O Brasil vive, desde janeiro de 2026, a maior mudança estrutural do seu sistema tributário em três décadas. A Reforma Tributária saiu da teoria e entrou na fase de testes operacionais com movimentação financeira real, dois novos tributos em operação simultânea com o sistema antigo e empresas sendo obrigadas a adaptar sistemas, contratos e processos a regras que ainda estão sendo regulamentadas.
Para a contadora e consultora Wilquiane Santos, especialista em planejamento tributário e gestão patrimonial para empresas de alto faturamento, o cenário tem um risco específico que o mercado ainda subestima: tratar 2026 como um ano de espera.
“Existe uma armadilha perigosa na expressão ‘ano de testes’. Muitas empresárias estão ouvindo isso e concluindo que podem esperar para se adaptar. Não podem. Os erros cometidos agora vão se converter em passivo nos próximos anos, quando o sistema entrar em vigor pleno. E passivo tributário não some, ele cresce com juros e multa enquanto a empresa dorme.”
Em 2026, o planejamento tributário incorpora cenários de transição à análise do regime atual, ampliando o horizonte das decisões fiscais. A convivência entre tributos antigos e novos obriga as empresas a revisarem premissas que antes pareciam estáveis. Para profissionais liberais e empresas de serviços, o impacto é ainda mais direto. Enquanto o ISS atual varia geralmente entre 2% e 5%, a alíquota estimada do novo sistema pode chegar a 18,5% para profissionais intelectuais, mesmo com a redução de 30% prevista para a categoria. Uma diferença que, sem planejamento, pode comprometer toda a estrutura de precificação e margem de um negócio.
Wilquiane aponta que o primeiro semestre de 2026 abriu uma janela estratégica que muitas empresárias ainda não enxergaram. “Setembro é o prazo para decisões importantes dentro da Reforma, como a opção pelo Simples Híbrido para quem opera no B2B. Quem chegar nessa data sem ter feito as simulações vai tomar uma decisão errada ou não vai tomar decisão nenhuma. Nos dois casos, perde.”
A consultora é direta ao identificar onde está o gargalo real do mercado. Não é falta de informação, é excesso de operação e ausência de estratégia. “A empresária que fatura bem costuma estar tão ocupada gerando receita que não para para revisar a estrutura que sustenta essa receita. Aí chega a fiscalização, ou chega a Reforma, e o que parecia solidez revela uma série de vulnerabilidades que poderiam ter sido resolvidas com antecedência.”
Entre 2026 e 2032, as empresas brasileiras enfrentarão a complexa tarefa de operar sob um sistema tributário híbrido, no qual as regras antigas de PIS, COFINS, ICMS e ISS coexistirão com os novos CBS e IBS, uma dualidade que impõe não apenas desafios contábeis, mas decisões societárias e patrimoniais que precisam ser tomadas agora. “Estrutura societária não se monta da noite para o dia. Planejamento patrimonial não se faz em dezembro. Quem vai atravessar essa transição com segurança é quem começou a se preparar antes de sentir o impacto.”
Para Wilquiane Santos, o papel do contador mudou e quem ainda não percebeu isso está pagando mais do que deveria. “Contabilidade que apenas cumpre obrigação está te custando dinheiro. O meu trabalho começa onde a maioria dos contadores termina: na decisão de como estruturar o negócio para que o crescimento não carregue junto uma carga tributária que consome o que foi conquistado.”

