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60+ deixam de ser nicho e começam a criar uma nova categoria de moradia no Brasil

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Avanço do Independent Living revela demanda por imóveis que combinem autonomia, convivência e serviços; para especialista em longevidade Daline Hällbom, mercado ainda precisa entender que envelhecer não significa perder independência.

O mercado imobiliário brasileiro começa a descobrir um consumidor que durante muito tempo ficou fora do radar dos lançamentos: o brasileiro com mais de 60 anos que não procura uma instituição de cuidados, mas também não quer continuar vivendo em uma casa que já não corresponde ao seu estilo de vida.

O movimento já aparece nos números. Segundo levantamento divulgado pelo GRI Institute em agosto, 50% dos executivos consultados apontaram o modelo de senior living independente, voltado ao idoso ativo, como aquele com maior potencial para atrair capital e ganhar escala no Brasil. A população com 60 anos ou mais, que representava 15,6% dos brasileiros no Censo 2022, deve chegar a 32% até 2060, segundo dados do IBGE reunidos pelo instituto.

Na prática, os primeiros sinais de demanda já começam a aparecer. Levantamentos recentes mostram que brasileiros com 60 anos ou mais estão mais abertos a repensar onde e como vivem, impulsionados por questões como manutenção da casa, segurança, mobilidade e busca por maior convivência. Uma pesquisa com esse público revelou que quase dois em cada três brasileiros 60+ consideram a possibilidade de mudar de residência, sinalizando uma demanda que ainda encontra pouca oferta imobiliária desenhada especificamente para essa fase da vida.

Para Daline Hällbom, CEO da Söderhem, esses movimentos indicam que o Brasil está começando a perceber uma mudança mais profunda: a questão não é simplesmente adaptar imóveis para pessoas mais velhas, mas repensar o conceito de moradia para uma geração que quer continuar vivendo com autonomia.

“Durante muito tempo, associamos envelhecimento a cuidado, assistência e perda de independência. Existe uma geração chegando aos 60, 70 anos que não se identifica com esse modelo. Ela quer continuar escolhendo onde mora, com quem convive, como ocupa seu tempo e que experiências quer ter”, afirma Daline.

A executiva conhece o tema também pela perspectiva do mercado imobiliário. Com experiência no setor e trajetória internacional, Daline fundou a Söderhem, iniciativa sueco-brasileira voltada ao desenvolvimento de soluções de moradia para uma nova geração 60+, inspiradas em conceitos de Independent Living e na experiência dos países escandinavos.

Segundo ela, a principal mudança de paradigma está em deixar de enxergar a idade como uma limitação para começar a tratá-la como uma variável de projeto: “uma moradia para alguém de 65 anos não precisa parecer uma casa de repouso. Pode ser uma casa contemporânea, conectada à cidade, com serviços, espaços de convivência e segurança, mas sem transformar o morador em paciente”, explica.

Essa distinção ganha importância à medida que o mercado brasileiro começa a estruturar sua oferta. O próprio GRI aponta que o segmento ainda enfrenta falta de dados, escala e operadores especializados, apesar do potencial demográfico e econômico. A população brasileira com 50 anos ou mais já movimenta cerca de R$ 1,8 trilhão por ano, segundo estudo citado pelo instituto.

Para Daline, a oportunidade está justamente em construir uma ponte entre real estate, longevidade e comportamento: “não estamos falando apenas de apartamentos com portas mais largas e barras de apoio. Estamos falando de entender como as pessoas querem viver quando têm mais 20, 30 ou 40 anos pela frente. O imóvel precisa acompanhar essa mudança de expectativa sobre a própria vida.”

A experiência internacional mostra que esse movimento pode ir além dos modelos tradicionais de senior living. Países como Suécia, Dinamarca e Noruega desenvolveram alternativas para pessoas independentes que combinam moradia, serviços, segurança e convivência sem transformar o envelhecimento em uma questão exclusivamente assistencial.

É essa visão que Daline busca trazer para o debate brasileiro: uma moradia 60+ não como destino final do envelhecimento, mas como uma escolha de estilo de vida: “precisamos parar de perguntar como adaptar a vida das pessoas ao envelhecimento e começar a perguntar como podemos desenhar cidades, casas e comunidades para que elas continuem vivendo bem ao longo de toda a vida”, conclui.

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