Por Carlos Henrique Junior**
O resultado do primeiro turno da eleição presidencial, com Flávio Bolsonaro à frente de Lula por cerca de dois pontos percentuais, reacende um debate importante sobre o efeito das pesquisas eleitorais na formação da percepção pública. Segundo a apuração final, Flávio obteve cerca de 47% dos votos válidos, enquanto Lula ficou em torno de 45%. O resultado confirmou uma disputa muito competitiva, mas também expôs uma diferença relevante entre a narrativa predominante na reta final e a ordem efetivamente registrada nas urnas.
Pesquisa eleitoral é uma estimativa probabilística, sujeita a margem de erro, metodologia, ponderação regional, taxa de recusa e modelo de eleitor provável. Ainda assim, quando a narrativa dominante mostra um candidato sempre à frente nas prévias e a urna entrega outro candidato liderando do início ao fim da apuração, há um problema de leitura pública que precisa ser analisado.
Na véspera da votação, parte dos levantamentos apontava Lula numericamente à frente, ainda que em cenário apertado. Em alguns casos, a diferença estava dentro ou próxima da margem de erro. Já outros institutos indicavam empate ou vantagem de Flávio. Tecnicamente, isso deveria ter reforçado a ideia de uma eleição aberta. Politicamente, porém, a repetição de pesquisas com Lula à frente ajudou a formar uma percepção de favoritismo mais forte do que os próprios dados autorizavam.
É nesse ponto que o conceito de viés de confirmação ajuda a entender o problema. Viés de confirmação é a tendência de selecionar, interpretar ou valorizar informações que reforçam uma crença prévia, enquanto se minimizam sinais que apontam em direção contrária. Na corrida eleitoral, isso ocorre quando pesquisas tecnicamente apertadas passam a ser lidas como confirmação de uma narrativa já desejada por parte do público, da imprensa, de campanhas ou de agentes econômicos.
Uma pesquisa que mostra vantagem pequena, dentro ou próxima da margem de erro, deveria ser comunicada como disputa aberta. No entanto, quando sucessivos levantamentos colocam o mesmo candidato numericamente à frente, ainda que por margem estreita, cria-se uma sensação de tendência consolidada. O eleitor passa a receber não apenas o número da pesquisa, mas uma interpretação embutida: quem estaria crescendo, quem estaria perdendo força, quem teria maior chance de vencer e qual voto seria mais útil.
Esse processo pode surgir da repetição. Manchetes, análises, gráficos, cortes de redes sociais e comentários de mercado vão reforçando a ideia de que determinado candidato está em vantagem estrutural. Ao mesmo tempo, pesquisas divergentes ou sinais contraditórios tendem a receber menor atenção quando não se encaixam na narrativa predominante.
O impacto é relevante porque pesquisas não apenas medem o ambiente eleitoral. Elas também ajudam a moldá-lo. Campanhas ajustam agenda, discurso, financiamento e mobilização a partir desses dados. Eleitores indecisos podem ser influenciados pela percepção de viabilidade. Doadores e partidos recalculam apoios. O mercado financeiro precifica cenários com base na probabilidade aparente de vitória. Assim, uma leitura enviesada das pesquisas pode produzir efeitos reais sobre o comportamento político.
No caso deste primeiro turno, o contraste foi evidente. A apuração mostrou Flávio à frente desde os primeiros momentos e o resultado confirmou sua liderança, ainda que por diferença pequena. Isso reforça que a eleição era competitiva, mas também expõe a fragilidade de uma narrativa prévia que tratava Lula como favorito recorrente. A distância final não foi grande, mas foi suficiente para inverter a leitura predominante das pesquisas mais comentadas.
A consequência institucional é séria. Quando a urna contraria a expectativa formada pelas pesquisas, parte do eleitorado passa a desconfiar dos institutos, da imprensa e, em casos mais extremos, do próprio processo eleitoral. Mesmo quando existem explicações metodológicas plausíveis, como abstenção diferencial, voto útil tardio ou subdeclaração de preferência, o dano reputacional já está instalado.
O aprendizado é claro. Pesquisas eleitorais continuam sendo instrumentos importantes para a democracia, mas precisam ser apresentadas com mais prudência. Empate técnico deve ser tratado como empate técnico. Vantagem numérica pequena não deve ser convertida em certeza política. Institutos precisam explicar melhor seus modelos de eleitor provável, e a imprensa precisa separar dado estatístico de narrativa eleitoral.
O viés de confirmação não está apenas em quem produz a pesquisa. Está também em quem lê, divulga e usa o levantamento para confirmar aquilo que já queria acreditar. Em uma eleição polarizada, essa diferença entre medir a realidade e desejar uma realidade pode alterar a percepção do país antes mesmo da abertura das urnas.
Carlos Henrique Junior é advogado e economista com foco em criptoativos, além disso é Strategic Advisor da Freex Corretora de Câmbio.

