
Jorge Azevedo traz dicas a empreendedores de quando vale a pena solicitar crédito e quais os principais cuidados que devem ser tomados para não incorrer em erros que podem inviabilizar o negócio
O mercado de crédito no Brasil está a todo vapor, como demonstram dados divulgados pelo Banco Central. Segundo a instituição, o estoque de operações de crédito no país subiu para R$6,42 trilhões, representando um aumento de 10,9% com relação a 2023, cujo saldo foi de R$ R$5,79 trilhões. Do montante total apresentado no ano passado, R$3,7 trilhões dizem respeito somente ao saldo das operações de crédito livre, que é quando os bancos têm autonomia para emprestar o dinheiro captado no mercado, definindo as taxas de juros cobradas dos clientes. Conforme o Banco Central, as empresas foram responsáveis por tomar R$ 1,6 trilhão em crédito nessa modalidade.
De acordo com o especialista em gerenciamento de risco de crédito, investidor-anjo, fundador de multinegócios e escritor, Jorge Azevedo, as pequenas empresas são uma das principais tomadoras de crédito no Brasil, necessitando, muitas vezes, desses empréstimos para que as engrenagens de seus negócios continuem a girar. No entanto, nem sempre é o momento certo para recorrer ao crédito. “Se o empreendedor precisa de recursos para um gasto esporádico que não gerará resultado para o seu negócio, o crédito não é uma boa opção. O empréstimo vale a pena somente quando o empresário tem uma oportunidade validada, como, por exemplo, precisa de capital de giro para controlar o descasamento entre a venda a prazo e a compra à vista gerado pela expansão do negócio”, diz.
A tomada de decisão com relação ao uso de empréstimos e financiamentos bancários se torna um tanto mais fácil, destaca Jorge, quando a empresa conta com um bom planejamento financeiro. Conforme o especialista, sem ele, a solicitação de crédito pode ser uma estratégia “‘fatal”. “Por exemplo, se uma empresa, apesar de ser lucrativa, estiver com um descasamento de fluxo de caixa e falta de liquidez e dimensionar mal o crédito, ela pode até quebrar. Assim, o empresário precisa entender/simular o descompasso que está gerando esse problema, planejar, mapear as lacunas, e só então, eventualmente, pedir crédito”, explica.
Um bom planejamento permitirá à empresa encontrar a melhor linha de crédito para o negócio dela. Uma franquia, por exemplo, segundo Jorge, precisará de uma linha que lhe dê alguma carência, porque no início obterá uma receita um pouco menor. “A carência permitirá compatibilizar o crédito com o ciclo operacional do negócio”, afirma. O especialista comenta que, entre todas as alternativas de linha de crédito, a que deve ser vista com mais desconfiança é o cartão de crédito empresarial. Conforme ele, financiar algo estruturante com cartão de crédito aumenta a chance de a empresa entrar no crédito rotativo, que tem taxas muito altas, com potencial de transformar as dívidas em uma “bola de neve”
É através do planejamento também que o empreendedor minimizará as chances de incorrer em erros na hora de buscar crédito para seu negócio. Um dos principais equívocos cometidos no momento de solicitar crédito, de acordo com o fundador de multinegócios, é fazê-lo tarde demais, gerando condições desfavoráveis. “O ideal é buscar crédito antes que a necessidade bata à porta. Assim, haverá mais tempo e calma para comparar as diversas opções que os bancos oferecem quando ainda não se precisa de um empréstimo, aumentando as chances de montar a linha de crédito mais vantajosa ao negócio”, diz.
Outro equívoco muito comum é focar apenas na taxa de juros, e não se atentar para o custo efetivo total do financiamento. “Para saber quanto pagará de fato, o empreendedor deve analisar todos o fluxo projetado de caixa, levando em conta, além dos juros, o seguro e outras taxas relacionadas ao crédito”, explica o investidor. Não verificar de antemão se a instituição financeira oferece um pouco de flexibilidade com relação aos prazos de pagamento também é um erro corriqueiro. Isso porque, destaca Jorge, imprevistos acontecem, e é preciso certificar-se se haverá respaldo do banco caso uma parcela precise ser prorrogada ou haja a necessidade de um prazo de carência.
Para evitar mais transtornos com empréstimos e financiamento, o especialista em gerenciamento de risco de crédito afirma ser muito importante alinhar o prazo do crédito que a empresa está tomando com o ciclo de negócio, evidenciado dessa maneira mais uma vez a importância do planejamento financeiro e da visão estratégica. “Se o ativo for de longo prazo, ele não poderá ser financiado com o crédito de curto prazo, porque ele fatalmente acabará e será preciso buscar renegociar o crédito que torna o processo sempre muito mais difícil”, destaca.
Uma boa relação com a instituição financeira pode mitigar esse problema. Para tanto, o investidor sugere que o relacionamento deve começar a ser construído mesmo antes de a empresa sentir a necessidade de um empréstimo, através de muita transparência, previsibilidade, informações confiáveis, antecipação de potenciais problemas e, principalmente, apontamento de eventuais desafios. “Ao compartilhar visão de longo prazo, a empresa traz o banco para ser um parceiro”, afirma.
Por fim, para quem deseja começar uma franquia e está pensando em pedir um financiamento bancário, Jorge dá algumas recomendações. “Primeiramente, converse com outros franqueados, para compreender o que deu certo e o que não deu certo”, destaca. Em segundo lugar, sugere o especialista, reveja o plano da franqueadora, analisando se em um cenário onde as vendas acontecem 30% abaixo do esperado, o negócio ainda é lucrativo. Por fim, recomenda o fundador de multinegócios, negocie as condições financeiras antes de assinar o contrato. “Lembre-se muitas vezes a franqueadora está buscando muito mais bons talentos do que dinheiro”, finaliza.
Sobre Jorge Azevedo
Jorge Azevedo é reconhecido como um dos principais especialistas em gestão de crédito, cobrança e riscos na América Latina. Com mais de 25 anos de experiência, sua trajetória abrange posições estratégicas em empresas globais e a condução de projetos transformacionais que impactaram diretamente os resultados financeiros de grandes corporações.
Atuou como Principal da AT Kearney, Sócio da EY, Managing Director da Accenture e Senior Expert da McKinsey, acumulando uma vasta experiência na criação de estratégias de gestão de crédito e riscos em diferentes continentes, como América do Sul, Europa e Ásia.








