Uma das decisões mais caras que um gestor público pode tomar não é necessariamente investir em um projeto errado. É investir corretamente em uma necessidade que já deveria ter sido prevista anos antes.
As cidades estão mudando em uma velocidade cada vez maior. A população envelhece, novos bairros surgem, regiões se valorizam, outras perdem atividade econômica, a demanda por saúde aumenta e a infraestrutura construída décadas atrás começa a exigir modernização.
Mesmo assim, grande parte da administração pública ainda trabalha olhando predominantemente para o presente.
A pergunta normalmente é: o que precisamos resolver agora?
Acredito que precisamos acrescentar uma segunda pergunta: o que esta cidade precisará resolver daqui a dez ou vinte anos?
“Governar não pode significar apenas administrar as demandas que chegam à mesa todos os dias. Liderança também é enxergar aquilo que ainda não se tornou um problema e começar a preparar a solução”, afirma Fabio Aquino, CEO da FME Management.
O orçamento mostra o presente. Os dados podem mostrar o futuro.
Municípios possuem hoje uma quantidade de informações que seria inimaginável algumas décadas atrás.
Dados populacionais, mobilidade, saúde, educação, crescimento urbano, arrecadação, ocupação territorial e utilização dos serviços públicos podem ajudar gestores a compreender para onde a cidade está caminhando.
Mas possuir informação não significa necessariamente utilizá-la estrategicamente.
A inteligência começa quando esses dados deixam de servir apenas para explicar o que aconteceu e passam a orientar aquilo que precisa acontecer.
Se determinada região apresenta crescimento populacional consistente, é possível antecipar futuras demandas por escolas, unidades de saúde, mobilidade, saneamento e equipamentos públicos.
Se a população está envelhecendo, políticas de saúde, acessibilidade, moradia e mobilidade precisam começar a ser discutidas antes que a pressão sobre os serviços aconteça.
“O dado mais valioso para um gestor talvez não seja aquele que mostra onde está o problema. É aquele que permite perceber onde o próximo problema poderá surgir”, destaca Aquino.
É nesse ponto que tecnologia e gestão precisam caminhar juntas.
Inteligência artificial não substituirá planejamento
Muito se fala sobre inteligência artificial na administração pública.
E acredito que seu impacto será enorme.
Ferramentas capazes de analisar grandes volumes de informações poderão ajudar governos a identificar padrões, projetar demandas e melhorar decisões.
Mas existe um ponto importante: tecnologia não substitui estratégia.
Podemos ter algoritmos extremamente sofisticados indicando tendências e, ainda assim, continuar tomando decisões de curto prazo.
A inteligência artificial pode mostrar caminhos.
A liderança continua responsável por decidir qual deles seguir.
Por isso, talvez a grande transformação digital do setor público não esteja simplesmente em digitalizar processos, mas em utilizar tecnologia para aumentar a capacidade de planejamento.
Projetos precisam nascer antes das urgências
Existe ainda uma consequência econômica importante.
Quando o governo identifica antecipadamente uma necessidade, ganha tempo para estudar alternativas.
Pode avaliar uma contratação tradicional.
Pode analisar uma concessão.
Pode verificar a viabilidade de uma Parceria Público Privada.
Pode estruturar financiamentos ou buscar outras formas de cooperação com a iniciativa privada.
Quanto maior o tempo disponível para estruturar uma solução, maior tende a ser a capacidade de comparar modelos, distribuir riscos e tomar decisões tecnicamente melhores.
Quando a necessidade já se transformou em emergência, ocorre exatamente o contrário.
O tempo diminui.
As alternativas diminuem.
E o poder de escolha também diminui.
“Um projeto estruturado com antecedência permite que o poder público escolha. Uma crise obriga o poder público a reagir. Existe uma diferença enorme entre essas duas situações”, afirma Aquino.
É por isso que uma carteira de projetos estruturantes deveria fazer parte do planejamento de qualquer cidade que pretende crescer de maneira organizada.
Não apenas projetos para o próximo ano.
Projetos para a próxima década.
Mandatos são curtos. Cidades não são.
Existe, evidentemente, um desafio político nessa discussão.
Planejar para vinte anos significa iniciar projetos cujos resultados talvez apareçam depois do mandato de quem tomou a decisão.
Mas é justamente aí que liderança e gestão começam a se separar.
Gestão administra aquilo que existe.
Liderança também prepara aquilo que ainda virá.
“Talvez uma das maiores demonstrações de liderança pública seja iniciar algo sabendo que outra pessoa poderá inaugurá-lo. Porque, quando o objetivo é realmente transformar uma cidade, o protagonista precisa ser o projeto e não o governante”, afirma Aquino.
Essa cultura ainda precisa amadurecer.
Planos estruturantes não deveriam ser reiniciados a cada eleição.
Projetos tecnicamente sólidos precisam sobreviver às mudanças políticas e continuar evoluindo ao longo dos governos.
Países, estados e municípios que conseguem construir essa continuidade possuem uma vantagem extraordinária: deixam de recomeçar a cada quatro anos.
O futuro precisa entrar no orçamento do presente
Nas próximas décadas, acredito que a competição entre cidades será também uma competição pela capacidade de antecipação.
Algumas perceberão suas transformações quando elas já tiverem acontecido.
Outras utilizarão dados, tecnologia, planejamento e projetos para se preparar antes.
Essa diferença poderá determinar quem atrairá investimentos, empresas, empregos e pessoas.
Não podemos prever tudo.
Mas podemos planejar muito melhor.
E talvez uma das maiores responsabilidades de quem ocupa uma posição de liderança seja justamente essa.
Não apenas entregar respostas para os problemas de hoje.
Mas deixar preparada uma cidade capaz de enfrentar os problemas de amanhã.
Porque administrar o presente é obrigação. Preparar o futuro é liderança.

