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Stablecoins começam a ganhar espaço nos pagamentos internacionais de empresas brasileiras 

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Empresas avaliam o uso de ativos digitais para reduzir etapas operacionais, acelerar liquidações e ampliar a rastreabilidade em remessas ao exterior 

As stablecoins já representavam cerca de 80% do volume de criptoativos declarado no Brasil em 2025, segundo dados divulgados pela Receita Federal em julho deste ano. Entre agosto de 2019 e dezembro de 2025, aproximadamente R$ 1,13 trilhão em operações declaradas envolveram esses ativos. O avanço começa a alcançar também as transações corporativas, com empresas avaliando o uso da tecnologia para pagamentos internacionais de serviços, licenças de software, assinaturas e fornecedores especializados no exterior.

Para Murillo Oliveira Head of Treasury da Saygo Group, holding brasileira que atua com comércio exterior, câmbio e tecnologia para operações internacionais, o interesse das empresas está menos relacionado à negociação de criptoativos e mais à possibilidade de tornar determinadas remessas mais eficientes. “As stablecoins começam a entrar na rotina das tesourarias como uma alternativa para pagamentos internacionais. A discussão passa por prazo de liquidação, disponibilidade da operação, rastreabilidade e, principalmente, pelo custo total para fazer o dinheiro chegar ao beneficiário”, afirma.

Stablecoins entram no radar dos pagamentos internacionais

Esse modelo permite que determinadas operações ocorram durante 24 horas por dia, inclusive em fins de semana e feriados, além de possibilitar o acompanhamento da transferência por meio do registro realizado na blockchain. Segundo a Saygo, na infraestrutura utilizada pela empresa, a movimentação da stablecoin pode ocorrer em segundos, com uma experiência de velocidade comparável à de um Pix, encurtando etapas de uma transferência internacional tradicional.

O custo é outro fator que vem ampliando o interesse das empresas. De acordo com a Saygo, nas estruturas atualmente utilizadas para esse tipo de pagamento, não há cobrança de IOF sobre a transferência realizada com a stablecoin. Já o Imposto de Renda Retido na Fonte depende da natureza da remessa e do enquadramento tributário da operação. Segundo estimativas da empresa, em determinados pagamentos internacionais, a combinação entre menos intermediários, maior agilidade e redução de despesas pode diminuir em até 20% o custo em relação a uma operação cambial tradicional.

Serviços, licenças de software, SaaS, royalties, assinaturas de ferramentas digitais e pagamentos a prestadores no exterior estão entre as operações nas quais a Saygo identifica maior procura pela alternativa. Já importações de mercadorias que dependem de documentação aduaneira e de estruturas específicas de câmbio precisam ser avaliadas de acordo com as exigências de cada transação.

“Quando uma empresa precisa pagar um fornecedor ou uma plataforma no exterior, velocidade faz diferença, mas custo também. Em determinadas operações, a stablecoin pode reduzir em até 20% o custo quando comparada ao caminho cambial tradicional, além de permitir uma transferência praticamente instantânea e rastreável. É essa combinação que tem despertado o interesse das tesourarias”, explica Murillo.

Regulação aproxima ativos digitais do mercado de câmbio

O avanço ocorre ao mesmo tempo em que o Banco Central amplia a regulamentação do setor. Desde 2 de fevereiro de 2026, pagamentos e transferências internacionais realizados com ativos virtuais passaram a integrar formalmente o mercado de câmbio brasileiro. A Resolução BCB 521 também alcança a compra, venda ou troca de ativos virtuais referenciados em moeda fiduciária.

A mudança amplia as exigências de identificação das partes, documentação e acompanhamento das operações, afastando a percepção de que pagamentos realizados por meio de blockchain funcionam fora das regras aplicadas às movimentações financeiras internacionais.

Para o especialista, a regulamentação também contribui para ampliar a confiança das empresas nesse tipo de pagamento. “Para uma tesouraria, não basta a transferência acontecer rapidamente. É preciso ter clareza sobre a origem e o destino dos recursos, documentação da operação e mecanismos de controle. Quando velocidade e rastreabilidade caminham junto com uma estrutura regulatória mais definida, a solução ganha espaço entre empresas que movimentam recursos internacionalmente”, afirma.

Custo precisa ser calculado antes de cada operação

A possibilidade de reduzir o custo total é um dos principais fatores que levam empresas a comparar o pagamento tradicional com operações estruturadas por meio de stablecoins. Spread cambial, tarifas bancárias, intermediários e prazo de liquidação podem tornar uma transferência internacional onerosa, principalmente para companhias que realizam pagamentos recorrentes.

Na avaliação da Saygo, dependendo da finalidade, do beneficiário e da estrutura utilizada, a stablecoin pode tornar a operação financeiramente mais eficiente, sobretudo ao reduzir etapas, intermediários e outras despesas envolvidas na transferência. A tributação, incluindo IOF e Imposto de Renda quando aplicáveis, precisa ser analisada individualmente conforme o enquadramento de cada pagamento.

No caso do Imposto de Renda Retido na Fonte, por exemplo, a Receita Federal estabelece tratamentos diferentes conforme a natureza do rendimento enviado ao exterior, o país do beneficiário e o enquadramento fiscal da operação. Pagamentos relacionados a royalties, licenciamento e prestação de serviços, portanto, continuam sujeitos à análise específica.

“É justamente por isso que não se deve olhar apenas para a cotação. Quando colocamos todos os componentes da operação na conta, é possível encontrar diferenças importantes de custo. Em determinados pagamentos, a estrutura com stablecoin pode ser significativamente mais eficiente do que o caminho tradicional, e essa economia tem chamado a atenção principalmente de empresas com volume ou recorrência de remessas internacionais”, ressalta Murillo.

Mais velocidade sem abrir mão do controle

A maior presença desses ativos também vem acompanhada de fiscalização. Desde julho, as transações com criptoativos passaram a ser informadas à Receita Federal de acordo com as regras da DeCripto, nova obrigação de prestação de informações sobre essas operações.

Para a Saygo, a evolução regulatória tende a favorecer a adoção empresarial ao estabelecer parâmetros mais claros de identificação, controle e acompanhamento das transações.

“A stablecoin não precisa ser vista apenas como um criptoativo. Para uma empresa, ela pode funcionar como infraestrutura para movimentar recursos entre países de maneira mais rápida, segura e eficiente. Quando existe redução de custo, liquidação em menos tempo e rastreabilidade da operação, há um ganho concreto para a tesouraria. É por isso que acreditamos que essa alternativa tende a ganhar cada vez mais espaço nos pagamentos internacionais”, conclui Murillo Oliveira.

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