O Federal Reserve aumentou hoje a taxa básica dos Estados Unidos em 0,25 ponto percentual, para o intervalo entre 3,75% e 4% ao ano. A decisão foi unânime e veio acompanhada de um aviso ainda mais importante: a inflação americana continua elevada e poderá exigir novos aumentos. O mercado já esperava algum aperto. O que talvez não esperasse com a mesma convicção era descobrir que o dinheiro barato continua sendo uma espécie ameaçada de extinção.
Para o Brasil, a decisão não representa uma catástrofe. Mas certamente reduz o espaço para comemorações antecipadas. Quando os títulos do Tesouro americano passam a pagar mais, investidores podem obter remuneração maior no ativo considerado mais seguro do planeta. Para continuar atraindo capital, países emergentes precisam oferecer um prêmio adicional. E o Brasil, apesar de todas as virtudes que costuma descobrir em si mesmo durante apresentações para investidores estrangeiros, ainda não se transformou na Suíça tropical.
Isso significa que a alta dos juros americanos tende a fortalecer o dólar, pressionar moedas emergentes e aumentar o custo de financiamento de empresas e governos. O primeiro impacto potencial aparece no câmbio. Um real mais fraco encarece combustíveis, insumos industriais, componentes eletrônicos, medicamentos e praticamente tudo aquilo que a economia brasileira ainda não consegue produzir de maneira competitiva. A inflação importada volta, então, pela porta dos fundos justamente quando o Banco Central tenta conduzi-la para a meta.
O segundo efeito recai sobre a Selic. O Brasil iniciou um processo cauteloso de redução dos juros, hoje em 14% ao ano. O diferencial em relação aos Estados Unidos continua grande, mas não pode ser analisado como se fosse uma muralha intransponível. Investidores não observam apenas a taxa nominal. Avaliam também risco fiscal, dívida pública, estabilidade institucional e previsibilidade econômica.
É nesse ponto que a decisão do Fed encontra a fragilidade brasileira. Se o governo brasileiro apresentasse uma trajetória fiscal convincente, o Banco Central teria mais liberdade para reduzir a Selic mesmo diante de juros americanos mais elevados. Como essa confiança permanece limitada, cada movimento do Fed produz efeitos maiores por aqui. O problema não é apenas Washington elevar os juros. É Brasília continuar oferecendo dúvidas.
Há ainda um terceiro impacto: o crescimento. Juros globais mais altos reduzem liquidez, encarecem crédito externo e dificultam investimentos. Empresas brasileiras endividadas em dólar pagam mais. Projetos com retornos distantes ficam menos atraentes. Fusões, aquisições, infraestrutura e inovação enfrentam um custo de capital superior. A economia real recebe a mensagem alguns meses depois, quando o investimento desacelera e o emprego perde força.
Existe, evidentemente, um possível benefício. Dólar mais valorizado favorece exportadores e aumenta a receita em reais de setores como agronegócio, mineração e celulose. Mas seria ingênuo transformar esse efeito localizado numa tese otimista. Exportar mais com moeda depreciada não substitui produtividade, estabilidade fiscal ou competitividade estrutural.
A decisão do Fed também possui um significado político. Kevin Warsh, indicado por Donald Trump e inicialmente associado a uma postura mais favorável à redução dos juros, escolheu enfrentar a inflação mesmo sob pressão da Casa Branca. O banco central americano reafirmou que credibilidade monetária não pode ser administrada conforme o calendário eleitoral.
É uma lição particularmente útil para o Brasil. A alta dos juros americanos não condena o país à paralisia nem impede novos cortes da Selic. Mas exige prudência. O Banco Central brasileiro poderá continuar reduzindo os juros somente se inflação, câmbio e expectativas permitirem. Cortar por vontade política seria fácil. Controlar depois as consequências seria bem mais caro.
O Fed aumentou os juros em apenas 0,25 ponto. Para um país fiscalmente organizado, é uma mudança de cenário. Para um país que ainda negocia diariamente com a própria credibilidade, pode ser uma mudança de roteiro.

