Apesar da bandeira verde em outubro, redução no custo da energia não elimina desperdícios que seguem comprometendo a rentabilidade do varejo alimentar
A confirmação da bandeira tarifária verde para outubro pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) traz alívio para empresas e consumidores, já que a conta de luz deixa de ter cobranças adicionais após cinco meses de bandeira amarela. A melhora das condições hidrológicas nas regiões Sul e Sudeste permitiu reduzir o acionamento de usinas termelétricas, mais caras para o sistema elétrico nacional.
Para o varejo alimentar, no entanto, a notícia exige uma reflexão importante. Segundo Sami Diba, CEO do Sistema Operacional de Ativos NEO Estech, a redução da tarifa não significa necessariamente uma operação mais eficiente. “Em um setor em que refrigeração, climatização e iluminação representam uma parcela significativa dos custos operacionais, a verdadeira economia está menos ligada ao preço da energia e mais à forma como ela é consumida”, afirma.
O empresário se refere a casos em que equipamentos permanecem operando fora dos parâmetros ideais, sistemas de climatização continuam ativos sem necessidade e falhas operacionais passam despercebidas por semanas ou meses. “A bandeira verde reduz o custo da energia, mas não corrige desperdícios. Quando uma empresa paga menos por quilowatt-hora, ela pode até sentir um alívio imediato na conta, mas isso não significa que sua operação esteja eficiente. O desperdício continua existindo, apenas fica menos visível”, conta o CEO.
Segundo o executivo, momentos de redução tarifária costumam representar uma oportunidade para que empresas revisem seus indicadores energéticos com mais profundidade. “Quando o preço sobe, todos olham para a conta. Quando o preço cai, poucos analisam o consumo. É justamente nesse momento que as organizações conseguem identificar ineficiências estruturais que permanecem escondidas no dia a dia da operação”, explica.
Nos supermercados, o desafio é ainda mais relevante porque a energia está diretamente ligada à conservação dos produtos. Equipamentos de refrigeração operando acima do necessário, portas de câmaras frias mal vedadas, vazamentos de fluido refrigerante e sistemas de climatização desregulados podem elevar o consumo sem que isso seja percebido pelas equipes locais.
O cenário ganha importância porque as bandeiras tarifárias refletem apenas o custo da geração de energia no país, não o desempenho energético das empresas. O próprio sistema foi criado para sinalizar as condições de geração e incentivar o uso consciente da eletricidade, mas não substitui ações de gestão e monitoramento do consumo.
Para Sami, a diferença entre economizar e ser eficiente está na capacidade de transformar dados em decisões operacionais. “Uma conta menor por causa da bandeira verde é um benefício conjuntural. Já uma operação eficiente gera economia permanente. Empresas que monitoram continuamente seus equipamentos conseguem reduzir desperdícios, prolongar a vida útil dos ativos e evitar perdas operacionais independentemente da cor da bandeira tarifária”, afirma.
Ele também destaca que o varejo alimentar ainda possui uma grande oportunidade de evolução nessa área. “A energia continua sendo uma das despesas mais relevantes para supermercados. Quem trata o tema apenas como uma questão tarifária perde a chance de capturar ganhos muito maiores por meio da eficiência operacional. O foco não deve ser apenas quanto custa a energia, mas como ela está sendo utilizada dentro da operação”, conclui.

