*Por Fernando Moulin, CEO & Founder da Polaris Group, professor e especialista em dados, transformação digital e experiência do cliente
Existem sinais de crise estrutural por todo lado: endividamento das famílias superior a 80% segundo pesquisa de julho da CNC, com 30% em inadimplemento; uma sucessão de empresas, de diversos segmentos, entrando em regime de recuperação judicial (RJ) como forma de tentar protelar suas dívidas e encontrar formas legalmente válidas de sobrevivência; bets consumindo parte significativa da renda originalmente destinada ao consumo, por pessoas que sonham melhorar sua vida apertada achando que terão “sorte” no tigrinho; juros reais insuportavelmente altos, que apertam a economia real em função de uma política macroeconômica pouco responsável fiscalmente; e muitas outras notícias, que diariamente perturbam o sono dos executivos e empresários.
Ano passado foi marcado pelas instabilidades do tarifaço americano e dos choques geopolíticos globais; este ano, o período de guerras do petróleo, Copa do Mundo de 40 dias, inúmeros feriados longos e uma ferozmente polarizada eleição presidencial brasileira. Um El Niño iminente sombreia as perspectivas do futuro próximo, e existe um pessimismo generalizado em vários círculos corporativos e sociais.
Em paralelo, a inteligência artificial é a ponta de lança de um conjunto de transformações tecnológicas absolutamente inéditas para todos, tanto em ritmo quanto em escala. Manter-se plenamente atualizado tem sido mais sacrificante que a vitória de Pirro: parece que nem com um chip da Neuralink conectando nosso cérebro diretamente a um superprocessador na nuvem conseguiríamos entender todas as implicações, potencialidades e riscos das mudanças em curso. Capacitação contínua não parece ser suficiente, e a sensação de FOMO virou companheira de vida.
Ora, nada disso é novidade (ou não deveria ser). Mas tem servido como justificativa nas mais diversas organizações para resultados fracos em sequência, pouca ousadia na implementação de projetos estruturantes de transformação e para a falta de investimentos em inovação. O foco no curtíssimo prazo, às vezes por necessária sobrevivência, mas frequentemente simplesmente por miopia corporativa e falta de coragem, impede vislumbrar o que ocorrerá por detrás da neblina de incertezas à frente de todos.
Amy Webb, uma das mais reconhecidas “futuristas” globais, declarou há alguns meses que seu conhecido relatório anual de tendências não será mais produzido, porque não dá para esperar um ano para apontar mudanças em um mundo extremamente acelerado. Outro elemento para um pano de fundo que prejudica quem planeja com visão de longo prazo e prepara o amanhã com um olhar no agora.
Também o mercado de consultorias de gestão, globalmente, vem demonstrando parte desta sintomática com seus recentes resultados. McKinsey, Accenture, IBM, Bain e diversas outras empresas consagradas ao longo do tempo por seus frameworks de gestão e impacto como think tanks corporativos estão todas sendo profundamente impactadas financeiramente por uma forte retração de mercado. As organizações não possuem apetite para contratar quem pensa diferente e com visão de longo prazo, e muito menos para implementar projetos que irão colher resultados efetivos daqui a alguns meses ou anos. Não existe projeto viável se não for baseado em quick-wins – preferencialmente aqueles que resolvam em 3 semanas um problema que ninguém resolveu ao longo dos últimos 3 anos. Meu ponto não consiste em defender que esse modelo de trabalho consultivo clássico e seus custos não deveriam ser repensados profundamente, pois de fato também eles traziam consigo inúmeras ineficiências; mas sim que este é mais um sintoma da visão curto-prazista que assola todo o mercado.
Aliás, asseguro que o uso do travessão no parágrafo anterior não é um recurso estilístico da IA, em tempos nos quais ideias próprias andam também escassas e que todo texto autoral parece ter sido feito pela máquina, e vice-versa. Mais um sinal dos tempos.
Pois bem: o grande problema é que reagir à crise com uma injeção de adrenalina organizacional não constrói o futuro. Estamos desenvolvendo organizações dinâmicas e rápidas, mas pouco resilientes para se ajustar às transformações maiores em curso, principalmente sob a perspectiva do cliente.
Vejamos o varejo, por exemplo. Desde 2010, os dados deixavam evidentes que havia uma mudança estrutural em curso, trazida pela digitalização em todas as dimensões, e que ter presença relevante no e-commerce seria fundamental. Mas não foram poucos os varejistas que passaram anos sem se preparar adequadamente, e muitos tiveram que implantar seus canais digitais a fórceps durante a pandemia (com implicações técnicas e problemas que perduram até hoje). Enquanto isso, empresas com um olhar mais estruturado e consistente desenvolveram seus próprios marketplaces, presença digital, e estão menos dependentes (ou reféns) do faturamento originado no Mercado Livre, Amazon, Shopee ou iFood, por exemplo. Não era difícil antever a transformação; mas, como na Kodak, era mais fácil acelerar a captura de valor no curto prazo e deixar a mudança “um pouquinho mais para a frente”.
Faltam pouco menos de 60 dias para a conclusão das eleições, e pouco mais de 120 dias para o início de um novo ano-calendário. O cenário econômico, social, político, tecnológico e ambiental não deixará de ser altamente volátil, transiente e complexo. Você e sua empresa estarão preparados para liderar nesse contexto, mudando o que for necessário para atender a um cliente cada vez mais exigente, controlador e pouco fiel? Ou somente para reagir?

