Por Daniel Mazza, Sócio Fundador da MZM Wealth*
A maioria das famílias faz a pergunta errada quando pensa na próxima geração. Em vez de discutir com que idade um filho deve começar a administrar o patrimônio, deveria avaliar quando ele passa a desenvolver as competências necessárias para assumir essa responsabilidade. A urgência cresce à medida que o país envelhece. Segundo o Censo 2022 do IBGE, o número de brasileiros com 65 anos ou mais aumentou 57,4% em doze anos e chegou a 22,2 milhões. Ainda assim, muitas sucessões continuam sendo tratadas como um evento futuro, quando deveriam ser construídas ao longo da vida.
O receio de falar sobre dinheiro costuma ser apresentado como uma forma de proteção. Pais evitam expor valores, decisões e conflitos para não estimular ansiedade, dependência ou sensação de privilégio. O efeito, porém, pode ser o oposto. Quem nunca acompanhou escolhas patrimoniais chega à vida adulta com informação limitada e nenhuma experiência para lidar com pressão, divergências familiares ou decisões de longo prazo. Na Pesquisa Global NextGen 2022 da PwC, apenas 24% dos membros da geração atual no Brasil afirmaram possuir um plano de sucessão robusto. O dado mostra que o problema começa muito antes da transferência dos bens.
Preparar não significa entregar acesso irrestrito nem colocar adolescentes diante de decisões para as quais ainda não têm repertório. Na infância, a formação passa pelo valor do trabalho, da espera e das escolhas. Na adolescência, pequenas responsabilidades financeiras permitem erros de baixo impacto e aprendizado real. No início da vida adulta, investimentos, tributação, empresas e governança podem ser apresentados de forma mais estruturada, sempre acompanhados de participação gradual nas decisões. Informação sem responsabilidade produz apenas uma aparência de preparo.
Também é compreensível o argumento de que falar cedo sobre patrimônio pode criar acomodação. Esse risco existe quando a conversa gira apenas em torno de riqueza e consumo. Quando a família inclui propósito, limites, deveres e consequências, o efeito tende a ser diferente. Um herdeiro pode começar observando reuniões, participando de projetos sociais, conhecendo a história do negócio e entendendo por que determinados ativos são preservados. Essa convivência ensina algo que nenhum curso oferece sozinho, pois revela que o patrimônio representa poder de escolha acompanhado de obrigação.
Documentos jurídicos, estruturas societárias e estratégias tributárias continuam essenciais, porém não substituem pessoas capazes de decidir. Uma sucessão consistente depende de três dimensões que precisam caminhar juntas, a estrutura que organiza e protege os ativos, a governança que estabelece como as decisões serão tomadas e o preparo de quem assumirá as responsabilidades. Quando uma delas falha, o patrimônio pode estar protegido no papel e permanecer vulnerável na prática.
O melhor momento para preparar um filho não é quando ele vai receber os bens, nem quando os pais começam a pensar em se afastar. É quando ele já consegue compreender que escolhas produzem consequências. Sucessão não se resolve em dois anos nem se encerra com um inventário. Trata-se de um processo de uma geração inteira. Quem herda apenas ativos pode conservar riqueza por algum tempo. Quem herda também valores, disciplina e capacidade de decisão reúne melhores condições para preservá-la por gerações.








