Para o economista Charles Mendlowicz, falta de compromisso com o controle da dívida pública amplia volatilidade, pressiona o câmbio e força Faria Lima a buscar alternativas políticas
A trajetória da dívida pública brasileira e a ausência de um plano fiscal transparente para o ciclo pós-eleições de 2026 acenderam o sinal vermelho na Faria Lima. Um relatório recente do Morgan Stanley indicou que, caso o próximo governo não apresente uma proposta consistente de controle dos gastos públicos, a economia brasileira pode enfrentar um cenário extremo: dólar cotado a R$ 6 e taxas de juros de longo prazo atingindo 18% ao ano.
A projeção reflete o avanço descontrolado das contas públicas e a deterioração da confiança dos investidores. Com a Dívida Pública Federal (DPF) atingindo o patamar de R$ 9,28 trilhões (fonte: Secretaria do Tesouro Nacional), o custo do endividamento alcançou a marca de R$ 1,16 trilhão apenas em pagamento de juros, conforme divulgou o Banco Central em um estudo sobre finanças.
Para o economista Charles Mendlowicz, sócio da consultoria de wealth management Ticker Wealth e criador do canal Economista Sincero, o cenário atual guarda semelhanças preocupantes com momentos de crise do passado.
“A trajetória de gastos do governo é preocupante porque está subindo continuamente. A dívida pública avançou muito e a situação é extremamente delicada, em um patamar parecido com o da crise de 2015. Se o fiscal vacila, a confiança cai, o dólar dispara, a inflação acompanha e não há dinheiro suficiente para honrar todos os compromissos”, avalia Mendlowicz.
Postura de Brasília causa desconforto no mercado
O desconforto do mercado financeiro aumentou após declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva minimizando o avanço do endividamento. Em entrevista recente, o chefe do Executivo afirmou que a dívida pública “não o preocupa”. Para Mendlowicz, o problema central não reside apenas no crescimento dos números, mas na qualidade e no destino do gasto público.
“Se a dívida estivesse subindo para construir aeroportos, portos e ferrovias que gerassem receita, seria diferente. O governo vem subindo impostos e gastando mais sem entregar melhorias proporcionais para a população. O mercado deu um recado importante: teme essa tempestade perfeita da dívida pública somada aos juros elevados”, pondera o economista
Segundo Mendlowicz, embora o patamar de 18% para os juros exija “muitos erros na condução econômica”, a cotação do dólar a R$ 6 é um risco plausível. “O dólar é complexo e depende de fatores internos e externos, mas chegar a R$ 6 não é nenhum absurdo, considerando o histórico recente da moeda”, argumenta.
Diante do ceticismo em relação à condução fiscal, agentes financeiros, investidores e lideranças do setor produtivo passaram a monitorar de perto as articulações políticas para as eleições de 2026. O mercado busca interlocução com diferentes frentes e nomes da oposição e de centro em busca de propostas concretas focadas em rigor orçamentário, reformas estruturais, cortes de gastos e ambiente favorável a investimentos.
“Quem tem consciência econômica básica já entendeu que a trajetória atual cria gargalos. Qualquer um que acompanha o mercado sabe que juro alto por muito tempo acaba quebrando o país. É um efeito dominó que sai das planilhas de Brasília e chega direto à mesa do trabalhador”, conclui Mendlowicz.








