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Os estagiários serão substituídos pela IA?

Tiago Mavichian - Créditos da imagem: Germano Luders

Tiago Mavichian - Créditos da imagem: Germano Luders

Com agentes executando tarefas operacionais, as empresas encaram um desafio: estagiários ainda não estão preparados para demandas avançadas e as básicas estão deixando de existir

Com a automação e a inteligência artificial assumindo boa parte das tarefas operacionais, empresas de diversos setores se deparam com a mesma pergunta incômoda: se agentes fazem o trabalho básico, o que sobra para o estagiário aprender? 

As oportunidades de estágio se consolidaram  por oferecer uma jornada de desenvolvimento relativamente previsível: o jovem entra na empresa para lidar, inicialmente, com tarefas mais básicas, como lançar notas fiscais, fazer atendimento, elaborar relatórios, conferir dados e, aos poucos, vai ganhando responsabilidades maiores até ser efetivado como um assistente ou analista júnior.

Porém, de uns meses para cá, esse roteiro vem sendo reescrito. É um desafio que ganhou uma camada extra de complexidade e já desperta discussão  em todo o mundo sobre as vagas de nível de entrada. Nesse contexto, como as empresas vão formar as lideranças de nível intermediário para daqui a alguns anos? 

Para Tiago Mavichian, CEO da Companhia de Estágios, esse é um desafio que precisa ser encarado de frente pelas empresas. Segundo o executivo, existem variáveis que precisam ser consideradas: “O mercado precisa de talentos para sustentar o crescimento das empresas e o estagiário terá um novo papel. O desafio estará em formar os jovens de maneira acelerada, para que consigam atuar com atividades mais complexas e usando IA – não dá para abrir mão da formação das pessoas.”

Agora, com a IA e a automação de tarefas mais simples, as empresas podem se ver tentadas a reduzir posições de entrada, o que acende um sinal de alerta para o futuro em relação ao custo de atrair apenas profissionais experientes e à disponibilidade desse talento no mercado, questões centrais que o workforce planning (planejamento da força de trabalho) busca responder.

Por que é preciso redesenhar o papel do estagiário

O papel do estagiário já vinha passando por uma primeira transformação antes mesmo da IA se consolidar. O próprio mercado impulsionou a contratação de jovens aprendizes para atividades consideradas mais operacionais, modalidade em plena ascensão que atingiu a marca recorde de 715.277 contratados em 2025, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego. 

Com isso, os programas de estágio ganharam um perfil mais exigente, voltado a tarefas de maior complexidade. “No lugar de termos jovens no primeiro ou segundo ano da faculdade fazendo tarefas extremamente básicas, as posições de estágio passaram a buscar estudantes mais avançados no curso, com mais bagagem e capacidade de assumir atividades mais sofisticadas desde o início”, comenta Mavichian. 

Segundo o executivo, a automação está acelerando esse movimento de forma muito mais intensa: relatórios, lançamentos em sistema, atendimento, tudo o que ainda restava de rotineiro no estágio, vem sendo absorvido rapidamente por ferramentas de IA. Isso aponta para o que, na prática, se torna o novo papel do estagiário: menos execução repetitiva e mais participação supervisionada em problemas reais. 

No lugar de “aprender fazendo” apenas tarefas mecânicas, o jovem passa a atuar ao lado de profissionais mais experientes, validando o que a IA entrega, questionando resultados e sendo exposto deliberadamente a decisões que exigem julgamento, e não apenas execução.

O resultado, porém, é um paradoxo que, na visão do executivo, poucas empresas percebem com clareza. “O estagiário não consegue fazer atividades muito elaboradas e a tendência é ter cada vez menos atividades básicas para se demandar a um estagiário. No entanto, se você não trabalhar com formação de jovens, você vai ter um buraco nessa camada de talentos. E a pergunta é: quando você precisar contratar para cargos mais avançados, quem você terá no pipeline?”, diz.

O que os números mostram

O alerta de Mavichian encontra respaldo em dados recentes do setor. Uma pesquisa da Gartner, conduzida entre julho e outubro de 2025 com 509 líderes de cadeia de suprimentos, mostrou que 55% dos respondentes esperam uma redução na contratação de posições de entrada por conta do avanço da IA agêntica. A consultoria vai além, projetando que, até 2030, 75% das organizações que pausaram a contratação de posições de entrada em 2026 vão pagar sobretaxas de mais de 15% para atrair profissionais early-career, justamente pela escassez que essa pausa vai gerar.

Parar de contratar e deixar de desenvolver profissionais no início de carreira cria lacunas futuras no pipeline de talentos, insatisfação e prêmios salariais mais altos para atrair quem já tem experiência com IA.

O papel da liderança

Para Mavichian, cabe às lideranças de RH e aos gestores decidir onde e como a tecnologia será aplicada, a forma, os limites (guardrails) e o que se deseja preservar em termos de formação e oportunidade para as novas gerações. É uma decisão difícil, de grande responsabilidade, e que vai moldar o futuro da própria empresa.

“Uma vaga de estágio deveria ser uma vaga voltada a desenvolvimento, aprendizado e exposição, para que esse jovem, depois, vire uma posição de entrada como um assistente, um analista”, defende o executivo.

Para ele, outra saída é reservar, de forma deliberada, uma fatia de atividades operacionais mesmo quando a IA já é capaz de executá-las, pois é por meio delas que o estagiário aprende a fazer atendimento, elaborar um relatório e montar um indicador. “A empresa não pode simplesmente pular essa camada e desistir do futuro”, diz.

Para as áreas de RH, o desafio deixou de ser apenas preencher vagas de estágio. Passou a ser decidir, junto com os gestores, o que significa “aprender fazendo” em um momento em que boa parte do básico já é automatizado, reservando conscientemente espaço para que o jovem passe pela experiência operacional, sem que essa experiência seja o único conteúdo do estágio.

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