Segundo o IBGE, apenas 37,9% das empresas brasileiras sobrevivem após cinco anos; especialista aponta os fatores que comprometem sua longevidade
Abrir uma empresa no Brasil nunca foi tão comum. O país bateu recorde na criação de negócios em 2025, com 5,1 milhões de empresas abertas, crescimento de 18,6% em relação a 2024, quando foram registrados 4,3 milhões de novos CNPJs, segundo levantamento do Sebrae com base em dados da Receita Federal. No entanto, esses dados revelam um profundo paradoxo: enquanto a disposição para criar novos negócios avança a passos largos, a sustentabilidade dessas empresas caminha no sentido oposto. O verdadeiro teste começa logo após a efervescência inicial, e os dados do IBGE traduzem esse descompasso estrutural, mostrando que apenas 37,9% das empresas conseguem sobreviver após cinco anos de atividade.
Na avaliação de Vanderlei Garcia Jr., doutor em Direito Civil pela USP e especialista em contratos empresariais, a elevada mortalidade precoce não pode ser atribuída apenas a falhas de gestão ou falta de preparo. O diagnóstico exige uma visão macroeconômica. O ambiente institucional impõe severos freios ao potencial de crescimento do país, drenando a capacidade de investimento e o tempo estratégico que deveriam ser direcionados ao propósito do negócio.
“Empreender no Brasil é uma atividade marcada por desafios que vão muito além da capacidade de inovar, vender ou oferecer bons produtos e serviços. O empresário brasileiro convive diariamente com um ambiente de negócios complexo, no qual a burocracia, a elevada carga tributária, a insegurança jurídica e o alto custo do crédito se transformam em obstáculos permanentes ao crescimento econômico.”
Esse sufocamento regulatório impõe burocracias que drenam a eficiência e limitam as empresas. “O Brasil tem um dos maiores mercados consumidores do mundo e uma forte vocação empreendedora. Porém, o empresário precisa lidar com exigências acessórias e constantes mudanças legislativas”, afirma Garcia. “É comum que, em vez de concentrar esforços em inovação e produtividade, os recursos sejam consumidos na gestão dessa conformidade, o que eleva os custos operacionais e reduz a capacidade de competir de forma sustentável”, alerta.
Outro fator determinante é a estabilidade macroeconômica. Decisões de investimentos demandam regras estáveis, mas o cenário de incerteza nacional eleva o prêmio de risco e afasta o planejamento de longo prazo. “Um dos principais entraves é a falta de previsibilidade. O ambiente empresarial necessita de segurança para investir e planejar a longo prazo. Alterações frequentes de regras, mudanças de interpretação por órgãos fiscalizadores e instabilidade regulatória criam um cenário de incerteza.”
Paralelamente, os custos ocultos de conformidade inflam as despesas operacionais das empresas, reduzindo as margens de lucro e penalizando a eficiência produtiva. “A carga tributária e, principalmente, a complexidade do sistema de arrecadação também figuram entre os maiores desafios. Não se trata apenas do valor pago em tributos, mas do custo necessário para compreender, calcular e cumprir corretamente todas as obrigações impostas pelas diferentes esferas governamentais. Muitas empresas precisam manter estruturas administrativas robustas apenas para acompanhar a legislação e evitar autuações.”
As disfuncionalidades do mercado financeiro também travam a possibilidade de expansão. Com juros reais elevados e spreads bancários restritivos, o custo de captação consome as margens operacionais e inviabiliza projetos de expansão que dependem de capital de terceiros.
“Outro ponto sensível é o acesso ao crédito. O custo do dinheiro no Brasil historicamente é elevado, o que dificulta investimentos, amplia o risco financeiro das operações e limita a capacidade de expansão de milhares de empresas. Para muitos empreendedores, crescer depende de capital, mas o acesso a esse capital nem sempre ocorre em condições compatíveis com a realidade dos negócios.”
Existem ainda vulnerabilidades estruturais que ganham contornos críticos durante auditorias (due diligence), captação de aportes (venture capital) ou transações de fusões e aquisições (M&A).”Contratos mal elaborados, falta de governança, falhas de compliance e exposição a litígios representam ameaças que muitas vezes não são percebidas no início da atividade empresarial, mas que podem gerar prejuízos significativos ao longo do tempo.”
Essa exposição constante a riscos regulatórios e fiscais gera um severo desgaste institucional e psicológico no setor produtivo. Liderar corporações no Brasil exige que o corpo executivo atue sob constante pressão de contingenciamento, ou seja, operando em um modo defensivo permanente, focado em reter investimentos, cortar custos e blindar o caixa contra surpresas jurídicas.
Essa necessidade de priorizar a sobrevivência imediata em detrimento do crescimento de longo prazo drena a energia das lideranças e impacta negativamente a tomada de decisões estratégicas. “Além das dificuldades operacionais, existe um componente emocional frequentemente negligenciado. Empreender no Brasil exige resiliência. O empresário convive com a pressão constante de manter empregos, honrar compromissos financeiros, lidar com oscilações econômicas e administrar riscos que muitas vezes fogem ao seu controle. A sensação de insegurança é uma realidade compartilhada por grande parte do setor produtivo.”
Essa fricção diária acabou moldando uma agilidade operacional única nos executivos brasileiros, habituados a mudar estratégias diante de alterações legais repentinas. “Paradoxalmente, é justamente nesse ambiente adverso que surge uma das maiores virtudes do empreendedor brasileiro: a capacidade de adaptação. A criatividade, a flexibilidade e a habilidade de encontrar soluções em cenários complexos tornaram-se características marcantes de quem empreende no país.”
Por fim, o fortalecimento do ecossistema depende de reformas profundas que simplifiquem a relação entre o Estado e a iniciativa privada, reduzindo o Custo Brasil e promovendo o ganho de escala dos negócios.
O fortalecimento do ecossistema empresarial depende, fundamentalmente, de reformas estruturais que simplifiquem a relação entre o Estado e a iniciativa privada, reduzindo o Custo Brasil. Medidas como a simplificação tributária, o desmonte de amarras burocráticas e a ampliação do acesso a linhas de financiamento viáveis são urgentes para transformar o empreendedorismo em um motor perene de desenvolvimento, migrando o foco do debate da mera abertura de CNPJs para políticas consolidadas de ganho de escala.
“Empreender deveria significar concentrar esforços na geração de valor, inovação e crescimento. No Brasil, porém, ainda significa dedicar uma parcela considerável de energia à gestão de riscos estruturais”, conclui Garcia. “Em última análise, empreender no país continua sendo um exercício diário de coragem. O empresário não enfrenta apenas os desafios naturais da concorrência e do mercado; ele precisa superar barreiras institucionais que tornam a atividade produtiva muito mais complexa, custosa e arriscada do que deveria ser.”
Fonte: Vanderlei Garcia Jr é advogado e consultor jurídico, doutor em Direito Civil pela USP e mestre em Direito pela FADISP. Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Especialista em Negociação em Comportamento Humano, em Direito Processual Civil, Direito Privado e Direito Societário.

