*Andre Assad
Temos visto nos últimos anos um número relevante de empresas entrando em recuperação judicial ou extrajudicial. Quando isso acontece, é natural procurar uma causa: juros altos, excesso de endividamento, queda de demanda, problemas de gestão, mudanças de mercado, questões climáticas ou ambientais, aumento de custos.
Na prática, quase nunca existe uma única explicação.
Normalmente há uma combinação de fatores que vai deteriorando o negócio até que a geração de caixa já não seja suficiente para sustentar sua estrutura financeira.
O cenário econômico ajuda a explicar parte desse movimento. Juros elevados aumentam o custo da dívida, restringem o crédito e pressionam empresas mais alavancadas. Mas cada setor também tem seus próprios problemas.
No varejo, por exemplo, juros altos podem atingir ao mesmo tempo o custo financeiro da empresa e o poder de compra do consumidor. No agronegócio entram outras variáveis, como clima, produtividade, preço das commodities, custo dos insumos e disponibilidade de crédito. Nas companhias aéreas, combustível, câmbio, arrendamento de aeronaves e uma estrutura elevada de custos fixos têm um peso enorme. Em outros segmentos, questões ambientais, alterações regulatórias ou mudanças estruturais de mercado podem transformar completamente a situação de uma companhia.
Ou seja, empresas podem chegar a uma situação financeira parecida por caminhos muito diferentes.
E é exatamente por isso que não acredito que tecnologia, isoladamente, possa evitar uma recuperação judicial.
Tecnologia não reduz a taxa de juros, não controla o clima, não define o preço de uma commodity e não resolve uma estrutura de capital excessivamente alavancada. Também não salva um modelo de negócio que deixou de fazer sentido.
Mas ela pode ajudar a empresa a perceber mais cedo que alguma coisa importante está mudando.
Gosto de usar um exemplo simples.
Imagine uma excelente fabricante de carburadores. Ela tem uma boa fábrica, controla seus custos, possui bons processos e talvez seja até líder de mercado.
Então surge a injeção eletrônica.
A empresa pode continuar melhorando produtividade, reduzindo estoque e implantando sistemas cada vez mais sofisticados. Mas, se não perceber que o problema deixou de ser sua eficiência operacional e passou a ser o próprio carburador, poderá simplesmente administrar muito bem um mercado que está desaparecendo.
A tecnologia não resolve essa situação. A decisão precisa ser estratégica: mudar produtos, desenvolver competências, entrar em novos mercados ou até abandonar parte do negócio original.
Esse tipo de transformação acontece o tempo todo. O comércio eletrônico mudou o varejo, o streaming mudou a indústria de mídia, a computação em nuvem transformou a tecnologia e agora a inteligência artificial começa a alterar vários setores.
Algumas rupturas são rápidas e praticamente impossíveis de prever. Outras vão deixando sinais pelo caminho.
É aí que acredito que tecnologia e gestão podem fazer uma diferença importante.
Uma empresa hoje consegue cruzar informações financeiras, comerciais, operacionais e de mercado com uma velocidade que não existia no passado.
Uma pequena redução de margem pode não significar muito. Um aumento do estoque também não. O mesmo vale para aumento do prazo de recebimento, redução da conversão comercial ou crescimento do custo financeiro.
Mas quando vários desses indicadores começam a piorar ao mesmo tempo, a história muda.
Mais importante do que produzir um dashboard mostrando o que aconteceu no mês passado é conseguir usar essas informações para olhar para frente.
O que acontece com o caixa se os juros continuarem altos? E se o volume cair 10%? Se o prazo de recebimento aumentar? Se determinada matéria-prima subir? Se o câmbio mudar? Se um produto importante começar a perder mercado?
Esse tipo de cenário permite agir antes.
E existe uma diferença enorme entre descobrir um problema quando a empresa ainda possui alternativas e descobri-lo quando o caixa já está comprometido.
Quando há tempo, é possível renegociar dívida, rever investimentos, ajustar preços, vender ativos, redesenhar operações, mudar portfólio, buscar capital ou até promover uma transformação mais profunda no negócio.
Quanto mais tarde a reação, menos alternativas permanecem disponíveis.
Por isso, uma gestão realmente orientada por dados não deveria usar tecnologia apenas para acompanhar indicadores. Ela deveria usar esses indicadores para provocar decisões.
Também existe uma questão importante de governança.
Ter bons sistemas não significa necessariamente ter boa informação. Se os dados estiverem errados, incompletos ou forem interpretados de maneira inadequada, nenhuma ferramenta produzirá uma boa decisão.
Tecnologia precisa vir acompanhada de qualidade dos dados, controles, transparência e, principalmente, de uma gestão disposta a questionar suas próprias premissas.
Talvez esse seja um dos maiores desafios das organizações.
Durante muito tempo, planejamento significou construir um orçamento e acompanhar durante o ano se ele estava sendo cumprido.
Hoje isso não basta.
Além de perguntar “estamos cumprindo o orçamento?”, a empresa precisa perguntar constantemente: as premissas que usamos para construir esse orçamento ainda são verdadeiras?
Essa pergunta é muito mais importante.
Porque um desvio pode ser apenas momentâneo. Mas também pode ser o primeiro sinal de uma mudança estrutural do mercado.
Tecnologia não substitui boa gestão. Mas, na complexidade atual dos negócios, boa gestão sem tecnologia já não escala mais.
Em empresas de maior porte e complexidade, já não é suficiente ter apenas um ERP registrando o que aconteceu. É preciso conectar clientes e mercado por meio do CRM, operação e finanças pelo ERP, planejamento e cenários pelo EPM, indicadores e tendências por plataformas de BI e analytics, além de uma estrutura consistente de integração, qualidade e governança de dados.
Em determinados setores, outras soluções também ganham importância, como planejamento de supply chain, gestão de riscos, controles e monitoramento de variáveis externas.
E agora existe uma nova camada sobre tudo isso: a inteligência artificial.
Com dados bem estruturados, a IA pode ajudar a identificar padrões, anomalias, tendências e relações entre variáveis que seriam muito difíceis de perceber apenas pela análise convencional. Pode acelerar simulações e ajudar a organização a enxergar riscos antes que eles se transformem em problemas maiores.
Mas nenhuma dessas ferramentas substitui governança, experiência e capacidade de decisão.
Na minha visão, a combinação é que passa a ser essencial: boa governança, processos consistentes, dados confiáveis e tecnologia integrada para apoiar decisões cada vez mais rápidas e complexas.
A empresa que conseguir fazer isso não estará protegida de uma crise. Nenhuma empresa está.
Mas provavelmente terá algo extremamente valioso quando o cenário começar a mudar: informação de melhor qualidade, capacidade de antecipação e mais tempo para decidir qual caminho seguir.
*Andre Assad é CEO e cofundador da Ninecon








