[radio_player id="1"]
Informações

O fator individualização nas mudanças estruturais do consumo, varejo e serviços

5 Mins read

Por Marcos Gouvêa de Souza, fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem

“Papai, quando crescer quero ser youtuber ou influencer.’

A frase, cada vez mais comum, sintetiza uma mudança estrutural nas referências sociais que orientam sonhos, aspirações e projetos de vida. Em um passado relativamente recente, as escolhas profissionais gravitavam em torno de carreiras tradicionais como médico, dentista, engenheiro, bombeiro e advogado. Elas eram sempre fortemente pelo núcleo familiar, pelo status social percebido, associado a essas profissões, e pela exposição mediada pela televisão, pelo cinema e por outros meios de comunicação de massa.

No presente, as redes sociais assumiram o papel de principal vetor referencial. Elas não apenas exibem modelos de sucesso, mas os tornam acessíveis, cotidianas e aparentemente alcançáveis. A proximidade simbólica com influenciadores, criadores de conteúdo e celebridades digitais transforma o “ser” em algo mais desejável do que o “ter” ou o “saber fazer”, mudando o eixo de aspiração para a visibilidade, a autenticidade percebida e a capacidade de influenciar. Essa centralidade das redes é tão significativa que desperta preocupações sociais e institucionais, como evidenciado por iniciativas recentes, como a decisão da Austrália de restringir o uso de celulares por crianças e adolescentes.

Um dos efeitos mais profundos dessa transformação é a exponenciação da individualização como força dominante no comportamento humano. Ela passa a ser o principal filtro das atitudes, preferências, desejos e sonhos, redefinindo não apenas a forma como as pessoas se percebem, mas também como consomem, se relacionam com marcas, escolhem serviços e interagem com o varejo. Nesse contexto, o indivíduo deixa de ser apenas parte de um grupo social para tornar-se o epicentro da própria narrativa. É importante destacar que esse processo não nasceu com a pandemia, mas foi exacerbado por ela.

A individualização já vinha se consolidando como tendência estrutural, impulsionada pela tecnologia, pela fragmentação cultural e pela valorização da autonomia pessoal. No entanto, o período pandêmico e o pós-pandemia funcionaram como catalisadores poderosos, ampliando e diversificando suas manifestações. As preferências por marcas, categorias de produtos, serviços, experiências e até mesmo canais de venda tornaram-se mais fluidas, personalizadas e contextuais, sempre catalisadas por plataformas digitais e redes sociais.

Antes e de forma geral, consumidores buscavam produtos e marcas que refletissem sua identidade e comunicassem seu estilo de vida. Essas escolhas tinham forte ancoragem em padrões sociais, rotinas coletivas, validações externas e expectativas de pertencimento. Havia um maior equilíbrio entre expressão individual e conformidade social.

Quando o mundo se viu obrigado a refugiar-se para dentro de casa, esse equilíbrio foi rompido. O indivíduo tornou-se o centro absoluto da própria experiência. A atenção, antes fragmentada entre trabalho presencial, convivência social e consumo externo, voltou-se para o corpo, a mente, o mais próximo e o espaço pessoal. Esse recolhimento forçado legitimou a individualização como valor prioritário, intensificando a busca por conforto emocional, bem-estar, autoexpressão e controle sobre o tempo e as escolhas.

Nesse novo contexto, a individualização deixou de ser apenas uma preferência e passou a ser um princípio fundamental da vida contemporânea. Ela redefine expectativas, transforma relações de consumo e desafia empresas, marcas, instituições e até mesmo a política, a compreenderem um omniconsumidor-cidadão menos previsível, mais consciente de si, mais exigente e profundamente influenciado pelas narrativas e dinâmicas das redes sociais.

Estar conectado a essa constante e volátil transformação comportamental e referencial pode ser fator decisivo na criação de conceitos que gerem maior identidade e potencializem desempenho no consumo, no varejo e nos serviços.

Um setor fortemente influenciado por essa evolução estrutural em âmbito global e local – e em forte expansão – é o envolve saúde, beleza, cuidados pessoais e bem-estar no plano de produtos, marcas e serviços.

Eu, saúde, beleza, cuidados pessoais e bem-estar como exemplo

No período pré-pandêmico, produtos de saúde, beleza e bem-estar ocupavam um papel complementar: os cuidados com a pele eram vistos como uma questão estética; suplementos eram associados a performance ou nichos específicos; e o cuidar-se era um discurso aspiracional e não essencial.

O consumo seguia tendências amplas, com soluções generalistas e promessas mais universais, com a lógica de que “se funciona para todos, pode funcionar para mim”.

Com o isolamento, o indivíduo passou a observar a si mesmo com mais atenção. Sono, ansiedade, imunidade, humor, envelhecimento, foco – tudo isso se tornou pauta cotidiana. A atenção a esses aspectos deixou de ser apenas desejo e passou a ser aspecto crítico de sobrevivência física e emocional.

Aí está o tsunami das “canetas” do GLP-1 como paradigma do comportamento emergente. Em 2024, o mercado global de GLP-1 nos seus usos para diabetes e emagrecimento alcançou US$ 53,46 bilhões e a projeção é que possa crescer para US$ 156,7 bilhões até 2030. Estima-se que 26% desse consumo esteja ligado a emagrecimento; esse índice deverá crescer para 31% até 2030.

Na realidade brasileira, na composição dos dois usos, em 2024 esse mercado foi de US$ 581 milhões e deverá ser de US$ 1,38 bilhão em 2030. A participação atual de 32,5% no emagrecimento deverá evoluir para 38,3% em 2030.

Tudo isso sem considerar a expansão prevista de consumo pelos sucedâneos, genéricos e similares que surgirão nesse período, fazendo crescer a própria demanda e consumo.

Beleza, saúde e cuidados pessoais como expressões de identidade

No pós-pandemia, saúde, beleza, cuidados pessoais e bem-estar deixaram de ser categorias isoladas e passaram a ser considerados como expressão de identidade. Cuidar do corpo e da mente se tornou uma forma de afirmação individual e um gesto de autonomia em um mundo instável, mutante e mutável.

Esse movimento explica de alguma forma parte o crescimento de cosméticos e tratamentos contínuos, a explosão de suplementos funcionais e bebidas wellness, a valorização de marcas com discurso gerando empatia, inclusão e transparência e a ascensão de rotinas de cuidados pessoais mais específicas.

E também ajuda a explicar, no Brasil, o forte crescimento do setor de farmácias, drogarias e similares que temos acompanhado. No acumulado dos últimos 12 meses até outubro, último dado publicado pelo IBGE, o crescimento nominal do varejo ampliado foi 4,5%, enquanto o setor que envolve artigos farmacêuticos, perfumaria e cosméticos atingiu 8,7%. Foi quase o dobro, um comportamento tem se repetido ao longo do tempo.

Conclusão e provocação

A individualização não foi e nem será uma tendência momentânea. Ela se torna cada vez mais um dos eixos prioritários de decisão. Potencializado pelo processo de envelhecimento da população no mundo, e em especial no Brasil, emergiu um comportamento que exacerba o “eu” em relação ao coletivo.

Sem nos aprofundarmos na componente e reflexos sociais desse comportamento, é preciso reforçar que o consumidor aprendeu que seu bem-estar, saúde e os cuidados consigo mesmo – expressões do tema individualização – devem ser priorizados. O desempenho de todos os setores que envolvem essa realidade mostra que existe clara oportunidade para repensar conceitos, formatos, produtos, marcas, canais, serviços e soluções que se alinhem com essa contínua expansão.

Vale a reflexão.

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem,  ecossistema de consultorias, soluções e serviços que atua em todas as frentes do setor de consumo, varejo e distribuição. Fundada em 1988, é referência no Brasil e no mundo por sua visão estratégica, atuação prática e profunda compreensão do setor.

Saiba mais em: https://gouveaecosystem.com

Related posts
InformaçõesVendas

Pix por aproximação completa um ano com o desafio de converter potencial em adesão em massa

3 Mins read
Embora represente apenas 0,01% das transações totais, modalidade de pagamento via NFC apresenta crescimento exponencial em valores movimentados e aposta na conveniência…
Informações

Mulheres dedicam mais de mil horas por ano ao trabalho doméstico não remunerado

3 Mins read
Pesquisa da PUCPR revela impacto socioeconômico do trabalho de cuidado familiar realizado por mulheres brasileiras Um estudo conduzido por pesquisadoras da Pontifícia Universidade Católica do Paraná…
InformaçõesVendas

Vendas de vitaminas e suplementos crescem 42% em faturamento em um ano no Brasil  

2 Mins read
Levantamento da Interplayers aponta avanço consistente da categoria, com destaque para multivitamínicos e diferenças relevantes entre estados e regiões   O mercado brasileiro de vitaminas…
Fique por dentro das novidades

[wpforms id="39603"]

Se inscrevendo em nossa newsletter você ganha benefícios surpreendentes.