Psicoterapeuta alerta que a combinação entre metas agressivas, pressão por resultados e desgaste acumulado pode aumentar os casos de burnout, absenteísmo e adoecimento mental nas organizações
Com a chegada do segundo semestre, muitas organizações entram na fase mais intensa do ano. Metas são revisadas, cobranças aumentam e a pressão por resultados se torna ainda mais presente. O problema é que grande parte dos colaboradores chega a esse período já carregando meses de sobrecarga, estresse e desgaste emocional acumulado.
Segundo a psicoterapeuta e especialista em saúde emocional Daniele Caetano, fundadora da Caminhos da Terapia, a combinação entre exaustão, insegurança, metas agressivas e ausência de suporte adequado pode aumentar significativamente os casos de adoecimento mental dentro das empresas.
“O esgotamento emocional não acontece da noite para o dia. Ele é resultado de pequenos sinais ignorados ao longo do tempo. Quanto mais cedo a empresa aprende a identificar esses alertas e agir preventivamente, menores são os impactos para as pessoas e para o negócio”, afirma.
A especialista destaca que o segundo semestre costuma ser especialmente crítico porque reúne fatores que potencializam o desgaste psicológico.
“Os colaboradores já chegam a essa fase carregando o desgaste acumulado dos primeiros meses do ano, enquanto as empresas intensificam cobranças, metas e prazos para alcançar resultados antes do encerramento do ciclo. Além disso, muitas equipes operam com quadros reduzidos, assumindo múltiplas responsabilidades”, explica.
O resultado é um cenário marcado pela sensação constante de urgência, que pode levar à fadiga física e mental. Sem espaços adequados para recuperação, reconhecimento e suporte emocional, o estresse deixa de ser pontual e passa a se tornar crônico.
Sinais que merecem atenção
Daniele explica que os primeiros sinais de exaustão emocional costumam surgir de forma gradual e muitas vezes passam despercebidos por gestores e lideranças.
Entre os principais indicadores estão irritabilidade frequente, dificuldade de concentração, queda de energia, sensação constante de cansaço, perda de motivação, alterações no sono e aumento de erros em atividades que antes eram realizadas com facilidade.
Também podem surgir sintomas como distanciamento emocional do trabalho, redução do engajamento, maior sensibilidade a críticas, conflitos interpessoais e até manifestações físicas, como dores de cabeça, tensão muscular e problemas gastrointestinais.
Um dos desafios é que muitos profissionais continuam apresentando bons resultados mesmo estando emocionalmente esgotados.
“Muitas empresas ainda associam produtividade ao bem-estar, mas isso nem sempre corresponde à realidade. Há profissionais que conseguem manter a entrega por longos períodos enquanto enfrentam intenso sofrimento emocional”, alerta.
Por isso, a especialista recomenda que as organizações observem mudanças comportamentais, como isolamento, aumento do perfeccionismo, dificuldade em delegar tarefas, jornadas excessivas e ausência de pausas. Pesquisas de clima organizacional, conversas individuais frequentes e canais seguros de escuta também ajudam a identificar situações de risco antes que elas se agravem.
O papel das lideranças
De acordo com Daniele, o desgaste emocional nem sempre está ligado apenas ao volume de trabalho, mas também à forma como ele é conduzido.
“Lideranças que mantêm uma comunicação excessivamente focada em cobranças, estabelecem metas pouco realistas, normalizam jornadas prolongadas ou estimulam a cultura da disponibilidade permanente podem aumentar significativamente a pressão psicológica sobre as equipes”, afirma.
Outro fator frequentemente negligenciado é a falta de reconhecimento. Quando os esforços dos colaboradores são constantemente exigidos, mas raramente valorizados, cresce a sensação de desgaste e desmotivação.
A ausência de escuta ativa, clareza nas prioridades e apoio diante das dificuldades também contribui para a insegurança e para o aumento do estresse no ambiente corporativo.
NR-1 amplia atenção aos riscos psicossociais
A especialista destaca ainda que a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) reforça a necessidade de as empresas tratarem a saúde mental como parte integrante da gestão de saúde e segurança do trabalho.
“A norma fortalece a compreensão de que riscos psicossociais, como sobrecarga, assédio, excesso de pressão, conflitos organizacionais e ambientes emocionalmente inseguros, precisam ser identificados, avaliados e gerenciados pelas empresas”, explica.
Na prática, isso significa que a saúde mental deixa de ser vista apenas como uma questão individual do trabalhador e passa a fazer parte das responsabilidades organizacionais relacionadas à prevenção de riscos ocupacionais.
Medidas simples podem fazer diferença
Apesar do desafio, Daniele ressalta que existem ações de baixo custo capazes de gerar impactos positivos significativos no bem-estar das equipes.
Entre elas estão reuniões periódicas para alinhamento de prioridades, treinamentos para lideranças sobre saúde emocional, criação de espaços seguros de escuta, flexibilização de demandas quando possível e incentivo ao uso adequado de pausas e períodos de descanso.
Outra medida importante é monitorar constantemente a distribuição das atividades para evitar sobrecarga concentrada em determinados profissionais ou setores.
“Pequenos ajustes na comunicação, no reconhecimento e na organização do trabalho podem transformar a experiência dos colaboradores e reduzir significativamente os impactos do estresse”, destaca.
Cultura organizacional como fator de proteção
Para a especialista, a prevenção do adoecimento emocional depende diretamente da cultura construída pela empresa.
“Organizações que promovem confiança, respeito, diálogo aberto e segurança psicológica criam ambientes nos quais as pessoas se sentem mais confortáveis para pedir ajuda, relatar dificuldades e compartilhar preocupações antes que os problemas se agravem”, afirma.
Segundo Daniele, quando a saúde mental faz parte dos valores da organização — e não apenas de campanhas pontuais — os benefícios aparecem tanto na qualidade de vida dos colaboradores quanto nos indicadores de produtividade, retenção de talentos e sustentabilidade dos negócios.
“Cuidar da saúde mental dos colaboradores deixou de ser apenas uma questão de bem-estar. Hoje, é uma estratégia essencial para a sustentabilidade organizacional e para a construção de ambientes de trabalho mais saudáveis e produtivos”, conclui.

