Empregos

Supermercados têm vagas, mas escala e falta de perspectiva afastam candidatos

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Com desemprego no menor nível da série, varejo alimentar mantém postos abertos, mas encontra dificuldade para contratar em funções operacionais

Supermercados continuam com vagas abertas, mas contratar ficou mais difícil. Em 2025, a taxa anual de desocupação caiu para 5,6%, a menor da série do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 2012. No comércio, a escassez de mão de obra atingiu o maior nível dos últimos cinco anos, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

A entidade também informou que 57% das principais ocupações do setor já apresentavam sinais de falta de trabalhadores em julho do ano passado. Entre agosto de 2024 e julho de 2025, o setor abriu 321,5 mil vagas formais, mas a CNC estimou que seriam necessários mais 110 mil postos para aliviar a pressão e equilibrar oferta e demanda de trabalhadores.

No varejo alimentar, esse aperto ajuda a explicar por que as vagas seguem abertas. Segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), o setor tem cerca de 350 mil vagas em aberto no país. O contraste chama atenção. Segundo o Ranking ABRAS 2025, o varejo alimentar faturou R$ 1,067 trilhão em 2024, equivalente a 9,12% do PIB, com mais de 424 mil lojas no país e mais de 9 milhões de empregos diretos e indiretos. Para tentar preencher esses postos, a entidade passou a defender novas formas de recrutamento, como a busca por egressos do serviço militar, trabalhadores com mais de 60 anos e modelos mais flexíveis de jornada.

Para Angélica Madalosso, especialista em marca empregadora e CEO da ILoveMyJob, não é possível tratar esse quadro apenas como falta de interesse do trabalhador. “Essa avaliação começa cedo, ainda no recrutamento, quando a pessoa candidata compara a promessa da marca empregadora com a experiência do processo seletivo”, diz.

O que afasta o candidato antes da entrevista?

Quando a descrição do trabalho é vaga e o site de carreiras não deixa claro como será a rotina, o varejo perde candidato antes mesmo da entrevista, diz Angélica. Para ela, isso pesa ainda mais em funções operacionais, em que escala, jornada e possibilidade de crescimento entram cedo na conta de quem procura emprego.

Na avaliação da especialista, a transparência na vaga aparece como ponto central para evitar abandono no funil de seleção, sobretudo em operações que dependem de previsibilidade de horário e de uma rotina bem explicada.

O que pesa na escolha do candidato também mudou. Na pesquisa Loved Companies 2025, da ILoveMyJob, o plano de carreira aparece como principal elemento de um emprego ideal, à frente de salário e benefícios, colaboração entre equipes, transparência e autonomia e flexibilidade. Do outro lado, a falta de oportunidades de crescimento lidera entre os motivos que levam alguém a pedir demissão, seguida por salário e benefícios, falta de reconhecimento, sobrecarga e trabalho 100% presencial. O levantamento também mostra que o LinkedIn é o canal mais citado na busca por emprego, seguido por networking, o que reforça a importância do site de carreiras e da clareza das informações na vaga.

No varejo, essas dúvidas aparecem de forma mais concreta. A jornada é previsível? A vaga cabe na rotina? Existe chance real de subir ou o posto parece apenas mais um trabalho de curto prazo? No exterior, redes que conseguem tornar o crescimento mais visível usam esse argumento para atrair talentos. No Walmart, de acordo com Madalosso, cerca de 75% dos líderes das lojas começaram em funções operacionais.

Para Angélica, quando a empresa não responde a isso de forma objetiva, perde profissionais antes mesmo da entrevista. Na avaliação dela, quando a empresa age e comunica o que faz, gera valorização. Quando age e não comunica, gera desvalorização. E, quando comunica sem sustentar a promessa, gera descrença.

Jovens passaram a comparar mais as condições de trabalho

O aperto é maior entre os jovens. Segundo relatório do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), com base em microdados do Novo Caged, trabalhadores de 18 a 24 anos responderam por 29,4% das demissões a pedido no acumulado de janeiro e fevereiro de 2025 e tiveram taxa de desligamento voluntário de 42,8%, a mais alta entre as faixas etárias adultas analisadas. A dificuldade não aparece só nos supermercados. No atacado paulista, a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) também relatou problema para contratar e fidelizar profissionais, mesmo com o desemprego em queda, e apontou redução do tempo médio de permanência no setor.

Para a especialista, isso não permite concluir que os mais jovens simplesmente não queiram trabalhar. O que mudou foi o padrão de comparação. Se a carteira assinada aparece ligada a jornada pesada, pouca flexibilidade e ausência de desenvolvimento, ela perde espaço para outras formas de trabalho que prometem mais autonomia, previsibilidade e reconhecimento. Na avaliação dela, a CLT perdeu atratividade quando passou a ser associada a desgaste, chefias ruins e falta de crescimento, e não por causa do regime em si. 

Madalosso ainda lembra que o supermercado que explica melhor o trabalho e mostra, com mais clareza, o que oferece tende a sair na frente. Com desemprego baixo e vagas abertas no setor, a forma como a empresa apresenta a oportunidade passou a pesar mais na decisão de se candidatar.

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