Agricultura

Agronegócio e agenda climática: leituras a partir da COP30

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Por Renata Franco  e Pedro Carvalho Catuaba

Com o aumento do debate internacional sobre as mudanças climáticas e os impactos econômicos e sociais decorrentes, evidencia-se a necessidade de reavaliação estratégica por parte dos setores produtivos quanto ao seu posicionamento frente aos problemas ambientais e das consequentes demandas por soluções. Nesse contexto, o setor do agronegócio brasileiro, por meio de documento publicado pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), consolidou seu posicionamento perante as pautas e a agenda da COP30. O referido documento buscou, inicialmente, superar a imagem de “vilão climático” atribuída ao setor, a fim de construir uma nova identidade pautada na convergência entre produtividade, sustentabilidade e resiliência. Trata-se, portanto, de um esforço para que o agronegócio ocupe posição central nas soluções climáticas, como agente capaz de influenciar políticas públicas, atrair investimentos e dialogar com compromissos internacionais.

Compreende-se que o setor do agronegócio foi — e ainda é — visto em posição de antagonismo em relação à agenda ambiental, especialmente devido à sua associação com o desmatamento e à percepção de que sua expansão estaria diretamente vinculada a custos ambientais. Não obstante, o documento procurou instaurar uma nova lógica: a de que o próprio futuro do agronegócio depende da incorporação de práticas de baixa emissão, da valorização de ativos ambientais e da capacidade de adaptação do setor às oscilações climáticas.

Assim, o agronegócio busca assumir um papel de protagonismo nas estratégias de mitigação de danos ambientais e de adaptação às mudanças do clima. O documento destacou a capacidade do setor de oferecer soluções, seja por meio do sequestro de carbono, da regeneração de áreas degradadas ou da integração de práticas agrícolas inteligentes que contribuam para a segurança alimentar global. Esse discurso sugere que a sustentabilidade não constitui um entrave ao desenvolvimento, mas sim um vetor de competitividade,especialmente diante das exigências de mercados internacionais que condicionam o acesso às cadeias de valor a critérios socioambientais cada vez mais rigorosos.

Além disso, a articulação entre produtividade e resiliência climática busca reposicionar o Brasil e o setor do agronegócio como referência em agricultura sustentável. Todavia, essa visão depende da capacidade do setor de transformar o discurso em prática verificável e eficaz. O agronegócio ainda enfrenta pressões relacionadas à rastreabilidade, a métricas robustas de emissões e à regularização fundiária. Ainda assim, o documento revelou uma disposição inédita para enfrentar tais questões e disputar um novo lugar no debate climático.

Desse modo, o posicionamento divulgado pela ABAG assumiu, de forma explícita, a necessidade de alinhar produtividade e sustentabilidade, refletindo um esforço do setor para reposicionar o agronegócio brasileiro no debate climático internacional. A tentativa de substituir a imagem de “vilão climático” pela de agente construtivo representa uma redefinição da relação entre produção rural e preservação ambiental. Diante disso, a expectativa é que o agronegócio avance na consolidação de sua posição na busca por soluções para os desafios impostos pelas mudanças climáticas.

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