
Efeitos emocionais, vício e colapso de vínculos familiares entram no radar de especialistas em saúde mental diante do avanço silencioso das apostas
A CPI das Apostas Esportivas — popularmente chamada de CPI das Bets — tem exposto cifras bilionárias, manipulações de resultados e brechas de regulação que chocam o país. Mas por trás dos escândalos financeiros, outra crise cresce em silêncio: o impacto psicológico devastador das apostas online sobre a população brasileira.
Segundo os especialistas em DBT (Terapia Comportamental Dialética) Êdela Nicoletti e Vinícius Dornelles, o modelo de negócios das bets não apenas facilita fraudes, como estimula comportamentos compulsivos, vício e desequilíbrio emocional, especialmente entre jovens e públicos vulneráveis. “A promessa de ganhos rápidos, somada à gamificação das plataformas e à onipresença das apostas no futebol e nas redes sociais, cria um ciclo viciante de impulso e arrependimento”, explica Nicoletti.
Dornelles reforça: “As apostas são arquitetadas para ativar o sistema de recompensa do cérebro. Isso agrava quadros de impulsividade, autossabotagem e dificuldade de regulação emocional. Estamos lidando com uma questão de saúde pública que vai muito além da economia.”
Dados da Fiocruz revelam que mais de 3,5 milhões de brasileiros já apresentam sinais de risco relacionados ao vício em jogos e apostas. A cifra movimentada em 2024 ultrapassa R$ 120 bilhões, boa parte operada por empresas sediadas fora do país e com baixa fiscalização. O número assusta, mas não revela tudo.
“O dano mais profundo é invisível”, alerta Êdela Nicoletti, que também é diretora do Centro de Terapia Cognitiva Veda. “É a deterioração das relações familiares, o colapso da autoestima, a perda de controle da própria vida. A DBT oferece ferramentas práticas para reconstruir esse equilíbrio emocional, trabalhando habilidades como atenção plena, tolerância ao estresse e estratégias de enfrentamento.”
A CPI segue em curso no Congresso e deve apresentar seu relatório final nas próximas semanas. Enquanto isso, especialistas defendem que o Brasil vá além da repressão criminal e avance para políticas públicas de proteção emocional, regulação das plataformas e campanhas de conscientização. “Precisamos enxergar o ser humano por trás da aposta”, conclui Dornelles.








