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O fim da invisibilidade fiscal: por que a Reforma Tributária tornou erros do passado um risco de milhões

Altair Heitor - Créditos da foto: Divulgação

Altair Heitor - Créditos da foto: Divulgação

Com a fiscalização cada vez mais automatizada e a reforma tributária avançando, empresas correm para corrigir falhas que podem custar milhões em créditos tributários e adequações futuras

A transição tributária começou a expor um problema que permaneceu invisível durante anos em muitas empresas brasileiras, que é a desorganização fiscal. Com a fiscalização cada vez mais automatizada e os sistemas sendo adaptados ao novo modelo tributário, falhas em cadastros, documentos e apurações de ICMS passaram a representar riscos financeiros que vão além das multas, podendo comprometer créditos tributários e encarecer a adaptação às novas regras.

Para Altair Heitor, contador, especialista em gestão tributária para o agronegócio e CFO da Palin & Martins, o avanço da transição tributária tem levado empresários a antecipar revisões fiscais que, até pouco tempo atrás, eram deixadas em segundo plano. 

“A reforma tributária não criou esses problemas. Ela apenas acelerou a necessidade de enxergá-los. O que antes ficava escondido dentro da operação agora aparece rapidamente nos cruzamentos eletrônicos e nos processos de validação fiscal”, afirma.

A pressão aumentou em 2026, quando empresas passaram a adaptar sistemas, revisar cadastros e validar informações que, por anos, permaneceram sem atualização. O trabalho, que antes podia ser postergado, passou a ser tratado como prioridade por áreas fiscais, financeiras e de tecnologia.

Segundo o especialista, um dos equívocos mais comuns é tratar a adaptação como uma simples atualização tecnológica. Na prática, a mudança exige uma revisão profunda da governança tributária. “Muitas organizações acreditam que basta atualizar o ERP. Mas nenhum software corrige sozinho erros de classificação fiscal, inconsistências documentais ou falhas de parametrização. A tecnologia apenas reproduz aquilo que recebe”, explica.

Reforma tributária expõe falhas na gestão do ICMS

O desafio não está apenas nas novas regras. Durante os próximos anos, empresas precisarão administrar simultaneamente o ICMS e o novo modelo tributário, aumentando o risco de inconsistências, retrabalho e perda de eficiência operacional.

Nesse contexto, a qualidade das informações ganhou relevância estratégica. Dados incorretos podem afetar desde a apuração dos tributos até a utilização de créditos fiscais e a conformidade perante os órgãos fiscalizadores.

Levantamento da Confederação Nacional dos Contadores aponta que mais de 70% das empresas já identificaram falhas em documentos fiscais relacionadas a informações tributárias, especialmente em campos como NCM, CFOP e enquadramentos fiscais. Inconsistências desse tipo podem gerar retrabalho, dificultar auditorias e limitar o aproveitamento de créditos de ICMS.

“O ambiente fiscal se tornou muito mais integrado. Hoje, divergências são identificadas por cruzamentos eletrônicos em questão de segundos. Muitas empresas só descobrem determinados problemas quando precisam apresentar documentação, recuperar créditos tributários ou atender uma exigência do Fisco”, afirma Altair.

Crédito de ICMS deixa de ser tema fiscal e vira estratégia financeira

Além da preocupação com conformidade, cresce o interesse empresarial pela gestão de créditos tributários. Com margens pressionadas e maior necessidade de eficiência financeira, o crédito de ICMS passou a ser visto como um ativo capaz de fortalecer o fluxo de caixa, ampliar a liquidez e apoiar investimentos.

Segundo Altair, esse movimento tem levado empresas a revisarem operações realizadas nos últimos anos para identificar valores que podem ser recuperados de forma legal. “O crédito tributário deixou de ser um tema exclusivamente contábil. Hoje ele faz parte da estratégia financeira das empresas, especialmente em setores com operações complexas e grande volume de circulação de mercadorias”, destaca.

O especialista alerta, porém, que o direito ao crédito depende de rastreabilidade, documentação adequada e conformidade das informações fiscais. Falhas aparentemente simples podem comprometer processos de habilitação, validação ou compensação desses valores.

A expectativa é que a fiscalização baseada em dados continue avançando nos próximos anos, acompanhando a implementação gradual da reforma tributária. Nesse cenário, empresas que iniciarem agora o processo de revisão fiscal tendem a enfrentar menos obstáculos durante a transição.

Para o contador, a adequação não deve ser vista apenas como obrigação tributária, mas como uma medida de proteção financeira e gestão de riscos. “O momento de organizar é agora. Depois, o custo de correção será maior. Quem agir com antecedência terá mais segurança operacional, maior previsibilidade financeira e melhores condições para aproveitar oportunidades relacionadas ao crédito de ICMS e à nova realidade tributária”, conclui.

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