Levantamento mostra que a IA aproximou empreendedores e profissionais do universo da programação, mas o desafio começa depois: manter o projeto em andamento e garantir a segurança dos dados
A inteligência artificial abriu uma porta que, por muito tempo, estava restrita a quem tinha formação técnica: a da programação. Cada vez mais, empreendedores, freelancers, profissionais autônomos e lideranças de diversas áreas experimentam escrever, ou gerar, suas próprias linhas de código, seja para tirar uma ideia do papel, resolver uma demanda do dia a dia ou simplesmente testar o que é possível.
O movimento tem nome: vibe coding, e ele está mais presente no mercado brasileiro do que se imagina. É o que revela um levantamento da Locaweb, especialista em soluções de internet e infraestrutura digital, divulgado no mês em que se celebra o Dia do Programador, comemorado em 13 de setembro.
Segundo o estudo, realizado com profissionais de fora da área de tecnologia, 7 em cada 10 entrevistados (71,6%) já tentaram programar ao menos uma vez ao longo da carreira. E a IA tem um papel crescente nessa história: 45,1% já recorreram à tecnologia para desenvolver programas, sites ou sistemas, sendo que 40% o fizeram mais de uma vez.
O ponto de partida, na maior parte dos casos, não é o trabalho: 22,9% começaram por projetos pessoais, à frente das demandas profissionais (18,5%), estudos e cursos (13,2%) ou simples curiosidade (8,2%). A IA, nesse contexto, funciona como redutora de fricção inicial, uma forma de testar se uma ideia funciona antes de depender de alguém com domínio técnico.
Quando a barreira deixa de ser o código: os principais receios de quem programa
O problema, no entanto, aparece justamente quando a ideia começa a funcionar. Para quem nunca teve formação técnica, o receio mais imediato é errar sem perceber: 43,8% dos entrevistados apontaram o medo de criar algo com falhas, mesma proporção preocupada em gerar vulnerabilidades de segurança. Outros 39,1% temem expor dados a terceiros, mesmo sem saber exatamente como isso poderia acontecer.
Um sistema com falha de autenticação mal configurada, um banco de dados exposto por uma variável de ambiente esquecida no código ou uma aplicação sem qualquer monitoramento rodando em produção são cenários reais e acontecem com frequência quando alguém que nunca operou infraestrutura coloca algo no ar sem o suporte adequado.
Mas é quando o projeto dá certo que a complexidade se revela em outra camada inteiramente. Ao imaginar um cenário em que aquilo que programaram efetivamente funcione, os profissionais elencaram como principal preocupação garantir a segurança dos dados dos usuários (55,1%), seguida de saber o que fazer se algo parar de funcionar (42,4%) e de entender onde e como colocar o projeto no ar para que outras pessoas possam acessá-lo (40,5%).
São preocupações legítimas e que revelam algo importante: o gargalo não está na criação, está na sustentação. Escalar, monitorar, corrigir, proteger dados e gerenciar custos de infraestrutura à medida que o uso cresce é o que separa um experimento que funciona no computador de alguém de um produto digital que funciona para outras pessoas, de forma confiável.
O programador nunca foi tão necessário
Para aqueles que ainda têm dúvida, a Locaweb enfatiza que não: a IA não está substituindo os programadores. O que a tecnologia fez, na prática, foi ampliar o perímetro de quem consegue dar os primeiros passos. E quanto mais esse perímetro cresce, mais evidente fica o valor de quem domina o que vem depois: arquitetura, segurança, performance, observabilidade e escalabilidade.
“São competências que não se improvisam com um prompt, e que se tornam ainda mais críticas quando sistemas criados por não-especialistas chegam à produção e precisam ser mantidos, corrigidos ou expandidos”, destaca Patrice Ramos, Diretor de Produtos e Engenharia da Locaweb.
Para ele, os dados revelam uma transformação genuína no comportamento de quem constrói negócios digitais no Brasil, mas também expõem um gap que tende a crescer à medida que mais pessoas criam sem necessariamente entender o que acontece depois do código. “É muito relevante quando alguém que nunca programou consegue criar algo funcional com IA. O problema é que a maioria das pessoas ainda não sabe o que fazer com isso depois: como hospedar, proteger e manter no ar quando o uso aumenta. Esse é o ponto cego do vibe coding, e é onde projetos com potencial real acabam travando”, afirma.
O que o vibe coding revela sobre o digital brasileiro
Mais do que um fenômeno de comportamento, o crescimento do vibe coding no Brasil expõe uma demanda por autonomia digital. Profissionais que nunca se viram como “pessoas de tecnologia” estão, aos poucos, reconhecendo que entender o mínimo de como sistemas funcionam pode ser uma vantagem competitiva real, seja para conversar melhor com times técnicos, validar uma ideia sem depender de terceiros ou simplesmente resolver um problema pequeno com agilidade.
“A IA acelerou esse processo, mas como os dados mostram, ela ainda não resolveu a segunda metade do problema. E é essa segunda metade (colocar no ar, proteger, escalar, manter) que define se uma ideia vira produto ou vira frustração”, conclui Patrice.
Metodologia
Para investigar a relação dos profissionais brasileiros com o universo da programação, nas últimas semanas, a Locaweb ouviu 363 profissionais de fora da área de tecnologia — entre empreendedores, donos de negócio, profissionais autônomos e freelancers, profissionais CLT de outras áreas e lideranças —, maiores de 18 anos, residentes em todas as regiões e conectados à internet.
O estudo explorou as experiências anteriores com programação, o uso de inteligência artificial na criação de sistemas e os principais receios e dúvidas envolvidos nesse processo.

