Por Sara Chiarapa, Consultora de Fortunas na MZM Wealth Management e planejadora financeira CFP®
A próxima grande mudança na gestão dos patrimônios familiares pode acontecer antes mesmo dos bens chegarem aos filhos. Segundo a Cerulli Associates, dos US$ 124 trilhões que devem ser transferidos nos Estados Unidos até 2048, US$ 54 trilhões passarão primeiro entre cônjuges, e mais de 95% desse montante deverá chegar às mulheres. A sucessão, portanto,deve deixar de ser tratada apenas como uma discussão sobre quem herdará os ativos no futuro e passar a considerar quem provavelmente assumirá sua gestão e se essa pessoa participa das decisões enquanto ainda há tempo para compreendê-las.
Receber uma carteira de investimentos, participações societárias, imóveis e estruturas sucessórias não significa conhecer a lógica pela qual esse patrimônio foi construído. Em muitas famílias, informações sobre bancos, empresas, seguros, estruturas societárias e decisões tributárias permanecem concentradas em apenas um dos cônjuges, criando uma dependência que raramente é percebida enquanto tudo funciona normalmente. O problema aparece quando essa pessoa deixa de estar presente e o outro cônjuge precisa assumir, de uma só vez, patrimônio, decisões e relações profissionais que nunca acompanhou de perto.
Os dados reforçam esse risco. Pesquisa do UBS com mulheres investidoras nos Estados Unidos mostrou que 83% das viúvas enfrentaram dificuldades ao assumir sozinhas o patrimônio familiar, enquanto uma em cada quatro declarou não saber onde estava todo o patrimônio do parceiro antes de sua morte. Entre mulheres que ainda esperam receber herança dos pais, 74% antecipam dificuldades no processo. Uma família pode, portanto, ter documentos jurídicos bem estruturados e ainda assim falhar na sucessão se não houver transferência de conhecimento, porque patrimônio organizado no papel não garante capacidade de decisão na prática.
No Brasil, o cenário segue na direção de uma participação feminina cada vez maior nas decisões financeiras. A B3 registrou 1,48 milhão de mulheres com posição em renda variável em fevereiro de 2026, crescimento de 83,4% em cinco anos, enquanto cerca de 45,2 milhões já investiam em produtos de renda fixa. Esses números mostram que o problema não está na capacidade feminina de gerir recursos, mas na arquitetura decisória das famílias. Quando um dos cônjuges participa pouco das reuniões, desconhece a composição dos ativos ou não acompanha os critérios que orientam as escolhas, a família concentra risco justamente onde deveria distribuí-lo.
Por isso, um planejamento sucessório consistente precisa preparar quem poderá assumir o patrimônio muito antes da transferência. Isso envolve inserir ambos os cônjuges nas reuniões com gestores, advogados e contadores, manter um mapeamento atualizado de ativos, obrigações e estruturas societárias e discutir de forma recorrente as decisões relevantes da família. Mais do que transmitir informações, é preciso desenvolver autonomia para que cada pessoa entenda por que determinadas escolhas foram feitas, quais riscos existem e quais decisões poderão precisar ser revistas no futuro.
A qualidade de uma sucessão não deveria ser medida apenas pela eficiência com que os bens mudam de titularidade, e sim pela capacidade de quem os recebe de assumir sua gestão com segurança e compreensão. Se trilhões de dólares deverão passar primeiro para mulheres antes de alcançar a geração seguinte, prepará-las apenas depois da transferência será tarde demais. O patrimônio pode mudar de mãos em um único ato, mas a capacidade de administrá-lo depende de participação, conhecimento e prática construídos enquanto a família ainda pode tomar decisões em conjunto.
Sara Chiarapa é planejadora financeira certificada CFP® (Certified Financial Planner), Consultora de Fortunas na MZM Wealth Management. Atua há mais de 18 anos no mercado financeiro, com ampla experiência em consultoria de investimentos, organização patrimonial, proteção familiar e planejamento sucessório para o segmento private.








