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Proposta para o MEI aprovada pelo Senado amplia limite de faturamento e prevê alívio para empreendedores endividados

Divulgação Daniel Guimarães, Advogado Tributarista

Divulgação Daniel Guimarães, Advogado Tributarista

Texto aprovado pelo Senado prevê aumento gradual do limite de receita, ampliação do número de funcionários e perdão de débitos tributários

Milhões de microempreendedores individuais (MEIs) no Brasil podem ser beneficiados por mudanças que buscam adequar as regras do regime à realidade dos pequenos negócios. O pacote de medidas conhecido como “Prospera MEI” prevê o aumento do limite de faturamento anual, a ampliação da possibilidade de contratação de funcionários e a anistia de dívidas tributárias. O Projeto de Lei Complementar (PLP) que trata dos benefícios foi aprovado pelo Senado nesta quinta-feira (15) por unanimidade e segue agora para sanção presidencial.

Criado em 2008, o regime do Microempreendedor Individual foi desenvolvido para facilitar a formalização de trabalhadores autônomos e pequenos empreendedores. Ao permitir o registro de uma empresa com menos burocracia e o pagamento simplificado de tributos, o modelo se tornou uma importante porta de entrada para a atividade empresarial no país. Com milhões de inscritos, o MEI também contribui para ampliar o acesso à Previdência Social e permitir que pequenos negócios funcionem de maneira regularizada.

Apesar dessa importância, uma das principais regras do regime permaneceu sem atualização por anos. O limite de faturamento anual de R$ 81 mil está em vigor desde 2018. Nesse período, a inflação elevou os custos de produtos, serviços, equipamentos e outras despesas necessárias à manutenção de uma atividade comercial. Com isso, o teto passou a representar uma dificuldade para quem ampliou as vendas ou conquistou novos clientes, mas ainda não dispõe de estrutura financeira e administrativa para migrar para uma categoria empresarial mais complexa.

Conforme o texto aprovado pela Câmara e pelo Senado, o limite passaria para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028. Caso a proposta seja aprovada definitivamente e implementada nesses termos, os empreendedores terão mais espaço para aumentar a receita sem precisar deixar imediatamente o regime simplificado apenas porque o negócio cresceu. A mudança pode beneficiar especialmente profissionais autônomos, prestadores de serviços, comerciantes e pequenos empresários que enfrentam o aumento dos custos e precisam ampliar as vendas para manter a rentabilidade.

O advogado tributarista Daniel Guimarães explica que o limite atual pode criar uma situação contraditória. Segundo ele, um empreendedor que consegue aumentar o número de clientes e expandir suas atividades corre o risco de ultrapassar o faturamento permitido e precisar deixar o regime do MEI.

“Faturar mais não significa necessariamente lucrar mais. Por isso, mesmo com um teto maior, será importante acompanhar as despesas, organizar o fluxo de caixa e avaliar se o enquadramento como MEI continua sendo a opção mais adequada para cada atividade”, alerta.

De acordo com o advogado, a proposta apenas realiza o ajuste inflacionário do teto de faturamento do MEI que ficou sem correção por anos.

“Embora esse maior limite para enquadramento venha a beneficiar empresas que poderão faturar mais sem precisar sair do MEI, a correção não é um presente do Governo para os microempreendedores. Trata-se somente de uma correção do índice inflacionário”, salienta. 

Guimarães aponta ainda que o pacote prevê a ampliação de um para dois funcionários por microempreendedor individual. A mudança poderá facilitar a rotina de empresas que precisam reforçar a equipe para atender à demanda, mas encontram limitações nas regras atuais.

“Contratar mais um trabalhador pode ajudar negócios que já possuem demanda suficiente para ampliar o atendimento, mas não conseguem executar todas as tarefas com a estrutura atual. Em atividades como alimentação, comércio, manutenção e prestação de serviços, por exemplo, contar com mais um funcionário pode reduzir a sobrecarga do empreendedor e permitir o atendimento de um número maior de clientes”, observa.

Outra medida de impacto potencial é a anistia de dívidas tributárias. O tributarista destaca que a iniciativa poderá beneficiar empreendedores que acumularam débitos e enfrentam dificuldades para regularizar suas empresas.

“A previsão é de que cerca de 3,6 milhões de microempreendedores com débitos inscritos na dívida ativa da União poderiam ser beneficiados, em um montante estimado em R$ 12,6 bilhões. A iniciativa busca aliviar a situação de empreendedores que acumularam obrigações tributárias e enfrentam dificuldades para regularizar suas empresas. O efeito de uma eventual anistia, porém, dependerá das condições estabelecidas no texto definitivo, incluindo os critérios de enquadramento e os débitos que poderão ser contemplados”, pontua.

O advogado ressalta, porém, que a regularização tributária, embora possa reduzir obstáculos à continuidade da atividade empresarial, não resolve sozinha problemas como a falta de capital de giro, a queda nas vendas ou o endividamento com fornecedores e instituições financeiras.

“Para que o benefício tenha resultados duradouros, também será necessário melhorar o planejamento financeiro e evitar a formação de novas dívidas. Assim, a regularização tributária deve ser acompanhada de medidas de gestão que fortaleçam a saúde financeira da empresa e contribuam para a retomada de seu equilíbrio econômico”, assinala.

O especialista acrescenta que a iniciativa abre questionamentos em relação ao perdão de dívidas.

“É preciso analisar de forma mais ampla se a proposta configura uma verdadeira justiça fiscal, já que a prática pode penalizar quem se sacrificou para manter os pagamentos dos tributos em dia enquanto beneficia os inadimplentes. Essa dinâmica levanta dúvidas sobre o incentivo à regularidade financeira no país e parece favorecer a cultura do perdão em detrimento do contribuinte pontual”, arremata.

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