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Quando o cargo pesa: o que a ficção pode revelar sobre a saúde mental de quem lidera

Livro: O Tabuleiro da Existência / Autor: Marcelo Neri - Créditos da foto: Divulgação

Livro: O Tabuleiro da Existência / Autor: Marcelo Neri - Créditos da foto: Divulgação

Romance de estreia de Marcelo Neri transforma a trajetória de um executivo em reflexão sensível sobre pressão, identidade e sentido no trabalho

Quase metade dos CEOs relata sentir solidão e isolamento, e 61% afirmam que esse quadro impacta diretamente a própria performance, segundo estudo publicado pela Harvard Business Review em dezembro de 2024. O dado ajuda a dimensionar um tema que ganha espaço nas conversas sobre trabalho e liderança: como sustentar resultados sem comprometer a saúde mental. É nesse território que o executivo do setor portuário Marcelo Neri estreia na literatura com O Tabuleiro da Existência, obra que usa a ficção para discutir dilemas silenciosos vividos por líderes.

Após décadas à frente de grandes operações internacionais, Neri relata ter atravessado um momento de questionamento profundo sobre propósito, ritmo de vida e identidade. A experiência pessoal serviu de ponto de partida para a criação de Dante Valente, protagonista do romance que, mesmo cercado de prestígio e conquistas, percebe um cansaço difícil de nomear. A narrativa acompanha justamente esse instante em que a trajetória profissional deixa de responder às inquietações internas, situação comum a muitos executivos que, acostumados a resolver problemas externos, raramente encontram espaço para olhar para si.

MARCELO NERI – Créditos da foto: Divulgação

Na história, Dante desperta em um tabuleiro simbólico que representa suas memórias, emoções e padrões de comportamento. A travessia funciona como metáfora para um movimento essencial também fora da ficção: revisitar a própria história para compreender decisões, medos e expectativas que moldam a forma de liderar. Ao longo do percurso, surgem reflexões que dialogam diretamente com o ambiente corporativo contemporâneo.

Uma delas é a relação entre desempenho e autocobrança. O romance sugere que líderes frequentemente confundem valor pessoal com resultado profissional, criando um ciclo de exaustão difícil de interromper. Outro ponto é a dificuldade de lidar com emoções consideradas improdutivas, como tristeza, culpa ou insegurança. Na jornada do personagem, esses sentimentos deixam de ser sinais de fraqueza e passam a funcionar como indicadores de que algo precisa ser reorganizado internamente, ideia que ganha força nas discussões atuais sobre bem-estar no trabalho.

A obra também toca em temas como perdão, limites emocionais e integração das múltiplas identidades que um líder carrega: profissional, familiar, social e íntima. Ao reconhecer essas camadas, a liderança deixa de ser apenas um papel de controle e passa a incluir escuta, consciência e responsabilidade consigo mesmo. Na prática, isso se traduz em decisões mais sustentáveis, relações menos reativas e maior clareza sobre o que realmente importa.

Sem se apresentar como manual ou fórmula, O Tabuleiro da Existência propõe uma pausa rara. A pausa de refletir sobre o custo invisível de sustentar posições de poder. Ao transformar experiências pessoais em narrativa simbólica, Marcelo Neri amplia uma conversa que já ecoa nas empresas: a de que cuidar da saúde mental não é um luxo individual, mas parte essencial de uma liderança capaz de permanecer lúcida, humana e consistente ao longo do tempo.

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