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Como a indústria têxtil brasileira pretende driblar a pressão vinda dos conflitos do Oriente Médio

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Dependência de insumos sintéticos importados e encarecimento de fibras como poliéster e viscose desafiam marcas nacionais; Segundo AKR Brands a antecipação da compra dos insumos está entre as estratégias

O agravamento dos conflitos no Oriente Médio e a instabilidade nas principais rotas marítimas globais já começam a impactar diretamente a indústria da moda no Brasil. E o efeito deve chegar ao consumidor nos próximos meses, com pressão sobre preços e mudanças no processo produtivo das peças. Diante da alta do petróleo Brent e do encarecimento do frete internacional, marcas nacionais enfrentam um dilema crescente: reduzir custos com a substituição de matérias-primas ou preservar o padrão dos produtos, mesmo com margens mais apertadas.

A dependência de insumos sintéticos importados, como poliéster e viscose, coloca o setor em uma posição vulnerável. Produzidas a partir de derivados de petróleo e com cadeias concentradas na Ásia, essas fibras já sofrem impacto direto da crise logística global. O desvio de rotas comerciais, especialmente na região do Mar Vermelho, tem elevado o tempo de transporte em até 20 dias e pressionado o custo dos contêineres, forçando uma revisão generalizada nos planejamentos de produção.

Na contramão de parte do mercado, que começa a adaptar coleções para mitigar custos, a paranaense AKR Brands, holding das marcas King&Joe, King&Joe Play e K&J Black, decidiu antecipar a compra de insumos estratégicos e manter intacto o padrão técnico de suas coleções. A empresa projeta faturar R$ 140 milhões em 2026 e já opera com grande parte dos tecidos da coleção de verão 2027 estocados, em um movimento para blindar a produção dos efeitos da instabilidade global.

“O mercado nacional ainda não está totalmente preparado para substituir o produto importado sem perda de performance. Tecidos como viscose e poliéster tecnológicos têm funções específicas de caimento, conforto e durabilidade. Trocar esses insumos por alternativas mais baratas pode comprometer diretamente a experiência do consumidor e o posicionamento da marca”, afirma Fabiano Grassi, diretor de estilo da AKR Brands, com mais de 20 anos de experiência no setor.

Segundo o executivo, a decisão de antecipar compras foi estratégica para evitar rupturas e garantir previsibilidade ao varejo. “Hoje, praticamente todo o tecido da nossa coleção de verão 2027 já está em casa. Também estamos operando com reserva para os lançamentos dos próximos meses. O impacto do frete e do petróleo é inevitável e tende a chegar ao preço final, mas nossa prioridade é manter a alta qualidade pela qual nossas marcas sempre foram conhecidas”, diz.

O movimento da AKR reflete uma mudança mais ampla na indústria: a crise geopolítica está acelerando a adoção de estratégias mais sofisticadas de planejamento de demanda, gestão de estoque e inteligência logística. Em um cenário de volatilidade cambial e pressão inflacionária, empresas que conseguem antecipar decisões tendem a preservar competitividade, enquanto outras correm o risco de perder margem ou relevância de produto.

Para o consumidor, o efeito já tem direção clara: roupas potencialmente mais caras ou com mudanças perceptíveis na qualidade ao longo dos próximos ciclos de coleção. Nos bastidores, a disputa da indústria agora não é apenas por preço, mas por consistência, e por quem consegue sustentar valor mesmo em um cenário global cada vez mais instável.

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