europa já no primeiro ano, sinalizando um impacto imediato sobre a balança comercial brasileira e, principalmente, sobre o apetite de empresas que buscam ampliar sua presença internacional.
Mas o efeito mais relevante do acordo pode estar além das exportações de curto prazo. O tratado tem potencial para reorganizar fluxos globais de investimento, produção industrial e cadeias de suprimento em um momento em que empresas buscam reduzir dependências geográficas e ampliar sua resiliência diante de um cenário internacional mais fragmentado.
Nesse contexto, a relação entre Brasil e Barcelona-Catalunha tende a ganhar protagonismo. O Brasil já é, hoje, o principal parceiro de Barcelona-Catalunha dentro do Mercosul. O país responde por 61,3% das exportações catalãs para o bloco, o equivalente a € 841,3 milhões, e por 89% das importações catalãs provenientes da região, que somam aproximadamente € 1,8 bilhão. Além disso, 460 filiais de empresas catalãs, ligadas a 329 matrizes, já operam em território brasileiro.
Isso demonstra que o acordo não cria uma nova relação comercial, mas sim reduz custos e barreiras em uma parceria que já possui bases sólidas e tende a acelerar. O Brasil representa sozinho 73,5% do PIB do Mercosul, concentra 79% da população e movimenta aproximadamente US$ 280 bilhões em importações anuais, o equivalente a 72,3% das compras externas do bloco. Trata-se de um mercado estratégico para setores em que Barcelona-Catalunha possui forte competitividade internacional, como indústria farmacêutica, química, plásticos, máquinas industriais, equipamentos elétricos, automotivo e biotecnologia.
Essa complementaridade já aparece nos fluxos comerciais atuais. As exportações catalãs ao Brasil incluem €116,5 milhões em produtos farmacêuticos, €97,7 milhões em máquinas, €90,2 milhões em plásticos, €89,2 milhões em produtos químicos e €85 milhões em cosméticos, além de segmentos ligados ao agronegócio, alimentos e tecnologia industrial.
Com a redução tarifária, esses setores tendem a ampliar competitividade e participação de mercado. Estudos recentes indicam que o acordo pode elevar em até 40% as exportações europeias para o Mercosul, mas os impactos de longo prazo tendem a ir além do comércio exterior. O potencial mais relevante está na instalação de novas operações industriais, centros logísticos e parcerias tecnológicas, impulsionadas pelas sinergias entre as duas regiões.
O movimento, portanto, é bilateral.
Para empresas brasileiras que buscam internacionalização, Barcelona-Catalunha se consolida como uma das principais portas de entrada para a Europa. A região reúne mais de 610 mil empresas, abriga 9.602 filiais estrangeiras e se destaca como um dos principais polos industriais e logísticos do continente.
Além da infraestrutura, existe uma convergência estratégica entre os dois mercados. O Brasil oferece escala, recursos naturais, energia renovável e capacidade produtiva. Barcelona-Catalunha agrega tecnologia, inovação industrial, pesquisa aplicada e acesso ao mercado europeu.
Em um cenário global marcado por tensões geopolíticas, disputas comerciais e necessidade de reindustrialização sustentável, essa complementaridade ganha ainda mais relevância.
Mais do que ampliar exportações, o acordo UE-Mercosul pode acelerar uma agenda mais sofisticada entre Brasil e Europa: investimentos cruzados, inovação industrial, transição energética e cadeias produtivas mais resilientes.
Para Brasil e Barcelona-Catalunha, essa oportunidade já está posta. O desafio agora é transformá-la em crescimento de longo prazo.

