Durante uma missão empresarial à Alemanha, com visitas a empresas de tecnologia hídrica e à Hannover Messe, uma das maiores feiras industriais do mundo, um contraste ficou evidente: a diferença entre como alemães e brasileiros enxergam a água não é de tecnologia. É de mentalidade.
Essas observações têm muito a dizer, não só sobre o setor hídrico, mas sobre como o Brasil pode acelerar uma transição que já está em curso para se tornar uma grande potência do segmento.
- Na Alemanha, água é recurso crítico. No Brasil, ainda é linha de custo
O dado que resume essa diferença com mais precisão: a Alemanha perde em média 9% da água tratada antes que ela chegue ao consumidor final. O Brasil perde cerca de 40%, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). Essa diferença não existe porque os alemães têm infraestrutura mágica. Existe porque, ao longo de décadas, água foi tratada como ativo estratégico a ser protegido, não como despesa a ser administrada.
Nas empresas visitadas, o consumo hídrico aparecia nos mesmos painéis de controle que energia elétrica, eficiência produtiva e custo operacional. Não havia distinção entre gestão de recursos críticos e gestão de água. Era tudo a mesma coisa.
No Brasil, na maioria das operações corporativas, a água entra no centro de custo e só chama atenção quando aparece uma diferença muito grande na fatura. Enquanto isso não mudar, os 40% vão continuar onde estão. - A indústria alemã desenvolveu soluções hídricas porque precisava delas
A Alemanha é uma potência industrial. Química, automotiva, alimentos e bebidas, farmacêutica. Todos esses setores consomem água em volume e precisam gerenciá-la com precisão, seja por custo, seja por regulação, seja por pressão de clientes e investidores internacionais.
Esse contexto criou um ecossistema de empresas especializadas em monitoramento, tratamento, reuso e eficiência hídrica industrial sem equivalente no Brasil. Na Hannover Messe, havia soluções de inteligência artificial aplicadas a praticamente todos os problemas imagináveis. As que chamaram mais atenção foram as voltadas para gestão hídrica industrial: sensores de precisão, plataformas de análise de consumo em tempo real, sistemas de reuso integrados à linha de produção.
Não era inovação pela inovação. Era inovação respondendo a uma demanda real, exigente e bem estruturada. - Onde há indústria forte, há gestão hídrica séria
Um padrão ficou claro ao longo das visitas: a maturidade na gestão de água acompanha a maturidade industrial. Regiões e setores com operações complexas desenvolveram, ao longo do tempo, uma cultura de controle e eficiência hídrica que foi se espalhando para outros segmentos.
No Brasil, esse caminho está sendo percorrido agora, em ritmo acelerado. Setores como alimentos e bebidas, papel e celulose e mineração já operam com padrões elevados de gestão hídrica, em parte por exigência regulatória, em parte por pressão de clientes e investidores internacionais. O desafio é levar essa mentalidade para setores que ainda tratam água como custo fixo imutável: varejo, saúde, hotelaria, educação. - O gap não é de solução. É de percepção
Na Hannover Messe, dezenas de soluções de IA se pareciam entre si. O mercado de tecnologia está saturado de ferramentas que prometem transformação digital. No campo hídrico, o cenário era diferente: as soluções existem, são maduras e funcionam. O que falta, no caso brasileiro, não é tecnologia disponível. É a percepção de que o problema é grave o suficiente para justificar investimento em solução.
Essa percepção vai chegar, inevitavelmente. Tarifas continuam subindo. Eventos climáticos extremos se tornam mais frequentes. Investidores e reguladores avançam nas exigências de reporte ambiental. A questão é se as empresas brasileiras vão esperar a pressão chegar ou vão se antecipar.
O que a missão revelou
A visita à Alemanha confirmou algo já observado nas operações da T&D Sustentável: o Brasil não tem déficit de demanda por gestão hídrica. Tem déficit de urgência. As empresas que entenderem isso antes das concorrentes sairão na frente, não por responsabilidade ambiental, mas por eficiência operacional, acesso a capital e capacidade de resposta a um ambiente regulatório que só vai se tornar mais exigente.
A Alemanha não chegou nos 9% de perda por acidente. Chegou porque, em algum momento, decidiu que água era importante o suficiente para ser gerida com seriedade. O Brasil pode fazer o mesmo caminho em menos tempo.

