Com novas regras em vigor em 2026, empresas passam a ser cobradas por dados auditáveis e cresce a necessidade de atenção com o tema para que possam ser evitados riscos reputacionais, dentre outros
O Brasil vive, neste momento, um grande teste da agenda de sustentabilidade no ambiente corporativo. Após a entrada em vigor, em 1º de janeiro de 2026, das novas exigências para divulgação de informações ambientais, sociais e de governança, empresas de capital aberto começam a publicar seus primeiros relatórios ESG sob padrões mais rígidos e comparáveis. A chamada “temporada de relatórios”, que se intensifica entre março e maio, marca uma mudança estrutural. O que antes era, em grande parte, voluntário, agora passa a ser tratado como obrigação regulatória com impacto direto sobre o mercado financeiro.
Na prática, a padronização dos dados e a exigência de maior transparência coloca as companhias sob um novo nível de escrutínio. Se antes era possível destacar iniciativas pontuais como demonstrativo de compromisso ambiental, agora os relatórios precisam refletir a operação real dos negócios, com indicadores mensuráveis e passíveis de comparação. O movimento também amplia o risco de exposição de práticas de greenwashing situação quando empresas exageram ou distorcem suas ações relacionadas a sustentabilidade.
Para o diretor da Clam Sustentabilidade e vice-presidente da Sociedade Mineira de Engenheiros (SME), José Cláudio Nogueira Vieira, o momento representa uma virada definitiva na forma como o tema é tratado no país. “Os relatórios agora serão muito mais padronizados e comparáveis. Não é mais possível apresentar ações isoladas como se fossem uma estratégia de sustentabilidade”, afirma.
Segundo ele, a principal mudança está na conexão entre discurso e prática. “O que a empresa declara precisa refletir o que acontece na produção, na indústria, no campo. Não há mais espaço para um discurso desconectado da operação real”, diz.
Além da pressão reputacional, a nova fase do ESG traz um componente ainda mais sensível para as empresas, que é o acesso a crédito. Instituições financeiras passaram a incorporar critérios ambientais e de governança na análise de risco, o que transforma a sustentabilidade em fator determinante para expansão dos negócios.
“Empresas que querem crescer vão precisar cada vez mais atender a critérios ambientais, caso contrário, o acesso a financiamento fica mais difícil e, em alguns casos, nem acontece”, afirma Vieira.
Esse movimento acompanha uma tendência global e ganha força no Brasil com a criação de instrumentos como o mercado regulado de carbono e a adoção de padrões internacionais de divulgação. Na prática, o ESG deixa de ser apenas uma agenda institucional e passa a integrar a lógica econômica das companhias.
Um dos principais desafios, segundo o especialista, é justamente romper com a separação ainda comum dentro das empresas entre áreas de sustentabilidade e operação. “Muitas organizações ainda tratam sustentabilidade como algo à parte, com um departamento específico. Essa lógica não se sustenta mais ! A tendência é integrar tudo ao negócio”, explica.
A mudança, embora complexa, é considerada inevitável. Com investidores mais atentos e regras mais claras, o mercado passa a diferenciar, com maior precisão, empresas que efetivamente incorporam práticas sustentáveis daquelas que apenas comunicam iniciativas pontuais.
“Estamos vivendo um grande teste real do ESG no Brasil. O mercado vai começar a separar quem faz de quem só fala”, conclui Vieira.

