{"id":80537,"date":"2026-06-03T18:58:21","date_gmt":"2026-06-03T21:58:21","guid":{"rendered":"https:\/\/economiasa.com.br\/blog\/?p=80537"},"modified":"2026-06-03T18:58:22","modified_gmt":"2026-06-03T21:58:22","slug":"autonomia-hidrica-nao-afasta-responsabilidade-regulatoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/economiasa.com.br\/blog\/autonomia-hidrica-nao-afasta-responsabilidade-regulatoria\/","title":{"rendered":"Autonomia h\u00eddrica n\u00e3o afasta responsabilidade regulat\u00f3ria\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Reuso, po\u00e7os e capta\u00e7\u00e3o pluvial s\u00e3o oportunidades reais. Mas sem estudos, gest\u00e3o de risco e protocolo, viram passivo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Vivian Serpa<\/strong>\u00a0\u00e9 engenheira ambiental e atua na We Save em projetos de conformidade legal, gest\u00e3o de riscos ambientais, e solu\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0 efici\u00eancia h\u00eddrica.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil det\u00e9m 12% da \u00e1gua doce superficial do planeta e, ainda assim, grandes empreendimentos urbanos travam batalhas cotidianas por abastecimento seguro e previs\u00edvel. A resposta do setor privado tem sido buscar autonomia h\u00eddrica \u2014 reuso de efluentes, po\u00e7os artesianos, capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua de chuva. O problema \u00e9 que essa autonomia, quando mal planejada, n\u00e3o \u00e9 aut\u00f4noma: \u00e9 um risco disfar\u00e7ado de solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00a0<a href=\"https:\/\/www.arsesp.sp.gov.br\/LegislacaoArquivos\/DELIBERA%C3%87%C3%83O%20ARSESP%20N%C2%BA%201.796%20de%2030%20de%20abril%20de%202026.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Delibera\u00e7\u00e3o ARSESP n\u00ba 1.796<\/a>, de 30 de abril de 2026, ao tratar da defini\u00e7\u00e3o de Grandes Usu\u00e1rios e das regras para celebra\u00e7\u00e3o e fiscaliza\u00e7\u00e3o de Programas Comerciais e contratos de abastecimento de \u00e1gua e esgotamento sanit\u00e1rio, traz um ponto ambiental relevante: a necessidade de que esses programas sejam embasados em estudos t\u00e9cnicos, considerando, entre outros aspectos, a disponibilidade de tratamento, a reserva\u00e7\u00e3o de mananciais e a preven\u00e7\u00e3o de impactos sobre o abastecimento humano e os servi\u00e7os essenciais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um cen\u00e1rio de press\u00e3o sobre os recursos h\u00eddricos, alternativas como reuso de \u00e1gua, capta\u00e7\u00e3o subterr\u00e2nea, aproveitamento de \u00e1gua de chuva e sistemas pr\u00f3prios de tratamento de efluentes passaram a representar oportunidades estrat\u00e9gicas. Quando bem planejadas, essas solu\u00e7\u00f5es podem trazer benef\u00edcios importantes, como redu\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia da concession\u00e1ria, maior previsibilidade no abastecimento, economia nas despesas com \u00e1gua e esgoto, melhor aproveitamento dos recursos dispon\u00edveis e fortalecimento das pr\u00e1ticas ESG do empreendimento. Segundo estimativas do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Regional, o reuso de efluentes sanit\u00e1rios tratados no Brasil representa menos de 15% do potencial de curto e m\u00e9dio prazo j\u00e1 identificado \u2014 o que revela tanto a oportunidade quanto a imaturidade do setor.<\/p>\n\n\n\n<p>O reuso de \u00e1gua, por exemplo, pode contribuir para reduzir a demanda por \u00e1gua pot\u00e1vel em usos menos nobres, como descargas sanit\u00e1rias e sistemas de climatiza\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m do ganho ambiental, essa pr\u00e1tica pode gerar efici\u00eancia econ\u00f4mica e demonstrar compromisso efetivo com a conserva\u00e7\u00e3o dos recursos h\u00eddricos.<\/p>\n\n\n\n<p>A capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua de chuva, por sua vez, pode ser uma alternativa complementar interessante para determinados usos operacionais, especialmente em empreendimentos com grandes \u00e1reas de cobertura. J\u00e1 a capta\u00e7\u00e3o subterr\u00e2nea, quando tecnicamente vi\u00e1vel e regularmente autorizada, pode oferecer maior autonomia h\u00eddrica e reduzir a exposi\u00e7\u00e3o do empreendimento a varia\u00e7\u00f5es tarif\u00e1rias ou restri\u00e7\u00f5es de abastecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, essas solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser adotadas apenas pelo apelo positivo que trazem \u00e0 imagem institucional do empreendimento. Cada alternativa precisa ser avaliada com base em estudos t\u00e9cnicos, an\u00e1lise de risco, viabilidade econ\u00f4mica, seguran\u00e7a operacional e atendimento \u00e0s exig\u00eancias legais aplic\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Um shopping center que decide tratar e polir efluentes sanit\u00e1rios para reutiliza\u00e7\u00e3o em seu sistema de climatiza\u00e7\u00e3o, por exemplo, precisa considerar muito mais do que a redu\u00e7\u00e3o potencial no consumo de \u00e1gua pot\u00e1vel. \u00c9 necess\u00e1rio avaliar o investimento em tratamento, o n\u00edvel de qualidade exigido para o uso pretendido, os riscos aos usu\u00e1rios, a prote\u00e7\u00e3o dos equipamentos, a necessidade de monitoramento cont\u00ednuo e a capacidade da equipe operacional de manter o sistema funcionando com seguran\u00e7a. Sem esse conjunto de garantias, o que parece uma iniciativa ESG pode virar um passivo sanit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo racioc\u00ednio se aplica \u00e0 capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua subterr\u00e2nea para consumo humano. Embora possa representar uma alternativa \u00e0 depend\u00eancia exclusiva da concession\u00e1ria, essa solu\u00e7\u00e3o exige o cumprimento de obriga\u00e7\u00f5es legais espec\u00edficas, incluindo os padr\u00f5es de potabilidade e os controles previstos na Portaria GM\/MS n\u00ba 888\/2021. O n\u00e3o atendimento a essas obriga\u00e7\u00f5es pode expor o empreendimento a autua\u00e7\u00f5es, san\u00e7\u00f5es administrativas e riscos reputacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, em grandes centros urbanos, a utiliza\u00e7\u00e3o de \u00e1gua subterr\u00e2nea demanda aten\u00e7\u00e3o redobrada. A proximidade com postos de combust\u00edveis, \u00e1reas industriais, passivos ambientais ou antigos vazamentos de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas pode comprometer a qualidade da \u00e1gua captada. Uma alternativa que inicialmente parece representar economia pode, sem diagn\u00f3stico adequado, se transformar em um problema t\u00e9cnico, regulat\u00f3rio e ambiental de grandes propor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, a ado\u00e7\u00e3o de fontes alternativas de abastecimento deve ser conduzida com responsabilidade. N\u00e3o basta identificar uma oportunidade de redu\u00e7\u00e3o de custo. \u00c9 preciso entender o que ser\u00e1 necess\u00e1rio operar, controlar, monitorar, comprovar e corrigir ao longo do tempo. A gest\u00e3o de riscos precisa estar presente desde a concep\u00e7\u00e3o do projeto at\u00e9 sua rotina operacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa equa\u00e7\u00e3o ganha complexidade adicional em empreendimentos com grande circula\u00e7\u00e3o de pessoas \u2014 shopping centers, hospitais, centros log\u00edsticos, hot\u00e9is, ind\u00fastrias e condom\u00ednios comerciais. Nesses ambientes, qualquer falha na qualidade da \u00e1gua, no controle de efluentes ou na comunica\u00e7\u00e3o com usu\u00e1rios pode gerar den\u00fancias, questionamentos de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e impactos \u00e0 imagem do empreendimento. O risco n\u00e3o \u00e9 apenas operacional: \u00e9 institucional.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o regulat\u00f3ria e coletiva que n\u00e3o pode ser desconsiderada. A ado\u00e7\u00e3o de fontes alternativas por grandes usu\u00e1rios representa uma oportunidade importante para ampliar a efici\u00eancia h\u00eddrica e reduzir a depend\u00eancia dos sistemas p\u00fablicos, especialmente quando estruturada com base t\u00e9cnica, seguran\u00e7a operacional e ader\u00eancia legal. Ao mesmo tempo, essa transi\u00e7\u00e3o deve ser conduzida de forma planejada, para que seus efeitos sobre o sistema de saneamento sejam adequadamente avaliados. Assim, a autonomia h\u00eddrica do setor privado deve ser vista como uma estrat\u00e9gia leg\u00edtima e potencialmente ben\u00e9fica, desde que analisada caso a caso, com equil\u00edbrio entre viabilidade econ\u00f4mica, sustentabilidade ambiental, seguran\u00e7a jur\u00eddica e interesse coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, os contratos com grandes usu\u00e1rios tamb\u00e9m passam a ter papel estrat\u00e9gico. Eles podem oferecer maior previsibilidade econ\u00f4mica e seguran\u00e7a regulat\u00f3ria para o empreendimento, reduzindo a press\u00e3o imediata por solu\u00e7\u00f5es alternativas mal estruturadas. Por outro lado, a perda dessas condi\u00e7\u00f5es comerciais pode elevar significativamente os custos e levar o usu\u00e1rio a considerar a migra\u00e7\u00e3o para fontes pr\u00f3prias.<\/p>\n\n\n\n<p>O que falta, portanto, n\u00e3o \u00e9 tecnologia. \u00c9 protocolo. O setor precisa de crit\u00e9rios claros para avalia\u00e7\u00e3o e certifica\u00e7\u00e3o de sistemas alternativos de abastecimento, de mecanismos regulat\u00f3rios que incentivem o reuso bem-feito e penalizem o improviso, e de uma cultura de due diligence h\u00eddrica que seja t\u00e3o rigorosa quanto a due diligence financeira j\u00e1 exigida de grandes empreendimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Gerir \u00e1gua com seriedade \u00e9, antes de tudo, reconhecer que ela n\u00e3o \u00e9 um ativo de comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 um recurso finito \u2014 e cada decis\u00e3o t\u00e9cnica equivocada cobra seu pre\u00e7o, com ou sem certifica\u00e7\u00e3o ESG.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reuso, po\u00e7os e capta\u00e7\u00e3o pluvial s\u00e3o oportunidades reais. 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