Diante da falta de dinheiro para todos os compromissos, consumidores podem priorizar dívidas mais caras, mas o atraso de outras contas pode ampliar o endividamento
Mais de 52 milhões de brasileiros mantêm dívidas relacionadas ao cartão de crédito, segundo dados citados pelo Banco Central, que estuda medidas para ampliar a transparência na contratação de crédito e tornar mais claro o custo total das operações. O número se insere em um cenário mais amplo de endividamento: a edição mais recente da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da CNC, mostra que 82% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, sendo o cartão de crédito a modalidade mais presente, citada por 85,3% dos lares endividados.
Em um cenário de orçamento apertado, consumidores podem priorizar os compromissos com juros mais altos e adiar outros pagamentos, comportamento que pode ser entendido como inadimplência estratégica.
As brincadeiras que circulam na internet sobre “sortear um boleto no fim do mês para pagar” já deixaram de ser apenas piada para parte dos brasileiros. Quando a renda não é suficiente para cobrir todos os compromissos, algumas contas acabam ficando para depois, enquanto aquelas com encargos maiores ganham prioridade.
O movimento ganha atenção porque, segundo o Banco Central, parte dos consumidores ainda toma decisões olhando principalmente se o valor da parcela cabe no orçamento, sem considerar quanto será pago ao final do contrato. Entre as linhas de crédito que estão no radar da autoridade monetária estão cartão de crédito, cheque especial, empréstimos sem garantia e modalidades oferecidas no pagamento via Pix.
Para Rodrigo Mandaliti, presidente do Instituto de Gestão de Excelência Operacional em Cobrança (IGEOC), a necessidade de definir quais compromissos serão pagos primeiro é um sinal de que o orçamento já está sob forte pressão.
“Isso é sintoma de um cenário de juros altos combinado com renda pressionada. Quando o orçamento não fecha, o consumidor passa a hierarquizar dívidas e procura reduzir o impacto financeiro imediato. O problema é que essa escolha pode resolver uma conta no curto prazo sem necessariamente solucionar a falta de dinheiro”, afirma.
A chamada inadimplência estratégica ocorre quando o consumidor mantém em dia uma dívida com encargos mais altos e adia outra de menor custo. Embora a decisão possa parecer vantajosa no início, o atraso também pode gerar multas, juros, restrições e outros efeitos que precisam ser considerados. “É preciso entender como aquela decisão vai afetar o orçamento dos próximos meses e se existe uma possibilidade de reorganizar os compromissos”, explica Mandaliti.
O problema pode se agravar quando o consumidor recorre a uma nova dívida para manter outra em dia. A medida pode aliviar a pressão no curto prazo, mas também compromete a renda dos meses seguintes. Para evitar que esse ciclo se prolongue, o primeiro passo é listar os compromissos em aberto, comparar juros e vencimentos e identificar quais têm maior custo. O Custo Efetivo Total (CET), que reúne juros, tarifas, impostos, seguros e outros encargos, também deve entrar nessa avaliação.
Para Mandaliti, a escolha de qual boleto pagar pode até ser uma resposta momentânea à falta de dinheiro, mas não deve se transformar em uma rotina.
“Quando todo mês é preciso decidir qual conta ficará para depois, o problema já não está apenas em uma dívida específica. É sinal de que existe um desequilíbrio entre renda e despesas que precisa ser identificado. Nesse momento, o mais importante é entender o orçamento e definir uma estratégia para sair desse ciclo”, conclui.

