AUTORA – Cristina Fornazieri é contadora e Gestora Turnaround da Safegold
Em momentos de pressão financeira, crescimento desorganizado ou necessidade de reestruturação, a sobrevivência de uma empresa depende de muito mais do que a simples obtenção de recursos. É nesse contexto que a atuação do gestor de turnaround se torna decisiva. Seu papel vai além da gestão financeira tradicional: trata-se de restabelecer a capacidade da organização de gerar resultados, recuperar credibilidade perante o mercado e criar condições para um crescimento sustentável.
Ao assumir uma operação em processo de recuperação, o primeiro desafio costuma ser garantir liquidez suficiente para manter as atividades em funcionamento. No entanto, captar recursos sem uma estratégia estruturada pode apenas adiar problemas que voltarão a surgir no curto prazo. Por isso, o gestor de turnaround trabalha para equilibrar as necessidades imediatas de caixa com a construção de uma estrutura financeira sólida e sustentável.
Entre as alternativas mais utilizadas estão as operações de antecipação de recebíveis, cessão de créditos, estruturas com comissárias e soluções de fomento mercantil. Cada uma delas possui características específicas, custos distintos e impactos diretos sobre o fluxo de caixa da empresa. A escolha adequada exige análise criteriosa dos riscos envolvidos, da capacidade de geração de caixa futura e dos objetivos estratégicos do negócio.
Entretanto, a experiência prática demonstra que o acesso ao crédito raramente é limitado apenas pela situação financeira da empresa. Em muitos casos, organizações com potencial de recuperação encontram dificuldades para viabilizar operações por não possuírem informações estruturadas, documentação organizada ou demonstrações financeiras capazes de transmitir segurança aos agentes financeiros.
Nesse cenário, a qualidade das informações torna-se um ativo estratégico. Instituições financeiras e parceiros de mercado tomam decisões com base na confiabilidade dos dados apresentados. Quanto maior a transparência e a consistência das informações, maior tende a ser a velocidade das análises e a confiança depositada na empresa.
Um dos pontos críticos desse processo é a conferência dos borderôs
Embora frequentemente tratada como uma atividade operacional, essa etapa possui forte impacto estratégico. Um borderô devidamente validado permite conferir títulos, verificar vencimentos, analisar a elegibilidade dos recebíveis e identificar inconsistências antes que elas comprometam a operação. Esse cuidado reduz retrabalhos, evita questionamentos futuros e aumenta significativamente a eficiência na liberação dos recursos.
Da mesma forma, a comunicação com instituições financeiras desempenha papel fundamental na recuperação empresarial. Empresas que apresentam informações claras, respondem rapidamente às solicitações e demonstram domínio sobre seus números costumam construir relacionamentos mais sólidos com o mercado. A credibilidade não é resultado apenas dos indicadores financeiros, mas também da capacidade de gestão demonstrada ao longo do processo.
Ao longo dos projetos de turnaround, observa-se um padrão recorrente: as empresas que conseguem superar períodos de dificuldade não são necessariamente aquelas com maior disponibilidade de recursos, mas aquelas que desenvolvem processos consistentes de gestão. Organização documental, governança financeira, monitoramento de indicadores e disciplina na execução tornam-se diferenciais competitivos capazes de acelerar a recuperação e reduzir riscos.
Nesse contexto, o gestor de turnaround atua como um elo entre as necessidades operacionais da empresa e as exigências do mercado financeiro. Sua função é transformar informações dispersas em dados confiáveis, operações complexas em processos estruturados e desafios financeiros em planos de ação capazes de gerar resultados concretos.
Mais do que buscar capital, o trabalho consiste em construir confiança. Confiança dos credores, dos parceiros, dos fornecedores, dos investidores e, principalmente, da própria gestão. Quando uma empresa demonstra controle, previsibilidade e capacidade de execução, cria as condições necessárias para retomar seu crescimento de forma sustentável.
Em última análise, a recuperação empresarial não acontece apenas quando os recursos chegam ao caixa. Ela ocorre quando a organização passa a operar com disciplina financeira, governança adequada e processos capazes de sustentar suas decisões.

