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Onda de recuperações judiciais impulsiona mercado de leilões corporativos e muda a gestão de ativos no país

Créditos da foto: Divulgação

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Onda de recuperações judiciais cresce no Brasil e atinge de micro a grandes empresas; gestão do patrimônio ganha espaço nas estratégias de reestruturação

O Brasil enfrenta uma onda de pedidos de recuperação judicial que alcança empresas de diferentes portes. Em junho de 2026, 6.341 empresas estavam em recuperação judicial no país, segundo o Monitor RGF-BizDoc. Entre as micro e pequenas, eram 2.821 empresas, número 41,4% maior que no mesmo mês de 2025. Nas médias e grandes, o avanço foi de 21,2% no período.

Nesse cenário, a forma como as empresas administram e transformam seus ativos em recursos também ganha importância dentro dos processos de reestruturação. Um exemplo que chamou atenção recentemente foi o das Casas Bahia. A varejista tem realizado alguns leilões online de seus estoques, e a iniciativa virou assunto nas redes sociais e na imprensa nas últimas semanas. A imagem de produtos sendo vendidos em lotes, por valores abaixo dos praticados no varejo, despertou a curiosidade de quem nunca tinha participado de um leilão. O evento também provocou uma associação quase imediata: se a empresa está em recuperação judicial, estaria vendendo seus produtos porque está quebrando?

Não necessariamente, como explica Thiago da Mata, CEO da Kwara, plataforma responsável pelos leilões da gigante varejista. “Os leilões realizados pela varejista são ligados principalmente a produtos que passaram pelo Departamento de Assistência Técnica (DAT) e pela logística reversa. Isso significa itens devolvidos por clientes ou que, por alguma razão, não voltam para as prateleiras das lojas. Esse tipo de operação já acontecia antes do pedido de recuperação judicial e não é, por si só, consequência da reestruturação financeira da companhia”.

O caso das Casas Bahia também ajuda a lançar luz sobre uma questão que faz parte da rotina de muitas empresas: o que fazer com produtos, equipamentos, móveis, máquinas e outros bens que deixam de ser necessários para a operação. Mudanças de endereço, fechamento de lojas, redução de escritórios, renovação de equipamentos ou encerramento de atividades podem gerar um volume significativo de itens que já não têm utilidade para a empresa, mas ainda podem ter valor para outros compradores. Os leilões empresariais são uma das alternativas para dar destino a esses bens e recolocá-los no mercado.

“Um produto pode não fazer mais sentido para uma empresa e continuar tendo bastante valor para outra pessoa ou outra empresa”, explica Thiago da Mata. “São duas coisas diferentes: o valor que aquele bem tem dentro daquela operação e o valor que ele pode ter fora dela. É uma diferença simples, mas muito importante.”

Um computador que ficou obsoleto para uma grande companhia pode ser perfeitamente útil para um pequeno negócio. Os móveis de um escritório que está sendo desmontado podem equipar uma empresa que está começando. Uma máquina substituída por um modelo mais novo pode continuar funcionando em outra fábrica ou em outra cozinha industrial.

O mesmo acontece com produtos devolvidos ou que sofreram algum tipo de avaria durante o transporte. Embora nem sempre possam retornar ao estoque regular de uma loja, esses itens ainda podem ter valor e ser aproveitados por outros consumidores, dependendo de suas condições.

“Quando um ativo deixa de ser útil para a empresa, é preciso pensar no próximo destino dele. Deixar esse bem parado também tem um custo, que pode ser bastante elevado”, diz da Mata.

O que acontece com o que “sobra” nos estoques do varejo?

O varejo ajuda a ilustrar como esse processo funciona. Produtos devolvidos por consumidores, mercadorias que sofreram avarias durante o transporte ou itens que passaram por assistência técnica nem sempre retornam ao estoque regular das lojas.

Dependendo de suas condições, esses produtos podem ser avaliados e direcionados a outros canais de comercialização. Os leilões são uma das principais alternativas.

No caso das Casas Bahia, a Kwara organiza os produtos em lotes e os disponibiliza para que os interessados possam participar, visitar e dar seus lances. Como os itens podem apresentar diferentes condições de conservação, é importante que os interessados consultem as informações, fotos e demais condições disponíveis antes de registrar um lance. O Edital é o documento mais importante, contém todas as regras e é importante que seja lido antes que os lances sejam oferecidos.

No entanto, a lógica não se restringe aos produtos de varejo. A Kwara também atua na venda de bens de empresas que estão mudando ou encerrando operações, como móveis e equipamentos de escritórios, itens de hotéis, produtos utilizados em apartamentos decorados de construtoras, e outros ativos que deixaram de ser necessários.

Entre 2025 e 2026, a plataforma ultrapassou 1 milhão de itens recomercializados e realizou mais de 650 leilões. Para Thiago da Mata, o crescimento desse mercado está ligado justamente a uma mudança na forma como as empresas olham para aquilo que não precisam mais.

“Quem não conhece deste mercado ainda associa leilão à ideia de itens de uma empresa que está quebrando. Mas existe uma quantidade enorme de situações em que uma companhia está simplesmente mudando de rumo, ou até mesmo crescendo, e precisa encontrar um novo destino para aquilo que ficou para trás.”

A crise muda a conversa

O tema ganha relevância em um momento de aumento das recuperações judiciais no Brasil. Segundo levantamento da RGF, havia 6.341 empresas nessa situação no segundo trimestre de 2026, um crescimento de 65,8% em três anos. Varejo, indústria de transformação e agronegócio estão entre os setores mais afetados.

Fatores como juros elevados, crédito mais caro e restrito e o aumento do endividamento dos consumidores ajudam a compor esse cenário. Com maior pressão sobre o fluxo de caixa, as empresas tendem a buscar diferentes formas de administrar seus recursos.

Nesse contexto, ativos, estoques e outros bens que já não têm função na operação podem ser avaliados como uma possível fonte de recursos. Isso não significa, porém, que a venda de bens seja capaz de resolver, por si só, os problemas financeiros de uma empresa. Quando as dificuldades estão relacionadas ao próprio modelo de negócio ou à estrutura da operação, a alienação de máquinas, equipamentos ou estoques tende a ser apenas uma medida pontual.

A questão, portanto, é identificar se há recursos dentro da empresa que perderam sua utilidade para a operação atual, mas ainda mantêm valor e podem ser destinados a outros compradores.

“Quando uma empresa começa a enfrentar dificuldades, normalmente olha primeiro para as vendas e para os custos. O patrimônio acaba ficando em segundo plano”, afirma Thiago da Mata. “Só que, dependendo da situação, existe muito valor parado dentro da própria empresa.”

O momento de vender faz diferença

Há uma diferença importante entre vender um ativo como parte de uma decisão planejada e vendê-lo para fazer frente a uma necessidade imediata de caixa.

No primeiro caso, a empresa pode avaliar quais bens pretende manter, organizar os itens disponíveis e buscar compradores com mais tempo. No segundo, a necessidade de gerar recursos rapidamente pode limitar as alternativas e reduzir a capacidade de negociação.

“É muito diferente vender porque você decidiu que aquele ativo não faz mais sentido e vender porque precisa levantar dinheiro imediatamente”, diz da Mata. “Quando existe planejamento, a empresa tem ainda mais possibilidades.”

Por isso, a gestão de ativos também pode fazer parte de processos de reorganização e mudança na operação. Uma empresa que encerra uma unidade pode vender equipamentos que não serão mais utilizados. Uma companhia que reduz seu espaço físico pode dar outro destino a móveis e computadores. Da mesma forma, uma rede que altera seu modelo de negócio pode comercializar estoques que não pretende mais manter.

Essas decisões podem ocorrer em diferentes situações, desde mudanças estratégicas em empresas financeiramente estáveis até processos de reestruturação de companhias que enfrentam dificuldades.

O papel dos ativos em processos de reestruturação

A recuperação judicial geralmente ocorre após um período de dificuldades financeiras e operacionais. Quando uma empresa chega a esse estágio, decisões relacionadas ao patrimônio e à operação passam a ser tomadas em um ambiente de maior pressão financeira.

O acompanhamento dos ativos ao longo da operação permite identificar quais bens permanecem necessários às atividades da empresa e quais podem ser destinados a outras finalidades. Essa avaliação pode fazer parte de processos de reorganização, independentemente de a companhia estar ou não em recuperação judicial.

Isso não significa vender patrimônio diante de qualquer dificuldade financeira. A decisão depende das características da operação, da situação dos ativos e das necessidades de cada empresa.

“A decisão de se desfazer de um ativo não deve ser associada necessariamente a uma situação de dificuldade”, afirma da Mata. “Em muitos casos, trata-se de uma decisão de gestão, considerando onde aquele recurso pode gerar mais valor para o negócio.”

O que a repercussão dos leilões revela sobre o mercado

A repercussão dos leilões das Casas Bahia também chama atenção para a presença desse tipo de operação entre consumidores interessados em produtos com preços mais baixos. Além de compradores especializados, os leilões empresariais podem atrair pessoas físicas em busca de diferentes categorias de produtos.

“Esse movimento amplia o perfil dos participantes e cria um mercado secundário mais diversificado para bens que, por diferentes razões, não seguem pelos canais tradicionais de comercialização. Para as empresas, isso significa contar com uma base maior de potenciais compradores e com mais alternativas para a destinação de estoques e ativos”, ressalta o CEO da Kwara.

Com a ampliação desse mercado, as informações sobre cada lote ganham importância para a decisão de compra. Condições de conservação, origem dos produtos, documentação, regras de participação, formas de pagamento e eventuais custos adicionais ajudam o interessado a entender o que está sendo ofertado e a avaliar se o lote é adequado ao que procura antes de fazer um lance.

No caso das recuperações judiciais, porém, a venda de ativos envolve uma dinâmica diferente. Dependendo do bem e das condições previstas no processo, a alienação pode fazer parte do plano de recuperação e estar sujeita a regras e autorizações específicas.

“Quando falamos de recuperação judicial, a análise do ativo precisa considerar também o contexto do processo e os objetivos da reestruturação. Não se trata apenas de vender um bem, mas de avaliar como essa decisão se encaixa no momento de reorganização da empresa”, conclui da Mata.

Seja para reestruturação financeira, desmobilização de ativos de construtoras, hotéis e escritórios, ou destinação de logística reversa, a recomercialização estruturada oferece previsibilidade, transparência e retorno financeiro às companhias.

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