Com metade dos brasileiros de 16 a 24 anos já usando inteligência artificial, especialistas defendem preparo técnico para decisões que devem impactar energia, clima e recursos naturais
Enquanto a inteligência artificial avança sobre áreas estratégicas da economia, cresce também a preocupação sobre quem estará preparado para tomar decisões envolvendo energia, clima e recursos naturais nos próximos anos.
Hoje, sistemas de IA já são usados no monitoramento de desmatamento, prevenção de incêndios e gestão de energia renovável. Ao mesmo tempo, o aumento da demanda por data centers reacende o debate sobre consumo energético, infraestrutura e responsabilidade ambiental.
O tema ganha ainda mais relevância em um momento em que o Brasil discute a expansão de sua infraestrutura digital. Neste mês de junho, a Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação da Câmara dos Deputados aprovou um projeto que cria a Política Nacional de Data Centers. A proposta reacende debates sobre soberania digital, já que parte relevante dos dados utilizados por empresas e órgãos públicos é armazenada fora do país, e também sobre o consumo de energia e recursos naturais necessários para sustentar essa infraestrutura, num contexto em que ainda não há cláusulas que garantam contrapartidas claras ao país, como a transferência de tecnologia.
Diante desse cenário, a formação das novas gerações passa a ocupar um papel maior, já que serão esses jovens os responsáveis por desenvolver, operar e direcionar boa parte dessas tecnologias no futuro.
Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2025, realizada pelo Cetic.br, metade dos jovens brasileiros entre 16 e 24 anos já utiliza inteligência artificial no cotidiano, índice superior ao registrado entre adultos acima de 35 anos. O dado reforça a velocidade com que essas ferramentas vêm sendo incorporadas à rotina da população e ao mercado de trabalho.
Para Marco Giroto, fundador da SuperGeeks, escola especializada em competências tecnológicas, a discussão sobre inteligência artificial precisa ir além do uso básico das plataformas.
“A tecnologia não é o problema. O problema é desenvolver e usar essas ferramentas sem preparo e sem entender os impactos das decisões tomadas a partir delas”, afirma.
O avanço da IA também deve acelerar a demanda por profissionais capazes de combinar repertório tecnológico, pensamento analítico e visão crítica. Segundo o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, 39% das habilidades exigidas pelo mercado de trabalho deverão mudar até 2030. Entre as capacidades em maior ascensão estão a alfabetização em inteligência artificial, adaptabilidade e aprendizado contínuo. Os próprios jovens já percebem esse movimento. Pesquisa da Nexus em parceria com a Demà, realizada com mais de 2 mil pessoas entre 14 e 29 anos, mostra que mais de 80% acreditam que o conhecimento em inteligência artificial é um fator relevante para conseguir emprego.
Para Giroto, a crescente valorização dessas competências mostra que o preparo para o futuro profissional começa muito antes da entrada no mercado de trabalho. “Quem aprende lógica, programação e pensamento computacional desenvolve mais do que habilidade técnica. Desenvolve capacidade de questionar, criar e avaliar consequências”, diz.
Para o especialista, a formação tecnológica tem relação direta com a forma como as próximas gerações vão lidar com desafios ambientais e econômicos. “Quem dominar tecnologia terá mais influência sobre decisões que vão afetar desde o consumo de energia até o planejamento das cidades. Por isso, formar jovens capazes de entender e direcionar essas ferramentas também é uma forma de pensar sustentabilidade”, conclui.








