Com trânsito, clima e condições das estradas fora do controle das empresas, renovação da frota, telemetria e inteligência artificial avançam como ferramentas para aumentar a previsibilidade das operações
Prever exatamente quanto tempo uma carga levará para cruzar o Brasil continua sendo um dos grandes desafios do transporte rodoviário. Trânsito, acidentes, chuva, bloqueios e condições das estradas podem alterar uma viagem mesmo quando todo o planejamento foi feito corretamente. Se parte dessas variáveis é impossível de controlar, transportadoras começam a concentrar investimentos justamente naquilo que está ao seu alcance: reduzir as chances de o próprio caminhão se tornar mais um imprevisto no caminho.
A estratégia combina renovação mais frequente da frota, manutenção, monitoramento em tempo real e tecnologias capazes de acompanhar tanto o veículo quanto o comportamento durante a viagem. O objetivo não é eliminar atrasos, mas aumentar a previsibilidade da operação ao diminuir ocorrências como quebras mecânicas e paradas inesperadas.
O desafio é especialmente relevante no Brasil. Segundo a Pesquisa CNT de Rodovias, as condições do pavimento das rodovias brasileiras podem elevar em cerca de 32% o custo operacional do transporte, reflexo do impacto que a qualidade da infraestrutura exerce sobre consumo de combustível, desgaste dos veículos, manutenção e tempo de viagem.
“Não conseguimos controlar uma chuva forte, um acidente ou um bloqueio na rodovia. O que conseguimos fazer é reduzir ao máximo as variáveis que dependem da transportadora. Quanto menor a chance de um caminhão parar inesperadamente, maior é a nossa capacidade de cumprir aquilo que foi planejado para a carga”, afirma Leonardo Busin, CEO da Buzin Transportes.
O caminhão deixa de ser apenas veículo e passa a gerar dados
A mudança vai além da substituição de veículos antigos. Sistemas de telemetria, rastreamento, sensores e inteligência artificial aumentaram a quantidade de informações disponíveis para quem administra uma frota.
Em vez de descobrir um problema somente quando o caminhão precisa parar, a operação passa a acompanhar continuamente o veículo e pode usar os dados para identificar comportamentos fora do padrão, planejar intervenções e tomar decisões durante o trajeto.
Estudos internacionais sobre manutenção preditiva apontam o potencial dessa transformação. Pesquisa publicada em 2026 na revista científica Scientific Reports, que analisou a utilização combinada de sensores, Internet das Coisas, machine learning e digital twins em equipamentos logísticos, encontrou redução de 30% a 50% no tempo de indisponibilidade dos equipamentos e de 20% a 40% nos custos de manutenção no modelo analisado.
Na prática, a tecnologia ajuda a trocar uma lógica historicamente reativa, a de esperar um problema aparecer para resolvê-lo, por uma gestão cada vez mais preventiva.
Frota rodando
Na Buzin Transportes, a renovação frequente dos veículos é uma das estratégias adotadas para diminuir intercorrências. A frota da empresa tem idade média de aproximadamente dois anos e, atualmente, apresenta índice de disponibilidade próximo de 99%, com cerca de 1% dos veículos indisponíveis por manutenção.
O percentual é relevante porque, dependendo da operação, os caminhões percorrem grandes distâncias e podem permanecer até 90 dias na estrada. Quanto maior a utilização do veículo, maior também a importância de reduzir a possibilidade de uma falha mecânica interromper uma viagem e comprometer a programação da carga.
“Disponibilidade é um indicador diretamente ligado à eficiência. Um caminhão parado inesperadamente deixa de produzir e pode gerar um efeito em cadeia, porque existe uma programação por trás daquela viagem. Por isso, renovar a frota não é apenas uma decisão sobre patrimônio. É também uma forma de diminuir o risco operacional”, explica Busin.
Tecnologia acompanha o caminhão durante a viagem
A renovação é acompanhada pelo investimento em tecnologia embarcada. Na Buzin, a frota é monitorada por rastreamento via satélite, permitindo acompanhar informações como localização e velocidade em tempo real. Os veículos também utilizam recursos como localizador, imobilizador, câmeras e sensores de fadiga com inteligência artificial.
Essas informações permitem que a central de operação tenha uma visão mais ampla do que acontece durante o percurso. Se o tempo de uma viagem começa a fugir do planejado, por exemplo, saber onde está o caminhão e acompanhar a operação permite reagir mais rapidamente e atualizar a programação.
A tecnologia também amplia a capacidade de trabalhar com prevenção. A telemetria, por exemplo, pode ajudar a identificar padrões de condução e situações que aumentam desgaste, consumo ou risco. Na Buzin, a própria estrutura de telemetria foi desenvolvida internamente ao longo dos últimos anos e passou a integrar a gestão da frota.
Previsibilidade passa a ser parte do serviço
A discussão ganha força à medida que as cadeias logísticas trabalham com estoques mais enxutos e janelas de entrega mais específicas. Indústria, varejo, centros de distribuição e e-commerce dependem da chegada da carga para manter outras etapas funcionando.
Nesse cenário, um atraso deixa de representar apenas algumas horas adicionais na estrada. Dependendo da operação, pode afetar descarga, produção, abastecimento ou a programação de outros veículos.
Por isso, a previsibilidade começa a ganhar espaço ao lado de indicadores tradicionais como preço do frete e tempo de trânsito. Não significa prometer que nenhum caminhão irá quebrar ou que toda entrega ocorrerá exatamente no horário previsto, mas aumentar a capacidade de antecipar problemas e diminuir ocorrências evitáveis.
“Transporte sempre terá imprevistos porque acontece em um ambiente que não controlamos completamente. A diferença é quanto desses imprevistos a empresa consegue retirar da equação. Se eu não controlo a estrada, preciso controlar muito bem o caminhão, a manutenção e as informações da operação”, conclui Busin.

