[radio_player id="1"]
Negócios

O custo da dívida asfixia empresas no Brasil

2 Mins read

Por Franklin Tomich, fundador da Accordia*

Por anos, o custo da dívida foi tratado como um tema secundário na agenda financeira das empresas brasileiras. Entre 2020 e 2021, com a taxa Selic no piso histórico de 2% ao ano, segundo dados do Banco Central do Brasil, o crédito barato criou a percepção de que juros baixos eram uma condição estrutural da economia. Endividar-se parecia não apenas racional, mas estratégico para sustentar crescimento, aquisições e expansão operacional. Esse cenário, no entanto, não resistiu à normalização da política monetária.

Hoje, com a Selic em torno de 15% ao ano, de acordo com o Comitê de Política Monetária do Banco Central em sua última decisão, o custo da dívida voltou ao centro da discussão financeira. O problema é que boa parte das empresas ainda opera com estruturas de capital desenhadas para um ambiente que deixou de existir. Dívidas contratadas ou renegociadas em um contexto excepcionalmente favorável agora convivem com uma realidade que pressiona margens, corrói fluxo de caixa e reduz drasticamente a capacidade de investimento.

Os números deixam esse impacto evidente. Segundo levantamento da Economatica, as despesas financeiras das companhias abertas brasileiras cresceram mais de 30% em média entre 2022 e 2024, enquanto a geração de caixa operacional avançou em ritmo bem inferior. O resultado é uma compressão silenciosa de valor. Projetos que antes se pagavam deixam de fechar, investimentos são postergados e a alavancagem, antes vista como eficiente, passa a representar um risco relevante. Em muitos casos, o problema não está na operação, mas no passivo.

Há quem argumente que esse movimento faz parte de um ciclo econômico normal e que empresas bem geridas deveriam ser capazes de atravessar períodos de juros elevados. O contra-argumento é que a atual situação não decorre apenas do aperto monetário, mas de um descasamento estrutural. Segundo o próprio Banco Central, mais de 60% do crédito corporativo no Brasil está atrelado a taxas pós-fixadas. Isso significa que a alta dos juros é rapidamente transmitida para o resultado das empresas, reduzindo a previsibilidade financeira e ampliando a vulnerabilidade, mesmo em negócios operacionais sólidos.

Outro equívoco recorrente foi tratar o alongamento de prazo como solução definitiva. Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais mostram que muitas empresas alongaram seus passivos entre 2020 e 2021, mas sem mecanismos efetivos de proteção contra juros elevados. Prazo melhora liquidez, mas não resolve custo. Carregar dívidas por mais tempo, com taxas altas, implica conviver com uma pressão financeira constante que limita decisões estratégicas e compromete competitividade.

A Selic a 2% foi uma exceção histórica, não um novo normal. Segundo séries históricas do Banco Central, a taxa real de juros no Brasil sempre figurou entre as mais altas do mundo. Ignorar esse dado e tratar o custo da dívida como um detalhe contábil foi um erro que agora se revela. O custo da dívida voltou a ser um fator estratégico de sobrevivência empresarial. Quem não ajustar sua estrutura de capital à nova realidade corre o risco de repetir, com consequências mais severas, um erro que o próprio ciclo econômico já deixou claro.

*Franklin Tomich é sócio-fundador da Accordia, plataforma de inteligência analítica voltada para M&A e finanças corporativas. Mestre em Finanças pela Fundação Dom Cabral, com foco na aplicação de inteligência artificial em processos financeiros, atua há mais de 15 anos no mercado de fusões e aquisições, liderando iniciativas que unem tecnologia e inteligência financeira para transformar a forma como negócios são avaliados e conduzidos.

Related posts
InformaçõesNegócios

Franchising supera R$ 300 bilhões em 2025 e mantém ritmo de expansão no Brasil

2 Mins read
Com projeção de crescimento entre 8% e 10% em 2026, segundo a Associação Brasileira de Franchising, o franchising brasileiro mantém trajetória de…
EsportesNegócios

Maior parque esportivo indoor da América Latina reinaugura no Shopping Iguatemi Bosque com nova marca

1 Mins read
A Spine Sports, reconhecida como o maior parque esportivo indoor da América Latina, com mais de 9.000 m² de área, reinaugurou oficialmente…
NegóciosTecnologia

Inteligência Artificial: aliada estratégica para impulsionar e transformar negócios

2 Mins read
Leonardo Chucrute é gestor em Educação e CEO do Zerohum A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser apenas uma tendência para se…
Fique por dentro das novidades

[wpforms id="39603"]

Se inscrevendo em nossa newsletter você ganha benefícios surpreendentes.